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Sobre o centro histórico
Quinta-feira, Novembro 19, 2015

Uma morte é sempre uma tragédia. E uma tragédia liberta emoções, gerando comportamentos que, de outro modo, as mesmas pessoas, certamente, não teriam. A recente morte de um morador do centro histórico de Guimarães foi um desses casos. Talvez a emoção da tragédia justifique o vergonhoso sensacionalismo com que alguma imprensa tratou o assunto, a reacção precipitada e grave da câmara ou o triste aproveitamento do presidente da associação comercial para impor a sua velha agenda. Não, o centro histórico não tem um problema de insegurança. Tem outros, e deles aqui falarei, mas a segurança não é um deles.

Antes de falar destes problemas, não escapo ao assunto que esta combinação de sensacionalismo, precipitação e aproveitamento recuperou. Todavia, considero que a introdução de videovigilância no centro histórico não resolve nenhum dos problemas que a zona enfrenta. Pelo contrário, apenas acentuaria a tendência de “disneylandização” da zona classificada pela Unesco. O “casco antigo” vimaranense é, cada vez menos, um sítio onde se vive e, cada vez mais, um parque de diversões. Colocá-lo debaixo da mesma vigilância que têm centros comerciais seria apenas assumir, de uma vez, que não queremos ninguém a viver ali. Só ficava a faltar a alcatifa.

Como dizia, o centro histórico de Guimarães tem questões prementes para resolver. Há dois meses, escrevi aqui sobre uma delas: a pressão dos preços da habitação que afasta as pessoas de viverem no centro. Este perigo de desertificação é acentuado por aquele que é, a meu ver, o principal problema da zona histórica nos dias que correm: o difícil equilíbrio entre uma vida nocturna movimentada e a necessidade de descanso dos moradores. A questão é por isso de convivência – de civilidade – e não de insegurança.

O ex-presidente da Câmara, António Magalhães, referia-se ao centro histórico como “a galinha dos ovos de ouro” do concelho. A imagem é feliz. E a melhor forma de garantir que uma galinha continua a dar ovos não é forçá-la a produzir cada vez mais, engordando-a à força ou alimentando-a com suplementos. Pelo contrário, devemos garantir a sua saúde para que continue, por muitos anos, a alimentar-nos o apetite.

Ora, o que temos assistido nos últimos anos, desde a elevação do centro histórico a Património Mundial e, muito particularmente, desde 2012, é um aumento de pressão no centro histórico. Não só por via de uma maior procura turística, de um reforço da oferta hoteleira e de restauração, mas também de uma canalização cada vez mais evidente de eventos de massas para praças que ficam a rebentar pelas costuras. Apresentações do Vitória, festas sunset, desfiles de moda e mais um sem número de eventos que, podendo acontecer noutros lugares da cidade, são marcados para ali.

Esta conjugação é a receita mais rápida para matar o centro histórico. Porque afasta moradores e, depois deles, também os visitantes e utilizadores regulares. Há uma responsabilidade colectiva. Dos comerciantes, das associações e de outras organizações. Mas também é verdade que a função dos poderes públicos é de regulação e a câmara tem que fazê-lo neste caso. Retirando algumas das suas iniciativas do centro e condicionando as iniciativas privadas que ali querem instalar-se.

Tanto mais que hoje Guimarães tem outros espaços alternativos, como um bairro como Couros a acordar, a versátil praça da Plataforma das Artes, um lugar com vitalidade renovada como o Parque das Hortas, ou um Novo Oeste da cidade, que demora a confirmar-se, em torno do eixo Caldeiroa – D.João I.

Olhar para estes lugares como espaços utilizáveis com a mesma dignidade da zona classificada fará, não só, melhorar a qualidade de vida no centro histórico e deixá-lo respirar melhor, como contribuir para restaurar o equilíbrio difícil entre diversão e descanso, ao mesmo tempo que expande a cidade. E esta é uma discussão bem mais importante – e necessária – do que embarcar em tentações securitárias. Para isso, já nos basta o resto do mundo.

Jornalista do Público