Tradições, Páscoa e Cultura à mistura!
Sexta-feira, Abril 30, 2004

As tradições, o orgulho de ser Português, a consciência de sermos uma nação. Por onde anda tudo isso é a questão que se coloca cada vez com maior pertinência.

Por onde anda o orgulho da raça lusitana? Por onde anda a alma lusitana que nos habitava? Perdida na globalização, que nos diz que somos Europeus e que temos de cumprir as normas que vêm lá de fora e que temos de respirar segundo a batuta dos que estipulam regras comuns para povos tão diferentes, com culturas tão diversificadas, com línguas, religiões e costumes tão diversos como os dedos da mão? Como tornar igual o que, à partida, já nasceu diferente? Como dar as mesmas oportunidades e procurar equilibrar e tornar justo o que já nasceu desigual e injusto? Somos o parente pobre da U.E. ou, pelo menos, um dos parentes pobres e estamos cada vez mais enterrados numa perda de identidade (fruto da tal aldeia global!) cuja riqueza era por todos reconhecida. Podíamos viver dos louros do século XVI (mas ainda assim não éramos tão maus quanto os gregos que vivem dos louros de há cinco mil anos!), mas, teimosamente, orgulhosamente, sabíamos ser os vencedores «dos mares nunca dantes navegados» e tínhamos orgulho na nossa «raça». «Eu canto o peito ilustre lusitano» gritou o nosso épico às sete partidas do mundo, «a quem Neptuno e Marte obedeceram». Acaso algum Deus nos obedeceria nos dias de hoje? Marte viria em nosso auxílio? Nação guerreira, indómita, aventureira, hoje??? Neptuno, senhor dos mares, teria hoje a mesma opinião de outrora? Vénus tomaria as nossas dores e acorreria a nosso favor? Não creio que esses deuses, habitantes do Olimpo, se interessassem pelo pequeno país em que nos tornamos. Só se forem os deuses de uma nova mitologia – o Deus da Indiferença, da Abstenção, do Desenrascanço, do Deixa-andar que o que vier virá e depois se verá.

Ah! Camões! Como deves agora dar voltas no túmulo ao veres o que estes novos portugueses andam a fazer a este país outrora tão temido, tão respeitado! E tu, pobre poeta, expoente máximo da nossa literatura, qualquer dia serás reduzido a um silêncio tumular. Tu que estás cada vez mais afastado dos nossos jovens na companhia de muitos dos nossos clássicos que vão sendo arrumados em prateleiras bafientas escondidas nos escaninhos da memória dos tempos! Desde quando nos começamos a envergonhar do nosso passado glorioso? Desde quando os «nossos egrégios avós» não são tidos em consideração? Desde que a U.E. dita leis?

Ninguém pode seguir em frente sem conhecer as suas raízes. Só se souber de onde venho e quem sou é que poderei saber para onde vou e, muito mais importante, se quero ir e para onde quero ir. Nunca fomos de curvar a cerviz e de dizer Amén. Que se passa então com esta alma lusitana que esqueceu os seus heróis, Viriato, Afonso Henriques, D.JoãoI e seu filho D. Henrique, o Condestável, os grandes navegadores, os capitães de Abril… as suas vitórias: Ourique, Salado, Aljubarrota, a Revolução dos Cravos e, principalmente, admite que coloquem na gaveta do esquecimento os grandes poetas e romancistas, os grandes historiadores e as personalidades do passado que nos tornaram no que somos?

Tenho orgulho de ser portuguesa, tenho orgulho dos meus antepassados e da História que nos tornou únicos, admiro o engenho dos que lutaram com tão pouco e com tão grande coragem. Acho que estamos a precisar de mais padeiras de Aljubarrota para corrermos à espadelada com quem está a tentar abafar a nossa cultura e tornar-nos, como já aconteceu por um período negro de sessenta anos, numa província espanhola. Isso até já aparece na Internet! Temos de elevar a nossa voz e dizer, gritar bem alto e em uníssono – NÃO, um não que seja ouvido e atendido.

«Heróis do mar, nobre povo, nação valente» canta o nosso hino, da mesma forma que é celebrado nos LUSÍADAS de Camões. E volto à vaca fria. Até quando «o peito ilustre lusitano» marcará presença no sistema educativo português? Sim, porque lá fora já perdemos a batalha e deixamos que a Espanha tomasse o nosso lugar. Hoje, os nossos alunos, quando vão para França, têm Espanhol e não Português. Lembro-me de ter lido recentemente uma crónica onde alguém mostrava preocupação e comentava que os Lusíadas só não eram mais lidos, porque nós não tínhamos tido a força nem a garra de tornar a Língua Portuguesa numa das línguas mais importantes da U.E., já que o nosso poema em nada ficava a dever à Eneida de Virgílio, sua fonte inspiradora. Não sei se vamos conseguir recuperar o perdido, porque, à nossa boa maneira, não vamos mexer uma palha. Vamos ficar à espera a ver o que vai acontecer…

