Romagem ao passado (XXXV)
Sexta-feira, Fevereiro 3, 2006

Era também conhecida, no círculo familiar, por a “venda”, resquícios de tempos passados, referentes a um estabelecimento comercial de que ainda conheci vestígios, como as estantes a isso destinadas. Entre a zona do balcão e a porta da rua, existia um recinto destinado ao público que, entretanto, passou a ser a garagem de uma moto de marca INDIAN que, hoje, se existisse, seria o regalo dos coleccionadores. Por isso, passou a ser conhecida, na gíria familiar, por “Sala da Mota”.
Era nesta casa que vivia o traço de união mais significativo que me ligava ao passado, pelo lado de minha Mãe. Era a conhecida, entre todos os meus, por madrinha Antoninha e que era irmã de meu avô materno, João de Oliveira, que eu não tive a sorte de conhecer pois faltou uns meses antes de eu nascer. Enquanto dele só tenho referências pelo que ouvi falar – e foi muito, pelo seu amor às coisas do espírito, dedicação ao trabalho, pundonor e verticalidade no seu modo de proceder – com essa veneranda velhinha, tive oportunidade de conviver o tempo necessário para conservar o seu perfil bem “encai-xado” no ecrã das minhas recordações.
Aquele rosto engelhado, produto de muitos anos de vida, respirava simpatia e bondade. Minha Mãe referia-se muitas vezes à ligação fraternal que unia seu Pai a essa irmã. A impressão mais marcante que dela conservo, talvez seja aquela presença determinada, fortemente personalizada, a fazer lembrar que “as árvores morrem de pé!”
Outra faceta que não passou desapercebida à minha curiosidade infantil e ao meu precoce espírito de observação, era o extraordinário respeito que existia entre ela e o genro que viria a ser o meu futuro professor. Em relação à sua bondade, posso testemunhar aquele triste espectáculo que eram as quarta-feiras que, nesta zona, a 1ª Republica deixou em testamento à minha geração. Esses dias da pedincha em que legiões de pobres maltrapilhos, lamuriando padre-nossos, se arrastavam com os sacos às costas, batendo às portas, nunca encontraram, nesta casa, a sua fechada. Havia um dia no ano, conhecido por “Fieis de Deus”, por alturas de “Todos-os-Santos”, se a memória me não atraiçoa, em que a esmola era também em espécie e de que, além de outras coisas, fazia parte o chamado feijão-galego. Era ela que, pessoalmente, se encarregava de fazer cair em cada saco dos indigentes, uma quan-tidade substancial desse cereal. Os meus olhitos de criança assistiam a este cerimonial, embevecidos pela generosidade “dos que podem aos que precisam”.
Foi por essa altura , meados da década de 30, que passou a fazer parte do vocabulário corrente, uma coisa até aí por descobrir: organização do trabalho. Através dela se criaram as estruturas que permitiriam às gerações futuras verem-se livres da indisciplina no mundo laboral com horários a cumprir, salários mínimos garantidos, assistência médica e medicamentosa, subsídios na doença, abono de família, bairros de renda económica, férias e subsídios respectivos, apoio na natalidade, reforma na invalidez e na velhice que, com o regresso do diabo-à-solta, já se vai ouvindo, por enquanto em surdina, que, mais dia menos dia, deixa de estar garantido… Antes, no mundo social, como aliás, em quasi tudo, era o chamado zero absoluto. O espectáculo degradante e escandaloso dos salários em atraso; dos trabalhadores serem obrigados a fazer “quartos de sentinela” de dia e de noite, à chuva e ao frio, que a televisão tantas vezes nos obriga a testemunhar, para impedir a transferência dos seus maqui-nismos de trabalho para paragens situadas em “cascos de rolha”, não se admitia nem em sonhos, nem em pesadelos…
Mas, voltando à “Casa das Pontes”, ou melhor, à porta da Sala da Mota, em frente à entrada, naquela reentrância, nessa época ainda sem vedação, assistiamos, nas tardes de domingo, a uma tertúlia familiar, presidida pela adorada matriarca do nosso clã. Dela faziam parte, além das pessoas da casa, minha saudosa Mãe em cujos joelhos eu me sentava e suas irmãs que prestavam à sua tia um culto respeitoso. Aí se punha a conversa em dia à espera que a Valentina Pita ou a Ana Tremoceira chegassem com os tremoços e azeitonas, na época estival ou as castanhas “quentes e boas”, no Outono e que custavam uma tuta e meia, em contraste com os preços proibitivos do nosso tempo. Nessa assembleia, pelos meus oito a dez anos, me iniciei nos “voos oratórios”, declamando, em cima de uma cadeira, trechos patrióticos e poesias que decorava nos meus livros de leitura escolar que ainda hoje conservo e que muitas vezes folheio para reviver esses momentos que me enchem a vida.
Foi um privilégio da minha infância e mocidade, frequentar, como extensão da minha casa paterna e da de meus avós, essa em que a presença tutelar da minha tia-avó era acompanhada pela do meu professor. A cultura geral, fora do comum, do Mestre–Escola e os tempos ricos em acontecimentos dessa época que ele comentava com oportunas e criteriosas considerações, eram, pela criança que eu era, “bebidas” sofregamente.
Para corroborar a minha opinião, garantindo a sua veracidade, recorro ao testemunho do seu antigo aluno, Padre Agostinho Chorinca, pouco antes de falecer, por ocasião das suas Bodas de Ouro sacerdotais a que assisti. Na homília da sua missa comemorativa, exibindo para a assistência em que, além de muitos colegas no sacerdócio se encontrava o Arcebispo de Braga, o livro já velhinho da sua 1ª classe, da Editora Figueirinhas, não teve dúvidas de afirmar para quem o quis ouvir que, de entre as dezenas de professores que teve na vida – e muitos de alto gabarito! – foi o seu professor da escola primária, João Rodrigues Marques, o que mais o marcou pela sua cultura, integridade de caracter e qualidades pedagógicas e humanísticas… Tal e qual!

Longos, Ano Novo de 2006