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Sejam bem-vindos a Guimarães
Quinta-feira, Março 17, 2016

Para meu espanto, verifiquei que há manifestações de desagrado e, atrevo-me mesmo a dizer, de xenofobia contra a presença de refugiados em Guimarães. Acontece que o problema não são os refugiados, os imigrantes, os estrangeiros, os apátridas ou como lhes queiram chamar. O problema é, indubitavelmente, a hipocrisia.

Por incrível que pareça, os que agora reagem contra a presença de refugiados nas suas comunidades são os mesmos que se comoveram com a imagem do menino sírio encontrado morto em uma praia na Turquia; são os mesmos que se insurgiram contra a cinegrafista húngara que pontapeou sírios na fronteira com a Sérvia e são também os mesmos que se indignaram com as polémicas medidas anti-imigração da Hungria e da Dinamarca. Contudo, essa “piedade virtual” só os ataca momentaneamente e depressa cai no esquecimento. Acima de tudo, questionam o “porquê” de acolhermos refugiados e o “porquê” de lhes ser dado tratamento preferencial (acesso à saúde, educação, emprego, etc.). A resposta, a meu ver, é simples… solidariedade civilizacional.

Ainda não vai assim há tanto tempo que centenas de milhares de portugueses atravessaram ilegalmente a fronteira nacional. Certamente, todos temos um(a) tio(a) ou um(a) primo(a) que partiu de Portugal, entre as décadas de cinquenta e sessenta do século passado, em busca de uma vida, da liberdade e de um futuro que a ditadura lhes negava. Por isso, observo com profunda tristeza que ainda há portugueses que alimentam esta onda de xenofobia e de anti-imigração, promovem os preconceitos mais arcaicos e tentam disseminar um medo irracional, como se a diversidade étnica, cultural e religiosa fosse a antecâmera do apocalipse. Mas, já dizia Albert Einstein, “duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana.”

Felizmente, a grande maioria dos portugueses e, em particular, dos vimaranenses são solidários e querem ajudar a combater este drama, cumprindo o seu dever de conceder asilo a quem necessita. Daí que, nos últimos dias, a nossa cidade tenha aberto as suas portas a famílias oriundas da Síria e da Eritreia, fugidas do terror da guerra, da pobreza, da violência e de outras calamidades que assolam os seus países de origem. Esta iniciativa só foi possível graças ao esforço e à colaboração da Câmara Municipal e de muitas instituições que não ficaram insensíveis a este drama humanitário. Assim, desenvolveram em conjunto um plano de ação designado “Guimarães acolhe”, que visa receber de forma condigna e integrar socialmente o maior número possível de pessoas com necessidade de proteção internacional. E é graças a este altruísmo que Guimarães é a cidade do norte do país que, até ao momento, acolheu mais refugiados.

Convém ressaltar que a crise dos fluxos migratórios existe há anos e é preciso perceber que as pessoas que se amontoam em botes, que arriscam as suas vidas, que deixam tudo para trás, fazem-no, não por escolha, mas, sim, por uma questão de sobrevivência, de desespero. Hoje são eles, amanhã podemos ser nós…

Advogada