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Torcato, “Muça” e os mouros em Guimarães
Quinta-feira, Maio 12, 2016

26 de Fevereiro de 719. Torcato Félix, Bispo de Braga, é supliciado pelos muçulmanos invasores, às ordens do sarraceno “Muça”, depois de se lhes ter dirigido, com o seu séquito, advertindo-os sobre os males infligidos à Cristandade. O martírio aconteceu perto da sua sede episcopal, ali não muito longe de onde antes estava a “cidade da Citânia”. Foi-lhe erigido um túmulo no próprio local, dando origem a um conhecido e concorrido santuário, onde se venera o seu corpo incorrupto. Esta é a lenda. Que haverá nela de verdade?

Quando lidamos com períodos históricos muito recuados, o desenrolar dos acontecimentos históricos está frequentemente envolto numa nuvem de incertezas, levantadas pela pouca fiabilidade, ou contradição, das fontes escritas, quase sempre datadas de época posterior. Este nosso Torcato Félix, ou Félix Torcato, natural de Toledo, é o São Torcato venerado no santuário próximo de Guimarães, na vila que ficou com o seu nome. Já o lendário “Muça”, poderia ser Musa ibne Nusayr, ou o seu filho ‘Abd al-‘Aziz ibn Musa ibn Nusayr, ou mesmo nenhum dos dois, porque se atendermos à data lendária da morte de Torcato, 719, já estes dois últimos sarracenos estariam mortos. E teriam alguma vez estado por estas bandas estes importantes personagens da hierarquia Omíada? Seria este “Muça”, algoz de São Torcato, um muçulmano? Não será uma personagem mítica, como tantas outras que conhecemos ao longo da História?

Na vila de São Torcato, próxima do santuário moderno, encontra-se a Igreja Velha de São Torcato, local do anterior santuário. No entanto, uma intervenção realizada em 1987 por uma equipa da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, coordenada por Luís Fontes, permitiu apurar que a atual “igreja velha” passou por diversas modificações aos longo dos tempos. Os vestígios mais antigos, segundo as conclusões desta mesma equipa, correspondem a um edifício pré-românico fundado na segunda metade do século X, correspondendo com as fontes escritas que mencionam o mosteiro de São Torcato no inventário dos bens do mosteiro de Guimarães (1059). A esta primeira fase se reportam os elementos decorativos em calcário, também eles anteriores ao românico (e, por isso, tradicionalmente referidos como “visigóticos”), que ainda se encontram reaproveitados nas paredes, e que dão uma ideia da primeira igreja construída no local da “Igreja Velha”.

Ou seja, existe um hiato de tempo entre a época em que, segundo as fontes, Torcato Félix foi martirizado, o século VIII, e os dados arqueológicos que identificam, de forma conclusiva, os vestígios mais antigos como datados do século X. Poderá isto indicar que existiu um primeiro santuário noutro local, o que explicaria a ausência de vestígios mais antigos no sítio da Igreja Velha?

Uma coisa nos parece clara. Existe uma considerável dose de criatividade (não necessariamente recente, atentemos) neste tema, e em outros similares, quando se tentam associar episódios ou personagens históricos a locais específicos. Também nos parece que talvez os sarracenos, concretamente este misterioso “Muça”, pouco terá que ver com o episódio do martírio de Torcato.

Arqueólogo da Sociedade Martins Sarmento