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Temos de estabelecer prioridades!!
Segunda-feira, Fevereiro 7, 2011

Nos tempos que correm há uma regra que se impõe: “estabelecer prioridades”.

Se nos quisermos manter psiquicamente equilibrados e se não quisermos engrossar as listas dos consultórios de psicologia e psiquiatria, temos mesmo de as designar. É tão fácil perder a noção da realidade, do stress acumulado e “escorregar na calçada” (não, não me estou a referir à anedota em particular, mas também nesse campo é preciso um grande esforço para manter uma relação partilhada e saudável) e… catrapumba- o trambolhão dá-se e as consequências são imprevisíveis. Alguns, os mais sortudos, com umas semanas de descanso e algumas drogas, recuperam a estabilidade emocional e retomam a vida normal. Outros, porém, os tais azarados a quem o destino pregou uma rasteira, nunca mais recuperam e passam a viver uma existência “emprestada”, que não é a sua mas é a possível. Pessoal e profissionalmente nunca mais são os mesmos, são uns fantasmas deles próprios.

Escusado será dizer que muitos dos que engrossam as fileiras dos gabinetes dos tais profissionais são os professores que carregam a sua vida (já de si tão difícil!) e a de tantos outros que lhes são confiadas. Há que ser solidário e ajudar o próximo, mas como fazer isso sem apoio, quando se está a rebentar pelas costuras? E agora com as novas medidas lesivas para a classe e reduções nos salários que aí vêm, o ambiente está cada vez mais negro. Isto para já não falar dos mega-agrupamentos que são uma mega-estupidez, diga-se de passagem. Na Finlândia, um dos países da frente no campo da educação, as escolas têm cerca de quatrocentos alunos, mas nós (que somos muito espertos!) vamos agora juntar milhares… Enfim, não vale a pena bater no ceguinho…

Temos de estabelecer prioridades (coisa que o governo não faz, ou, se faz, ninguém as entende). É tão fácil falar, mas é tão difícil olhar para o lado e dizer não quando a situação está ali ao alcance da mão (achamos nós!). Por vezes, pura ilusão! Outras vezes, o bilhete sai premiado e o nosso galardão é a satisfação do dever cumprido ou um sorriso nos olhos de uma criança. Um óptimo pagamento! Não há nada mais belo no mundo do que ver uma criança a rir! (Sou eu a falar! Infelizmente, há muitos a quem isso nada diz!) .

Mas há mais prioridades a estabelecer. A nossa vida “saudável” depende da nossa capacidade para as estabelecermos, também a nível financeiro. A ginástica do orçamento familiar não se compadece com os nossos ordenados e o saldo entra frequentemente no vermelho. E então, se se cair no crédito, o mundo está perdido. Mas os bancos, os tais que entram na bancarrota com ganhos astronómicos, continuam a oferecer o plástico, o famigerado cartão que ajuda a endividar o país. E já não se limita às classes mais baixas. Estamos todos a circular sem olharmos para o semáforo que nos aconselha precaução e está amarelo. Quantos só dão por ela quando ele já está vermelho! E, neste momento, segundo os economistas já estamos todos a naufragar. Mas, recuso-me a ser pessimista!

Temos de estabelecer prioridades! Mas, como dizer ao João que não há dinheiro para a PSP ou para as sapatilhas de marca, quando, no tempo das vacas gordas, isso eram meros trocados? Será que vamos voltar ao tempo em que tudo era contabilizado? Por um lado, óptimas notícias, acaba o esbanjamento incontrolado e o consumismo desenfreado; por outro, vão ser tempos difíceis – vir de cavalo para burro é difícil e ninguém quer. Hoje, os meus filhos comem a fruta que lhes apetece. Eu e os meus irmãos tínhamos a fruta contada (uma peça para cada um) e a minha mãe saía na paragem anterior do eléctrico só porque o pomar da Srª Maria vendia a fruta mais barata. Cinquenta centavos era dinheiro nessa altura! Só havia sapatos novos em Setembro (já para o Inverno) e em Março, na Páscoa, para o Verão. A roupa passava dos mais velhos para os mais novos, sem protestos. E pertencíamos à chamada classe média. Hoje, temos muito receio de “traumatizar” as crianças se não lhes dermos as gulodices (coitadinhos!). Quanto pesarão no orçamento familiar os gastos com chocolates, chicletes, batatas fritas, bolachas, coca-colas, idas ao MacDonad’s?

Há que retomar a utilização das agendas domésticas. A minha mãe registava tudo. Era uma óptima dona de casa. Sabia para onde ia cada tostão que gastava. Eu sou péssima, porque não faço esses registos. Sei quais são as principais despesas (como posso esquecer as contas astronómicas do supermercado, da luz, dos telefones – principalmente os telemóveis, da educação, da saúde, das roupas?), mas os extras, aqueles gastos mínimos a que não damos importância, mas que são os que ajudam a desequilibrar o orçamento, não os conto e “grão a grão se esvazia a conta bancária”. Deixámo-nos levar pelo consumismo e, desde a entrada do Euro (que realmente foi o culpado de grande parte da derrapagem financeira do país), aprendemos a desprezar o dinheiro. Vinte escudos era dinheiro na moeda antiga, mas dez cêntimos já não são nada na de hoje, isto para já não falar das moedas de valor inferior que até podemos apanhar na rua. Quem atribui importância ao cêntimo? No entanto, vale dois escudos. É dinheiro!
Temos de estabelecer prioridades. Preciso de mudar de máquinas da louça e da roupa porque as minhas são antigas e barulhentas e não são amigas do ambiente. Pois é, mas vão ter de ficar as mesmas, porque… posso recorrer às prestações, mas é mais uma sobrecarga para o orçamento familiar, daquelas que não constam da listagem mensal. E… há outras contas que também aparecem, sempre em ocasião imprópria, como o seguro do carro, consultas médicas, idas ao dentista. Santo Deus, actualmente, a catraiada nasce toda com os dentes tortos! Todos precisam de aparelho. E são cinco mil euros!

Temos de estabelecer prioridades. E talvez o melhor seja começar por ir ao supermercado sozinha (assim não tem ninguém a pedir isto e aquilo!), por fazer uma lista prévia do que vai comprar e não se desviar nem um milímetro com aquelas “ofertas tentadoras” de leve três pague dois ou outras coisas semelhantes. Poupe na roupa. Volte a utilizar a costureira para modificar, colocar outros adereços, … Quem não se lembra dos colarinhos virados das camisas dos homens? Poupe na cozinha. Deixe-se de comida plástica ou empacotada e volte aos tachos e às panelas. É bem mais fácil dizê-lo do que fazê-lo, principalmente para quem é mulher! Neste aspecto, há que contabilizar no orçamento familiar as consultas ao psicólogo e ao psiquiatra…

Rematando, temos de estabelecer prioridades. Que tal transformar os “presentões” de Natal em lembranças? Conselho tardio! Nem a crise fez parar o consumismo. Gastou-se à doida neste país. Dizem que foi o último grito de liberdade. Talvez… Agora… vamos apertar o cinto. Que tal seguir o conselho de utilizar as agendas domésticas? Que tal programar os gastos até ao último cêntimo? Que tal aprender a dizer NÃO, NÃO, NÃO?…