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Terras de Sande e a minha escola
Sexta-feira, Abril 30, 2004

Pedem-me para vos falar sobre as recordações da minha escola e sobre a História da nossa Terra. Tema vastíssimo que nos daria horas e horas de conversa. Vou procurar ser breve para não vos saturar.

Como devem saber, a divisão do país em concelhos, não existia quando D. Afonso Henriques, após aquela primeira tarde portuguesa acontecer no dia 24 de Junho de 1128 nas cercanias de Guimarães, na chamada Batalha de S. Mamede, começou a alargar os limites de Portugal em direcção ao sul em terras de moiros.

Um grande historiador espanhol, Sanchez Albornoz, veio rectificar a tese de Alexandre Herculano que defendia a ideia de que o Municipalismo tem as suas raízes no domínio da Península nos tempos dos romanos e visigodos.

Estudos sérios e profundos de ilustres historiadores como Paulo Merêa e Marcelo Caetano, revelam-nos que os actuais concelhos se foram formando após os primeiros séculos da Dinastia Afonsina. Os antigos desapareceram durante o domínio muçulmano.

Antes, a administração local e os órgãos jurisdicionais confundiam-se. Os Julgados Régios existiam ao lado de Terras Senhoriais que gozavam de uma autonomia rudimentar.

As muito antigas Terras de Sande em que nos encontramos, estendiam-se desde a margem direita do Ave até ao Monte de Espinho, hoje mais conhecido por Monte Sameiro e à Serra da Falperra em cujo cocuruto está implantada a belíssima igreja de Stª Maria Madalena que já foi cobiçada por ignorantes atrevidos mas que a autarquia de Longos – e muito bem! – defendeu como seu património e portanto de Guimarães.

No sentido sudoeste/nordeste as Terras de Sande iam desde a freguesia de Stª Maria de Vila Nova de Sande até Briteiros cuja Citânia permitiu ao sábio arqueólogo vimaranense Martins Sarmento espalhar o nome da nossa terra por todo o mundo culto. Eram dezanove freguesias que viviam na zona de influência do Mosteiro de Sande e de que hoje restam onze. Oito desapareceram através dos tempos: em Longos, além da actual, existiam mais duas, S. Martinho do Monte e S. Felix ou Sanfins de Mouriçô. Em Sande que até ao sec. XV englobava a de S. Martinho, onde se encontrava o mosteiro, e as de S. Clemente e de S. Lourenço, desapareceram as de St.ª Maria de Sever e a de S. Pedro de Ruivós. Em St.ª Maria de Vila Nova de Sande existiu mais uma outra, S. Martinho de Vila Nova. Balazar incluía a de Stª Maria de Pousada cuja igreja, de bela traça, foi a tempo preservada pela família Dias de Castro. Caso contrário, estaria a estas horas a guarnecer qualquer muro… Em Salvador de Briteiros desapareceu a de S. Pedro de Britelo e, finalmente, em Caldelas (S. Tomé) seguiu o mesmo destino a freguesia de St.ª Eulália de Lamas.

No aspecto civil, as Terras de Sande usufruíam de autonomia, apenas subordinadas ao Poder Real. No aspecto religioso, incorporadas na gloriosa Diocese Primaz das Espanhas, dependiam do Arcediagado de Lanhoso e, posteriormente, do Arcediagado das Terras de Vermoim.

Só mais tarde, com a organização em municípios, todas estas freguesias foram incluídas no concelho de Guimarães.

Como seria bom que na vossa escola se criasse uma disciplina de História Local para que do vosso meio surgissem vocações para explorar tantos documentos que existem nos Arquivos Distritais de Braga e Guimarães, para não falar do imenso espólio que dorme nos intermináveis quilómetros de estantes da famosa Torre do Tombo, em Lisboa e da riquíssima bibliografia que a Sociedade Martins Sarmento alberga em Guimarães.

