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Taipas XXI – Propostas de desenvolvimentoConsciência Urbana
Segunda-feira, Abril 12, 2004

A evolução da organização do espaço na freguesia de Caldelas (simplesmente Taipas daqui em diante), não se afasta de todo daquela que vem sendo traçada no restante território nacional, estando aqui sujeita a condições particulares, inerentes ao conjunto de características, que fazem desta freguesia ainda um local único. A saber, e destacam-se as mais relevantes para a análise que se propõe e que assumem um carácter estru-turante: a localização estratégica no eixo que une dois pólos urbanos de destacada importância na região Norte (Braga e Guimarães); o rio Ave, que a margina; e, finalmente, a capacidade da oferta no domínio da exploração das potêncialidades termais, com que foi premiada e cujo reconhecimento é secular.
A tomada de consciência da importância estratégica da sua localização, estará na base do significativo aumento da popu-lação residente, assim como do boom da implantação do sector imobiliário na área, fruto do abrupto aumento da procura, aliado à especulação entretanto criada. Destes dois factores, surgem de imediato duas ques-tões: em primeiro, de que modo foi ocupado o território e obede-cendo a que critérios?; em se-gundo, deverão ser encarados os indicadores referidos, com acen-tuada tendência crescente, como sinónimo de desenvolvimento?
À primeira questão, deverá ser dada uma resposta peremptória: a ocupação do território tem sido feira ad hoc, sem respeito por qualquer tipo de critérios validos, subjugando o real utilizador do espaço público para um último plano, sem perspectivar nenhum tipo de estratégia de médio/longo prazo.
A edificação efectuada nas últimas décadas, simplesmente descaracterizou, atrofiou e aca-bou (quase) definitivamente, com as vocações que davam peculiaridade à vila. A construção desenfreada – cega – ignorou por completo a dignidade duma vivência social urbana, negli-genciando os motivos pelos quais se deve reger o sentido de comunidade. O espaço público, cerne de todas as relações sociais, é drasticamente ignorado, sendo substituído pela maximização do rendimento obtido por unidade de área, revertido no lucro de pessoas bem definidas, em detrimento do real benefício de toda a comunidade e da qualidade de vida (urbana e social). Os instrumentos de planeamento (mormente o Plano Director Municipal), existem não para definir uma estratégia de ocupação físico-formal e funcional do espaço, mas sim para inven-tariar o espaço com vista à edificabilidade, criando graves disfuncionalidades. Como diz o arq. Ribeiro Telles, o urbanismo tem sido encarado, unicamente, se-gundo uma vertente de edificabilidade do espaço, sendo ignorado todo o restante vasto domínio desta disciplina.
Neste ponto, derivam ques-tões que saem do âmbito deste texto, mas que necessitam ser debatidas e sobretudo indivi-dualmente reflectidas: Será que ainda existe uma ideia de comunidade nas Taipas? Ainda alguém saberá o que isso significa? O facto de ninguém se queixar será sinónimo de satisfação?
O “arranjos urbanísticos” e as “reabilitações urbanas”, têm servido nos últimos anos de bandeira da classe política, no entanto, as acções no terreno resumem-se a meras operações de cosmética, desintegradas e vazias de conteúdo fundamental. É, de facto, importante tornar o espaço público esteticamente atraente, mas importa sobretudo pensar o espaço como palco de fruição diária eficaz e sadia.
As intervenções que se fazem não são planificadas num médio/longo prazo, simplesmente por-que ninguém sabe o que quer que a vila seja no futuro, não há objectivos e estratégias comuns.
