PUB
Tempos conturbados!
Sexta-feira, Fevereiro 3, 2012

Ao verão prolongado (que até nem teve dias de calor abrasador!) pelo outubro adentro, sucedeu de rompante o inverno envolto em fortes chuvadas e tempestades. Cá em baixo, o povo foi-se agasalhando conforme pode e procurou outras fontes de calor, embora a crise exigisse contenções… Depois, o tempo pareceu arrependido da afronta e deixou que um outono tardio fizesse a sua aparição, no final do mês de novembro, ainda que por poucos dias. O dezembro foi chuvoso mas ameno. O janeiro está a apresentar-se frio à noite (finalmente as primeiras geadas) e agradável durante o dia.

Anda tudo baralhado (até o tempo atmosférico!), não sei se a culpa é dos homens que puseram o pé na lua (o que nunca aconteceu, segundo alguns) ou não. Tenham ou não razão, anda tudo às avessas. “Atravessamos tempos conturbados!” é a frase que se ouve uma e outra vez até à exaustão. Sê-lo-ão agitados, perturbados, desordenados para os trabalhadores que não sabem para onde se virar e que só veem caos à sua volta, a começar pelas aves agoirentas que lhes saturam os ouvidos com as suas profecias de holocausto e sacrifício. Aos do topo nada lhes toca, a nós, que estamos na base da pirâmide, que somos a classe trabalhadora e pagante (vejam-se os ordenados e as outras fontes de rendimento declarados pela classe que nos governa!), tudo nos encaminha para o abismo. Não contentes com o corte no ordenado, com o corte no subsídio de Natal, ei-los que, todos afoitos, se apressam a cortar-nos o subsídio de férias e de Natal de 2012, de 2013 e de 2014, dizem. Mas… alguém que tenha um T na testa poderá porventura pensar que todos esses cortes são temporários? E depois ainda falam em conseguirem tirar o país do buraco onde o enfiaram! Como? Quem faz girar a roda da fortuna é a classe média, sempre foi. Os ricos têm dinheiro para fazer mais dinheiro e para viverem à grande e à francesa e para o levarem para fora do país, para os paraísos fiscais, para contas anónimas, as chamadas offshore. Os pobres, coitados, vão sobrevivendo à custa da caridade alheia que, mesmo em tempos difíceis, vai existindo. Veja-se a campanha do Banco Alimentar contra a Fome que continuou e continua a ter eco junto dos portugueses tão maltratados, espezinhados e fragilizados. Ainda bem que a solidariedade continua a ser um dos valores presentes na sociedade portuguesa. Se bem que nem todos sejam pobres. Alguns são-no apenas de espírito, pois não se importam de explorar indecentemente quem procura sustentar o navio à tona. São os rendimentos mínimos inconcebíveis (gastos nos cafés e em tabaco) e os subsídios de desemprego de tantos que não querem trabalhar… E depois… há tantos que precisam e que não têm direito a essas benesses. A justiça nem sempre é justa… porque é cega e não vê casos particulares. E restam os outros que constituem a tal classe média que carrega com o fardo. E o Zé Povinho e os funcionários públicos da base da pirâmide social pagam as favas…

Somos (des)governados por um bando de incompetentes. A vergonha na cara e a educação impedem-me de usar epítetos menos próprios que seriam, necessariamente, desagradáveis e os ouvidos dessa gente são muito sensíveis ao “ego” e de uma insensibilidade incompreensível e ultrajante ao “nós”.

Como podemos pregar a cidadania aos nossos jovens, quando o exemplo deve vir de cima e os modelos são o que são?

Há os palradores que só sabem tagarelar e fazer vãs promessas e mundos e fundos (no fundo estamos nós!) e há os que não fazem nem falam. Há uma expressão em português vernáculo que explica muito bem o fenómeno, mas que as boas maneiras, de novo, me impedem de escrever. Não me arrogo o poder mordaz nem a “lata” de um Gil Vicente para cantar e contar de forma livre os destemperos desta e doutras governações. Estamos financeiramente mal (Estaremos? Os shoppings continuam cheios!), porque os governos usaram mal e desbarataram a riqueza do país. Só olharam (e bem!) para o seu umbigo e trataram de se pôr em situação de privilegiados, de amealhar riqueza e de agora afivelarem a máscara da comiseração e nos atirarem com a Troika à cara.

E nós, portuguesitos, somos um bando de bandalhos e de idiotas e temos de ser cegos, surdos e mudos às asneiradas que os doutos fazem umas atrás das outras. A cúpula de iluminados pensa que os demais não leem e ouvem notícias, não trocam emails (a Net descobre-lhes a careca com uma facilidade!), não andam informados… ou então, por sua vez, fazem ouvidos de mercador e fingem nada saber.

Exerço o meu direito e dever de votar há 36 anos e, à medida que este caos se vai instalando, a vontade de ir à urna começou a esmorecer. Cada vez mais, os ideias de abril estão lá longe e eu e os outros, que vivemos também no tempo da outra senhora, começamos a interrogar-nos se não haverá necessidade de vir por aí uma outra revolução que acabe com as “liberdades” desta gente de uma vez por todas. A desilusão está a instalar-se na minha geração que conduziu e realizou o 25 de abril.

Mas… a esperança é a última a morrer e continuo a lutar e a acreditar que é possível dar a volta por cima, que é possível vencer, que depois da tempestade vem a bonança, que atrás de maus tempos melhores virão. Assim seja!