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Uma casa onde cabem as memórias do “ser” colectivo vimaranense
Quinta-feira, Setembro 24, 2015

A Casa da Memória abrirá portas na primavera do próximo ano. O projecto de construção do repositório da memória vimaranense está em marcha, mas deverá enfrentar os desafios e dificuldades dos restantes equipamentos culturais de Guimarães.

A Casa da Memória, em Guimarães, já tem data de abertura marcada – 19 de Março de 2016. O anúncio foi feito pelo presidente da Câmara Municipal, Domingos Bragança. Foi abandonada a data de 23 de Dezembro, inicialmente equacionada, que tinha o simbolismo do aniversário da nomeação do Centro Histórico de Guimarães como património da humanidade, pela UNESCO. A nova data permitirá garantir que tudo está pronto “com o grau de exigência que defendemos”, explicou Domingos Bragança.

Este equipamento cultural fará parte da rede existente na cidade. A sua génese remonta ao processo de candidatura de Guimarães – Capital Europeia da Cultura e consistia na atribuição de uma nova qualidade ao edifício onde funcionou a Fábrica Pátria, na Avenida Conde Margaride. Este foi um dos projectos lançados nessa altura, juntamente com a requalificação do Mercado Municipal no que é, hoje, a Plataforma das Artes e da Criatividade, estrutura que alberga o Centro Internacional das Artes José de Guimarães.

Estes novos equipamentos culturais juntaram-se então ao Centro Cultural Vila Flor, que completa dez anos, em 2015. No entender de José Bastos, o Vereador da Cultura do município vimaranense, a “Casa da Memória será um equipamento que fará parte de uma rede de equipamentos que orgulha a cidade de Guimarães” em complementaridade com a atractividade cultural e turística da cidade.

Mas, o que será então a Casa da Memória de Guimarães? Não será só um museu, não será só um arquivo, nem só uma biblioteca. Será uma parte de tudo isto e, no final, será possível perceber de que são feitas as memórias dos vimaranenses – quer para os que a constroem (os próprios vimaranenses), quer para os que visitam a cidade.

Joana Fernandes e Eduardo Brito, que fazem parte da equipa que há cerca de um ano tem vindo a trabalhar no processo, tratam de explicar. A Casa da Memória estará organizada em três valências – a expositiva, composta por duas áreas de exposição permanente e um espaço para exposições temporárias; o repositório, onde se cumprirá a função de abrigo de informação; e uma valência de mediação e interpretação, através do desenvolvimento de um programa permanente.

Há neste momento várias equipas a trabalhar na Casa da Memória. Joana Fernandes e Eduardo Brito estão a coordenar a execução do Plano Operacional, que teve como missão o delinear do referencial estratégico do que será a Casa da Memória. Além desta equipa, outras estão a trabalhar no layout do espaço expositivo e outra nos conteúdos.

Para Joana Fernandes é fundamental que o aparecimento da Casa da Memória se articule com os espaços culturais existentes na cidade – “temos que perceber o que é hoje a oferta cultural e turística da cidade e procurar perceber que posicionamento pode ter um equipamento como este”. Esse exercício passou por conhecer outros casos de equipamentos semelhantes no país e no mundo.

A memória é um processo em permanente construção, baseado em factos documentados, mas também em hipóteses e em mitos urbanos, das pequenas falhas de memória. À medida que a densidade das memórias são mais escassas, os testemunhos tendem a ser mais subjectivos – “é um processo de construção, que nasce no plano individual, mas que é também fruto da construção colectiva”, explica Joana Fernandes.

O conceito que se procura para uma casa da memória alinha-se com a função de outros equipamentos como os arquivos, as bibliotecas, os museus. Em Guimarães já existem equipamentos destes géneros e, por isso, importou aos responsáveis pelo desenvolvimento do projecto criar uma alternativa, tendo em conta aquilo que já existe – “interessava-nos criar um complexo expositivo que não se esgote aí e que seja também um repositório, que explorasse todas estas questões da memória, que as pessoas tendem a dar por adquirida”, sustenta Eduardo Brito.

A organização do espaço expositivo partirá das evidências mais objectivas que nos chegam e que fazem parte da componente do território. Evidências objectivas são elementos como a fotografia, a cartografia, os mapas, as fotografias. Uma segunda nave será dedicada à comunidade, às pessoas. “Guimarães é um local onde acontecem histórias, como em todos os sítios do mundo, onde as pessoas vivem e morrem, têm emoções, onde amam. As memórias individuais são o que a tornam única” – explica Eduardo Brito. Aqui irão combinar-se as memórias individuais, subjectivas, de cada um, que constroem aquela que é a memória colectiva – “a memória é uma faculdade particularmente curiosa porque implica muitos dos seus contrários e se define também por oposições, é subjectiva”.

No fim, a Casa da Memória deverá ser um local onde cada vimaranense se poderá rever e, para isso, foi preciso procurar algo de unificador, que unisse as várias formas de ser vimaranense. Nas várias entrevistas que foram feitas, houve uma questão que funcionou como elemento unificador – “qual é a memória mais marcante de Guimarães? Não é a mais antiga, a mais recente, mas a mais marcante. Aí cada um tem a sua resposta, mas o conjunto destas respostas permitirá perceber de que é feita a memória dos vimaranenses”, explica Eduardo Brito, para a seguir concluir – “vamos tentar criar um espaço onde nos lembramos de Guimarães, a partir de Guimarães”.

O novo equipamento surge numa altura de impasse, particularmente na gestão dos equipamentos culturais da cidade geridos pela cooperativa A Oficina, participada maioritariamente pela Câmara Municipal, desde que um diploma legal atirou para um desfecho ainda incerto.

O jornal Público fazia por estes dias um trabalho de balanço dos dez anos do Centro Cultural Vila Flor. Aí, Frederico Queiroz, Director-Executivo d’A Oficina, admite que “era expectável que 2013 fosse um ano «de ressaca» da CEC, após o qual seria necessário lançar novas linhas para o projecto. «É aqui que entra o problema criado pela Lei 50/2012»”, com consequências directas ao nível da programação, da manutenção e da captação de público.

A execução do projecto Casa da Memória, a sua gestão e manutenção, poderá também ter que enfrentar as dificuldades e constrangimentos que trespassam Guimarães, após 2012.