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Sei de um país assim
Terça-feira, Novembro 6, 2012

Todos os dias sabemos de casos de pessoas que já “estiveram bem na vida” e nos momentos que correm passam por dificuldades.

As causas dessa inflexão são muitas e heterogêneas: os bons empregos que acabaram – desemprego; os negócios que correram bem passaram a correr mal; ou por serem apanhados na corrente de “calotes”; ou ainda porque falta trabalho, vendas. Seja porque, apesar de tudo, as pessoas assumiram compromissos que, com a quebra de rendimentos, não podem pagar, ou assumiram responsabilidades para além das suas posses: rendimentos e bens.

O fenómeno do sobre-endividamento, já conhecido na Europa e nos Estados Unidos, era desconhecido em Portugal até há bem pouco tempo. A prudência, apanágio dos portugueses, também se estendia à poupança e à despesa.

Fazíamos a despesa consoante o dinheiro que dispúnhamos; aforrávamos para gastar e para “uma doença”.

O fenómeno do crédito, a que ninguém resiste mesmo os ditos militantes de esquerda, trespassa toda a sociedade; a ansia do TER cega a mais esclarecida consciência. Então, quando o crédito é de acesso fácil e “aparentemente” barato, a cegueira de o ter prevalece sobre a mais clarividente razão. Não é ter o dinheiro, é ter a roupa, o carro, a casa, a viagem, isso é que torna o crédito irresistível.

Sei de pessoas que compraram casas caras e bonitas; sei de pessoas que construíram casarões; sei de pessoas que tinham tudo e mais alguma coisa e uma apetência por marcas caras sem sentido. Não porque tinham rendimentos certos e seguros para essas despesas mas porque a adrenalina do ter anulava qualquer juízo racional.

A economia entrou em desaceleração; os rendimentos passaram a ser menores; os créditos já não eram pagos a tempo e horas; o banco cobrava comissões e juros de mora; a situação agravava-se; o banco não reestruturava ou se o fazia exigia mais comissões e um spread maior; o cliente ficava pior; as prestações em mora acumulavam-se; o cidadão era executado e perdia tudo quanto teve.

Sei de um país que construiu pontes e auto-estradas que rasgaram e dividiram; que construiu os viadutos mais compridos da Península Ibérica e escolas a mais para os jovens que tem.

Sei de um país que construiu centros culturais em abundância; casas disto e daquilo; aeroportos luxuosos. Sei de um país de inaugurações, de vaidosos e invejosos.

Sei de um país em que os rigorosos eram apelidados de miserabilistas.

Sei de um país que teve crédito barato; que o usou; que o gastou. Sei de um país que se endividou. Sei de um país a quem os capitalistas e credores não quiseram emprestar mais dinheiro. Sei de um país que perdeu soberania.

Sei de um país amordaçado, ferido e desgastado. Sei que nesse país existe gente que, por orgulho bacoco, quer voltar à arena da despesa para receber o golpe fatal da derrota.

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