É que o amor à nossa terra, a ligação telúrica que a ela nos une, serão tanto maiores quanto melhor conhecermos a sua história. E a de Guimarães e seu concelho é das mais ricas se não a mais rica de Portugal. É a terra em que todos nos devemos rever porque a afirmação de que ali nasceu Portugal, não é mera figura de retórica mas sim uma verdade historicamente irrefutável. E foi na escola, na minha saudosa Escola de Sande, no Lugar das Gaias que, como o Lugar das Pontes onde nasci, Camilo citou num dos seus romances, que eu me preparei para beber estes conhecimentos. Foi com um professor competentíssimo que eu aprendi a admirar a minha terra e a conhecê-la através da sua admirável História. E nem se diga que era produto de um bairrismo exagerado pois nem sequer era oriundo do nosso concelho porque nasceu no vizinho de Braga.

Falar da minha Escola é um mundo de emoções que me invade a alma. Com os exemplos que colhi no santuário da minha família e da Igreja em que fui baptizado, foi na escola que, logo aos seis anos, tive o privilégio de encontrar um mestre que me iniciou nos grandes valores que dão sentido à vida. Aquelas quintas-feiras com as lições de Moral e Educação Cívica, ficaram-se-me gravadas no meu arquivo de memórias de forma indelével e têm-me acompanhado na minha existência já bastante alongada.

Mas se era um professor insigne em todos os aspectos do saber que o programa previa, dois temas me motivaram de forma especial e me falaram à minha inteligência e ao meu coração de criança: a Língua Materna e a História–Pátria. Aquelas leituras devidamente interpretadas – ali ainda não entrava a ileteracia destes tempos… – analisadas gramaticalmente, nos aspectos fonético, morfológico e sintáctico; aqueles ditados sem erros a merecer uns Bês barrigudos que tanta satisfação nos causava; aquela forma entusiasmante de ensinar a história de um Portugal de Santos e Heróis que, após esgotar o espaço peninsular, se atirou ao mar desconhecido e misterioso em frágeis caravelas cumprindo a sua vocação de “dar novos mundos ao mundo”!

Se é certo que o amor aos livros nasceu comigo pois de tenra idade, ainda antes de saber ler passava tempos e tempos a folheá-los, foi o meu professor que me desenvolveu esta paixão que me permitiu adquirir, pela vida fora, autênticas preciosidades literárias que me dão momentos de intenso prazer.

Desde as Crónicas e Cancioneiros da Idade–Média, aos códices alcobacenses; desde o chamado “pai da História” Fernão Lopes e Garcia de Rezende, a Gomes de Zurara, João de Barros, Diogo do Couto, Damião de Gois, Castanheda, Gaspar Correia, Luiz de Camões e Gil Vicente; os grandes clássicos Manuel Bernardes, Frei Heitor Pinto, Amador Arrais, Frei Tomé de Jesus, Francisco Rodrigues Lobo, José Agostinho de Macedo, Frei Luiz de Sousa, D. Francisco Manuel de Melo, “o príncipe da oratória” António Vieira dos séc. XV ao XVIII. O séc. XIX com aquela galeria extraordinária de prosadores e poetas como Garrett, Castilho, Alexandre Herculano, Ramalho Ortigão, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Júlio Diniz, Fialho de Almeida, Antero de Quental, o grande e imortal Camilo Castelo Branco e tantos outros.

Na história, além de inúmeras monografias, a História de Portugal desde a 1ª edição de Alexandre Herculano à de Oliveira Martins, Pinheiro Chagas, Rebelo da Silva, à do erudito vimaranense Alfredo Pimenta, Luiz Gonzaga de Azevedo, Fortunato de Almeida, José Matoso, Medina, Hermano Saraiva, Veríssimo Serrão, à monumental que comemorou os Centenários, coordenada pelo ilustre Damião Peres, impressa em Barcelos.

No mundo da Filologia e Linguística, numerosíssimos volumes assinados por Augusto Moreno, Cândido de Figueiredo, Xavier Fernandes, Gonçalves Viana, Leite de Vasconcelos e Vasco Botelho do Amaral.