É previsível a continuação de crescimento do tecido urbano nas Taipas, por isso, torna-se pre-mente equacionar já neces-si-dades que, muito provavelmente, irão surgir num futuro muito próximo. Os sub-dimensionamentos, típicos da política de remedeios portuguesa, só permi-tem que situações de ruptura sejam atingidas mais rapida-mente no tempo, assim como o desdobramento dos investimentos necessários. Estamos mergulhados numa onda de transe, onde só importa o curto prazo e interessa apenas a facilidade, ficando a qualidade esquecida. O desfasamento do enquadramento português no contexto europeu é disso reflexo, pelos indicadores que a toda a hora se publicam.
Em síntese, e como primeira linha essencial de projecção para o futuro, urge traçar uma estra-tégia reflectida nas necessidade efectivas da comunidade e integrada no sistema concelhio das freguesia vizinhas. Antes porém, torna-se necessária uma consciencialização da população, para a sua intervenção activa no traça-do daquela estratégia, esperan-do-se com tal que a vila se torne no reflexo da sua população. Temo que essa consciencia-lização, ou revolução cultural, como alguns preferem chamar, consuma ainda algumas gerações até ganhar uma consis-tência útil para o processo.
Quanto à segunda questão, relacionada com a dualidade crescimento versus desenvolvimento, deverá tomar-se como ponto assente que, o primeiro não implica necessariamente o outro. Esta premissa, vem contra a ideia absurda ainda instalada, de que quanto mais gente e quanto mais altos e em maior número forem os prédios, maior será o desenvolvimento. Surge, portanto, a necessidade de di-mensionar as capacidades do nosso espaço e tomar cons-ciência, mais uma vez, que, ao ultrapassar aqueles limites, es-trangulase a capacidade de resposta física e funcional do próprio espaço.
O tecido urbano não se pode estender indefinidamente. Tem que existir necessariamente um limite físico, o que torna o solo num bem escasso e sobre o qual está implantado um mercado cego e feroz – o mercado imobiliário. Foi enorme a inflação sofrida neste sector na freguesia, que dadas as suas caracte-rísticas, entre duas periferias, se tornou num local privilegiado para se transformar numa “vila dormitório”. Este estatuto trouxe algumas vantagens, como o desenvolvimento brutal do sector ter-ciário nas últimas décadas, para além do referido sector imobiliário em particular, mas é notável a enorme desintegração da população entretanto aqui instalada, face ao carácter peculiar e frágil da vila, que pedia uma intervenção cuidada e sustentada. Não foi isso que aconteceu infelizmente e o pior é que, dado o estádio do processo de desen-volvimento urbano, não há já volta a dar e as potêncialidades que a vila possuía, resumem-se a uma caricatura de si própria.
Existem ainda núcleos onde ainda é possível uma intervenção que, se cuidada, pode estancar o processo de degradação atin-gido. A nível de património, a vila possui uma riqueza estimável, mas que ninguém parece valorizar. Seria um bom princípio delimitar as zonas de influência desse património, dinamizar e proteger essas áreas. Por exemplo, o antigo edifício termal, poderia ser transformado num museu dedicado à actividade termal. A mancha do parque está muito abaixo do seu potencial e é inconcebível que o mesmo se encontre no estado actual. O parque merecia ser alvo duma intervenção de fundo onde poderia ser considerado o seu alar-gamento em diversas frentes, aproveitando a linha de força do rio: um primeiro eixo para o interior – seguindo o ribeiro da Canhota até às termas velhas; um segundo eixo para jusante do curso do rio até aos moinhos (que poderiam ser também restaurados) e englobando a ponte romana e cruzeiro existentes; e, por último, numa medida concertada com as freguesias vizinhas, poderia ser alargado para a outra margem. Talvez estas sejam ideias antigas, o que permite identificar precisamente o problema: espera-se demasiado tempo, até ao dia em que chega o “bicho papão”.
Seria louvável que aparecessem movimentos, sob a forma de grupos de trabalho, que ajudassem a cuidar em concreto do que ainda resta na vila capaz de a identificar, em vez de se desperdiçarem recursos com discursos disparatados.

Paulo Dumas
Lic. em Planeamento Regional e Urbano

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