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Sensibilidade e bom senso
Sexta-feira, Outubro 31, 2008

Uma das figuras incontornáveis da história recente do nosso país foi entrevistada recentemente por Judite de Sousa a propósito do lançamento do seu segundo volume de memórias políticas – essa figura é Diogo Freitas do Amaral.

Para além das questões que foram alvo de comentário nos dias seguintes, como as suas considerações acerca do caso Camarate, ficou a confirmação de um homem a quem atribuo duas das melhores qualidades que aprecio num ser humano: a sensatez e a clarividência.

Na mesma entrevista discorre sobre alguns dos episódios que marcaram o seu percurso político, explicando algumas das suas decisões e assumindo alguns dos seus erros. Algumas revelações deixam bem evidente a forma como alguns casos são encobertos deixando que o tempo faça o resto, na tendência natural para o esquecimento.

Um dos pontos focados foi, incontornavelmente, a investigação ao caso do Cessna que vitimou, em 1980, o então primeiro-ministro Sá Carneiro e o Ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa. Sendo esta uma questão de Estado e de, até hoje, não haver uma conclusão deixa no ar a convicção de que a História permanece cheia de lacunas. Se algumas delas são ainda passíveis de serem investigadas e não o são é motivo suficiente para nos envergonharmos.

Freitas do Amaral foi também uma figura activa no período de consolidação da nossa ainda jovem democracia e que será, para uma certa geração, um dos períodos mais fascinantes da nossa História. Recordo apenas um episódio: a corrida das presidenciais em 1986, as quais perdeu para Mário Soares (outra das nossas figuras incontornáveis e com que hoje partilham os dois alguns pontos de vista) por uma margem muito pequena.

Portugal é ainda um país com grandes desigualdades sociais. Surgem notícias de que é ainda grande a diferença no nosso país entre ricos e pobres. Este será o momento oportuno para que uma nova geração resolva este problema, já que as anteriores não o conseguiram resolver. E este é um desafio lançado pelo próprio Freitas do Amaral, uma figura curiosamente nunca eleita, apesar de terem sido várias as eleições em que participou.

A parte final da entrevista, quando é abordada a questão do apoio ao Partido Socialista nas últimas legislativas é particularmente emotiva. Poderá servir de motivação a uma reflexão à forma como se está hoje na política e, particularmente na política partidária. Tenho para mim (e o testemunho de Freitas do Amaral é claro neste aspecto) que a política deve servir para tornar melhor a vida dos cidadãos e não o contrário.

Muito do que se vê hoje em dia, é uma versão “clubística” da política, sem que se tenham em conta alguns princípios básicos na forma de a fazer. Então quando há falta de sensatez e ponderação, os resultados poderão ser e são não maioria dos casos desastrosos. Não deveriam haver custos pessoais devidos a divergências de opinião. A heterogeneidade é fundamental em democracia e a sua razão de ser essencial.

“A Transição para a Democracia – Memórias Políticas II (1976 – 1982)” será nos próximos tempos o meu livro de cabeceira.

A entrevista pode ser vista ou revista seguindo este link.
Grande Entrevista com Diogo Freitas do Amaral

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