Uma experiência “pedagógica” que deu certo!
Quinta-feira, Julho 22, 2004

Um ano, uma experiência pedagógica.
Esperava-nos um carrossel maluco cheio de expectativas, de esperanças, de dissabores, de altos e baixos, sem monotonia nem descanso. À tempestade, seguia-se a bonança para logo se seguir a tempestade, de novo. Não havia remédios nem mezinhas… Apenas um tentar quotidiano que ia dando resultado ou não, e exigia carradas de paciência nem sempre à disposição. Houve que recorrer ao bom senso que, infelizmente, não se vende em boiões nem em carteiras na farmácia!
Andámos pelos limites! Único consolo: éramos apenas dez os professores martirizados e poderíamos ser muitos mais, se os alunos não tivessem sido colocados todos na mesma turma. Traço que os unia – problemas comportamentais que se reflectiam na aprendizagem, mas, na maior parte dos casos, espertos que nem ratos. Como motivar aquela malta buliçosa, barulhenta, travessa, indisciplinada que transformava o professor no bode expiatório dos problemas que enfrentava em casa? Miúdos que viviam sozinhos e faziam o que lhes apetecia sem serem questionados, miúdos de pais alcoolizados, miúdos com dinheiro sem se saber de onde vinha, miúdos que eram ignorados ou preteridos…

Todas as atitudes tiveram de ser pensadas, repensadas, pesadas e pena foi que os dez professores não conseguissem dirigir a classe com a mesma batuta, ou pelo menos seguindo a mesma partitura. Foi tão difícil! Como uniformizar atitudes de homens e mulheres, com filhos pequenos, adolescentes ou mais crescidinhos, com vidas tão díspares, com os seus desânimos e pesares, alegrias e tristezas? Quais os direitos dos professores? Há um que todos conheciam e conhecem – ser professor dá direito a carregar com os problemas dos outros. «Os senhores façam o que puderem. Eu já não sei o que fazer com ele»! diziam alguns encarregados de educação que apareciam. E os desabafos, as trocas de impressões diárias entre uns e outros pouco ajudavam a suportar a desilusão, o sentimento de incapacidade, de incompetência, de raiva que nos invadiam quando as estratégias que reformulávamos constantemente não pareciam resultar. E os métodos variavam, mas todas as tentativas para chegar até eles faziam ricochete numa parede à prova de bala, numa parede de indiferença, de atitudes provocatórias. E vinha a reflexão em casa, no caminho, na escola. Que vou fazer? Como vou fazer? Ter estudado tanto na vida para depois não saber como agir perante estes garotos, potros selvagens que fugiam até de uma carícia! Havia ocasiões em que chegava a vir à tona um pequeno arrependimento por ter escolhido esta profissão – ser professor/a. Tanto desgaste para quê? Conselhos e mais conselhos… sermão e missa cantada e para quê? Teimavam, teimavam e tudo voltava ao mesmo, tal como os sempre em pé. Porém, havia outras ocasiões em que uma pequena centelha parecia brilhar no fundo do túnel, que surgia, esporadicamente, quando menos se esperava, e quantas vezes sem ter sido preparada nenhuma estratégia especial… Então, nessa altura, a alma ganhava um novo alento e as forças multiplicavam, centuplicavam.

De entre os miúdos sobressaía um.
Arisco, esquivo, rebelde. Contrariava sempre pela negativa. Como fazê-lo superar um tão grande complexo de inferioridade, uma tal sensação de insegurança, uma tão baixa auto-estima? «Eu não sei, eu não sou capaz». Tanta revolta num catraio tão pequeno! Cansados, quantas vezes arrepelávamos os cabelos, inconscientemente. Onde estava a paciência? Onde estava a capacidade de dar a volta? E porque é que tínhamos de dar a volta, de estar sempre presentes, de estender a mão, de ser compreensivos com quem recusava toda a ajuda e sentia prazer em torturar? «É tudo para chamar a atenção!» Pois era, até sabíamos disso, mas, depois de tanto tempo, vem um cansaço e uma vontade enorme de dizer: «Basta! Eu não sou pau para toda a colher. A paciência tem limites.»
Nesse dia, decidi fechar-me na minha concha e deixar correr. Estava cansada, cheia de problemas pessoais que me absorviam praticamente a tempo inteiro e o Jorge estava cada vez pior no dizer dos outros professores. Tudo quanto lhe dizia, caía, pois, em saco roto.
A minha abstenção quase «forçada» durou umas três semanas. Não liguei absolutamente nada ao miúdo e, da mesma forma, a todas as comunicações que me faziam só dizia: «Passa a escrito! Depois eu vejo!» Neste tempo, o Jorge partiu um vidro, destruiu três cestos de papéis aos pontapés e agrediu severamente um colega. Juntei a papelada toda e o inevitável aconteceu – um conselho disciplinar.
Ainda aturdidos com a minha reacção desusada, os colegas olhavam-me de soslaio, enquanto eu ia relatando as ocorrências num tom neutro. Não tomei qualquer atitude defensiva em relação ao Jorge; pelo contrário, abstive-me e analisei tudo friamente e sem tomar partido. Substancialmente diferente da directora de turma que eu fora!! Perante esta minha tomada de posição, o conselho de turma começou a procurar atenuantes para todas as acções desregradas do rapaz. De verdadeiro estafermo, um autêntico diabo, de repente transformara-se num garoto a quem não nasceu um par de asas porque tal era impossível. Afinal, o Jorge até era um bom rapazinho que só precisava de mão firme e de que todos os professores tomassem uma atitude concertada e coerente. Deixei-os falar e fiquei espectadora. Não estava para conversas, por um lado, e, por outro, o meu silêncio estava a dar resultados nunca esperados. A minha cabeça parecia uma bola de pingue- pongue, pesada e simultaneamente cheia de ar quente, extremamente quente. Parecia pesar toneladas. Estava realmente nos limites, como me havia dito a médica. A depressão dava sinal e avançava perigosamente sem nenhuma barreira. As minhas defesas estavam muito em baixo. A discussão acalorava-se, porque não se entendiam quanto à sanção a aplicar. O coitado do Jorge já era tão maltratado pela vida! Filho de pai alcoólico e de mãe prostituta educava-se sozinho na escola da rua de um bairro de lata da grande cidade. Os seus companheiros de brincadeira tratavam por tu a droga, aliás, traficavam-na mesmo e eram ases do fananço, do pequeno e do grande roubo, de assaltos à mão armada ou sem arma, para já não falar de outros crimes puníveis pela lei.

Consciente de que não aguentaria muito mais tempo, retomei a reunião, anunciando num tom absolutamente vago quais eram as sanções passíveis de serem aplicadas. Pessoalmente, eu era a favor da suspensão das aulas com serviço à comunidade, porque o Jorge não deveria ser deixado à solta no ambiente social em que vivia. Assim aconteceu, porque eu assim quis, porque, se deixasse, teria saído dos assados em que se metera apenas com uma repreensão. É difícil ser-se coerente e levar um conselho de turma formado por tantas sensibilidades a cumprir, na íntegra, os critérios que tenham pré- definido para a turma, seja ela qual for. Este foi um caso difícil, mas foi possível regressar aos carris, com um esforço colectivo e efectivo trabalho de grupo por parte dos docentes.
Alguns anos passaram.
Então como agora não é fácil ser professor e, em época de Reorganização Curricular e de Reformas, a tarefa ficou ainda mais complicada, porque nós, professores, não somos ouvidos, apenas somos massa anónima para cumprir o que os outros concluem ser bom para a Educação nos seus gabinetes aquecidos ou refrescados, conforme a estação do ano.

Teresa Portal