As tradições, os costumes, o «cheirinho», o «sabor», o «sentir» Portugueses estão a perder-se. E para isso contribuem também os nossos cineastas que, só no passado, procuraram inspiração no nosso povo. Hoje, tudo aparece retratado, menos a sociedade portuguesa. Tantas obras de autores portugueses foram filmadas e nunca mais se fizeram reposições, porquê? Parece que passaram de moda. Onde pára Camilo Castelo Branco? Onde pára Alexandre Herculano? Alguns há como Garrett e Gil Vicente que teimosamente vão sendo mantidos nos programas… Nada tenho contra a literatura do século XX, principalmente a que ainda tem os seus autores vivos, mas não será um pouco redutor falarmos dos recentes e esquecermos quem fez parte do nosso passado e ajudou a tornarmo-nos no que somos hoje? Tenho a certeza de que se houvesse prémios Nobel na altura, Camões teria sido galardoado. Fala-se em motivação e o único filme da vida do nosso épico continua a ser aquele tão velhinho, a preto e branco, já tantas vezes revisto… Não teria já Camões merecido um outro filme, um grande épico sobre a sua vida e obra? Não se revê um povo nos seus heróis? Então, até talvez o filme fosse um sucesso de bilheteira! Mas só em Portugal é que isso não acontece. Com uma história tão rica, ninguém parece interessado em fazer sagas históricas, porque a criatividade não chega a tanto! É difícil colocar a história de um povo em película, quando a qualidade dos heróis é tal que talvez não existam realizadores à altura e possivelmente não os há, porque não há vontade.

Muito mal vai a cultura em Portugal! Parece que tudo quanto é tradição é sinal de vergonha, de fraqueza. Porquê? Temos tradições, devemos mantê-las. É isso que nos distingue dos outros. Dizia no outro dia um pai que, na família da mulher, depois das nove horas da noite, só o pai pode andar com o filho recém-nascido na rua e com uma caixa de fósforos no berço. Por acaso, já ouvira falar deste costume (Não sei se é só desta zona!), mas gostei de ver que a tradição familiar é mantida. Eu própria mantenho alguns costumes, que me vêm da família. Chamem-lhe o que quiserem. Até superstições! Isolem. Batam na madeira. Mas isso mantém um elo familiar que nos liga fortemente às nossas raízes. Por exemplo, em casa, nunca somos treze à mesa, porque na Última Ceia eram treze à mesa e um dos presentes tornou-se num traidor. Então, quando éramos/ somos treze à mesa, havia/ há várias hipóteses: ou sai o mais velho ou o mais novo; ou se colocava/ coloca um 14º lugar vazio, para que Deus venha cear connosco; ou se convidava/ convida uma pessoa suplementar. Hoje em dia, o problema resolve-se com duas mesas – uma para os adultos e outra para as crianças. É superstição? Talvez. Porém, já a minha bisavó fazia, a minha avó, a minha mãe e agora eu e os meus irmãos. E sinto-me muito bem, porque é como se uma cadeia se estabelecesse com todos esses ausentes que, de alguma forma continuam a estar presentes, porque são efectivamente recordados nessas e noutras ocasiões. São raízes que permaneceram e continuam a germinar. Outro dos costumes que mantenho é colocar uma laranja por cima da oferta da Páscoa. Já vi caras admiradas perante o ritual que não é habitual; no entanto, este ano, uma jovem que vinha com o compasso de St.º Estêvão (sou uma sortuda, porque vivendo no extremo de S. Cláudio, recebo as duas cruzes!) comentou o facto da laranja ali estar e recordou o que a avó lhe tinha contado. «Se há uma laranja, a oferta é pequena!» disse. «Não, não é esse o sentido que lhe damos na zona de onde venho!» apenas lhe respondi (a família da minha mãe vem do Vouga, mais precisamente de Cesar, perto de Oliveira de Azeméis) e ela logo acrescentou «A família é representada pelos gomos da laranja e, tal como eles, a família é unida!» Esta é a explicação que eu atribuo. Será que essa avozinha, perdida aqui no Minho, terá vindo do Vouga? Estes são costumes, tradições que nos mantêm na mesma onda dos nossos ancestrais e que a mim, pessoalmente, me fazem sentir muito bem, em comunhão com quem me antecedeu e com quem me vai suceder.

O passado e o presente têm de dar as mãos e de estar presentes na construção do nosso futuro, para que não nos sintamos desenraizados. É muito importante identificarmos as nossas raízes, conhecermo-las, tratarmo-las por tu, para que tudo quanto possa vir de fora, de diferente, não consiga abanar-nos nas nossas crenças, nos nossos sentimentos, e, acima de tudo, nos nossos quereres. Eu só mudo o que quero, quando quero e se quiser.

Tenho algumas certezas imutáveis: sou portuguesa e tenho orgulho de o ser e, venha o que vier da U.E., nunca deixarei de me sentir sempre e em primeiro lugar parte deste pequeno jardim à beira-mar plantado e só espero conseguir transmitir aos meus alunos (e continuar a fazê-lo!) o meu amor pela Língua e pela Cultura Portuguesas.

Não sei se fui clara, mas falei ao correr da pena. Foram desabafos e alguns pequenos factos pitorescos que me chamaram a atenção por este ou aquele motivo a propósito da Páscoa e dos Lusíadas que vou procurar ensinar aos meus alunos como o poema magnífico que é, como um hino único à nossa alma lusíada que, pese embora o que uns e outros andam a fazer à cultura portuguesa, tem de continuar a estar presente principalmente neste ano em que se comemoram os 30 anos da Liberdade e da Revolução dos Cravos e ainda se ouvem os ecos longínquos do grito que saía em uníssono das gargantas: «O Povo Unido jamais será vencido!»

Abril 2004