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Tudo isto é triste
Segunda-feira, Fevereiro 7, 2011

A Internet é um meio privilegiado de partilha de informação a nível global. A facilidade com que se partilha, simultaneamente, a informação por milhares de utilizadores enche de espanto quem aprendeu a ler e a escrever em “lousa”. A caixa de correio electrónico recebe, cada vez mais, informação de gente que está verdadeiramente interessada na sua divulgação geral.

Numa dessas mensagens chegou-me uma citação de um artigo de Eça de Queiroz, de 1867, alegadamente escrito no jornal “Distrito de Évora” onde se diz: “Ordinariamente todos os ministros são inteligentes, escrevem bem, discursam com cortesia e pura dicção, vão a faustosas inaugurações e são excelentes convivas. Porém, são nulos a resolver crises. Não têm a austeridade, nem a concepção, nem o instinto político, nem a experiência que faz o estadista. É assim que há muito tempo em Portugal são regidos os destinos políticos. Política de acaso, política de compadrio, política de expediente. País governado ao acaso, governado por vaidades e por interesses, por especulação e corrupção, por privilégio e influência de camarilha, será possível conservar a sua independência?

Se o texto precedente fosse escrito nos dias de hoje, ninguém notaria a sua não actualidade.

Mas é uma fatalidade, é o nosso fado, o nosso destino, a nossa desgraça sermos assim? Já o somos desde, pelo menos, o século XIX; já nos retratámos desta maneira no século XVI. No século XXI continuámos a ver-nos assim.

Vaidades; interesses; acaso; privilégios.

Não será muito difícil pegar naquelas palavras e aplicá-las à política concelhia: faustosas inaugurações mesmo daquilo que não merece ser inaugurado; obras feitas ao acaso sem um mínimo de utilidade; privilégios para os militantes do partido – nomeações para as empresas municipais e criação de uma classe de assessores.

Esta é a nossa cultura que me recuso a aceitar. Na verdade, nas últimas eleições autárquicas foi defendida a ideia, por gente indiscutivelmente inteligente ligada ao PS, que os presidentes da junta deviam submissão ao presidente da câmara; que não deviam contrariá-lo; e que só as pessoas que se davam bem com o PC é que poderiam obter vantagens para a freguesia. Essa ideia é a consagração do período da citação do excerto de Eça de Queiroz: “Politica do acaso, politica de compadrio, politica de expediente”.

Há gente inteligente, bem vestida e bem-falante na nossa terra, que acolhe e acaricia esta ideia e esta forma de estar. Há gente inteligente, bem vestida e bem-falante, na nossa terra, que admite que as opiniões, as posições autónomas e independentes, devem perecer em face do expediente, do compadrio e do acaso tudo em nome de vantagens duvidosas e pouco discutidas.

Apesar disso, não embarco nessa cultura de negação das ideias por causa de interesses partidários e de estratégia partidária. Há vozes; há ideias; há perspectivas divergentes que não devem ser anuladas. Cesse a penalização (perseguição) das pessoas que têm opinião por “ditos” democráticos.

Afinal, nem tudo isto existe, nem tudo isto é fado. Mas é triste.