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Tempos de mudança
Segunda-feira, Agosto 8, 2005

O Futebol foi a mola impulsionadora que atraiu estes turistas – assim como muitos outros a nosso país.
A ligação a Portugal foi de tal forma estreita que estes amantes do futebol procuraram “beber” um pouco de tudo da nossa sociedade.
O futebol, claro está, sempre em primeiro lugar. “E que tal está o FC Porto, essa máquina trituradora que na época passada fartou-se de arrebatar títulos?”, perguntou-me um deles, de olhos grandes, sardas na cara, e com uma vestimenta muito colorida. “Bom, o FC Porto continua a ser uma referência do futebol português, mas este ano não ganhou nada”. O Campeão em título, agora, é o Benfica. “O Benfica?!”, respondeu-me o outro turista, que parecia a leste do diálogo, mas logo se intrometeu, quando soube de tamanha novidade. “Mas esse clube já não ganhava desde o tempo do Eusébio?!” – interrogou-se, com alguma estupefacção. – “Bem, não passou tanto tempo assim, mas é verdade o Benfica foi o Campeão com Trapattonni a treinador”.
“O Trapatonni, aquele que orientou a Selecção da Itália no Europeu” – perguntou o turista “colorido”. “Esse mesmo”, assenti.
Um gole de cerveja motivou a mudança de página. O futebol deixou de ser tema, mas Portugal continua sempre como assunto prioridade. O turista de nome Simon, parecia interessar-me por muito mais além do futebol. “E na política, o vosso primeiro-ministro, aquele que ouviu uma assobiadela monumental no Estádio da Luz, o Durão Barroso, já conquistou o afecto dos portugueses?”. Eis uma pergunta que me entalou, e nem sequer estava a beber.
Tentei explicar que, desde o Euro’2004, há um ano precisamente, muita coisa mudou por cá. Já passaram dois Primeiros Ministros desde José Manuel Durão Barroso, o tal que ouviu uma monumental assobiadela no Estádio da Luz, e de certa forma ficou marcado na memória destes dois holandeses, que apenas vieram a Portugal “beber” um pouco da nossa cultura.
“Mas, vocês continuam a ter grandes estádios” – prosseguiu um deles, sem paciência para ouvir as muitas mudanças que aconteceram no nosso país.
“Lembras-te daqueles dias loucos no Algarve?” – eu já estava fora do
diálogo, a conversa fluía em inglês entre ambos. “Que dias loucos! Mas, afinal, quem joga naquele estádio do Algarve?”. Eu estava novamente em jogo e tinha de entrar na conversa. Pareciam que tinham as perguntas na ponta da língua e eu, com o meu inglês um pouco enferrujado, tentei desembaraçar-me deste nó. “O Estádio do Algarve é Municipal, designado por Estádio Faro-Loulé. Serve de palco para alguns acontecimentos desportivos, mas se pensam em ver um clube da Super Liga a jogar lá, terão de esperar muito tempo. Este ano ainda houve um jogo marcante, quando um clube de Cascais, perto de Lisboa, fez daquele estádio a sua casa para jogar com o Benfica, mas isso seria uma história muito comprida para estar aqui a contar”, disse, numa tentativa de evitar a mais perguntas incómodas. “Bom, daqui vamos para Aveiro. Por desafio de uma pessoa de Aveiro, no ano passado, fomos convidados a fazer-nos sócios do clube. Ainda temos o cartão com a nossa linda fotografia, mas não sabemos nada do clube”. Bem, “o clube é o Beira-Mar” – eles nem sabiam o nome do clube – “e, para vossa informação, tenho a dizer que desceu para II Liga…”, – “mas, com um estádio daqueles” – atirou-me um deles, como a reprovar aquilo que eu tinha dito… Limitei-me a encolher os ombros e afastei-me ligeiramente, antes que as minhas honestas respostas causassem mossas… Já afastado, ainda com a atenção naqueles dois aventureiros, ouvi um deles a desabafar. “Bem diziam que depois do Euro’2004, este país não seria o mesmo. Já viste as mudanças que aconteceram em apenas um ano!”.
Pois é, mudanças essas que nós por cá nem damos conta…