Do mundo das publicações periódicas, com mais de três mil títulos em milhares de volumes, destaco para não me alongar mais, na secção histórica a Revista de História de Fidelino de Figueiredo, a da Faculdade de Letras de Coimbra, o raríssimo Arquivo Histórico de Anselmo Braancamp Freire e o não menos raro Arqueólogo Português.

Na linguística e etnologia a preciosa e rara Revista Lusitana que o génio e capacidade de trabalho de Leite de Vasconcelos nos legou, a pouco vulgar “Língua Portuguesa” de Rodrigo Sá Nogueira e a “Portugália” onde Martins Sarmento publicou o seu último trabalho.

Pela sua raridade e valor e porque há bem pouco tempo deu lugar a uma autêntica romaria por parte de alunos da Universidade do Minho pois na sua biblioteca não existe, alunos dos quais, alguns oriundos desta escola que a foram consultar, pelos vistos com proveito na resolução de problemas do seu curso, cito o “Instituto” de Coimbra que, só por si, é uma autêntica biblioteca!

Repito, tudo isto e muito mais foi possível juntar na minha livraria porque dos seis aos dez anos Alguém se encarregou de me iniciar neste sonho de beleza que encheu – e enche! – a minha vida. Por isso não há uma noite em que, ao deitar-me, estabeleço o meu diálogo diário com Deus, não junte o nome do meu professor, João Rodrigues Marques, ao dos meus pais. Estes proporcionaram-me o dom inestimável da vida; o professor orientou-me os primeiros passos desta trajectória que me foi e é dado viver.

Não ficaria de bem com a minha consciência se não aproveitasse a ocasião para vos esclarecer uma ideia que considero errada e que anda p’raí a ser espalhada impunemente: Antes de 1926 isto era o paraíso que se transformou em noite escura como breu até à manhã redentora de Abril. Se consultardes qualquer compêndio sério de história verificareis que desde o segundo decénio do séc. XIX ao fim do primeiro quarto do séc. XX, foram cem anos de quási permanente guerra civil. E as guerras como dizia António Vieira, são “aquele monstro que sorve vidas e fazendas”. Os nossos pais e avós contavam das boas. Por isso eu que nasci em 1929, ano em que o “crash” de Nova Iorque condicionou fortemente a vida mundial nos anos 30, posso testemunhar que isso não é verdade. Por outro lado a guerra civil Espanhola e a 2ª Grande Guerra agravaram a situação económica de forma dramática. Fomos miraculosamente poupados aos dantescos bombardeamentos que arrasaram cidades inteiras por essa Europa fora e que levaram a desgraça, a miséria e a morte a milhões de lares.

A nossa escola não tinha as condições de que vocês hoje desfrutam. Não tínhamos aquecimento, não tínhamos bibliotecas nem sequer empregadas de limpeza. Por isso reinava a regra de que quem sujava, limpava!

Nem por isso, no entanto, deixo de considerar aquela época, a era doirada da minha vida!

Em Sande, a partir do meu 2º ano na escola, passamos a beneficiar de uma refeição diária que um benemérito local proporcionou durante largos anos e que a ingratidão dos homens se esqueceu de homenagear em qualquer esquina de caminho, preterido por outros que bem melhor seria manter no esquecimento. Conto largos que a minha privilegiada memória não deixa cair no olvido.

É tempo de acabar, não sem antes vos apresentar uma ou duas sugestões que a minha experiência vivencial me permite fazer-vos:

Aproveitai o tempo pois cada hora que passa não volta mais. Só o estudo consciente e atenção rigorosa nas aulas ajudarão a fazer de vós homens e mulheres capazes de vencer num mundo cada vez mais complicado e competitivo.

Respeitai e acarinhai os vossos professores; a vida vos ensinará que, com os vossos pais, eles são os vossos melhores amigos!

Escola Básica 2-3, das Taipas, 27 de Abril de 2004