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Romagem ao passado (XXXIV)
Quarta-feira, Novembro 30, 2005

Aqui se completa o circuito que fizemos e onde, como então, se encontra a “funerária” que, nesses tempos, era propriedade de um antigo autarca sandenense, Domingos de Freitas. É um dos cenários que a extraordinária memória do fundo da minha infância – criança de colo – consegue reter: vê-lo na função de Presidente da Junta de Paróquia, orientar a construção dos lavadouros do “rio de cima” que não passava de um ramal do Febras, a partir dos campos das Peças, para “ter ponto” de regar as leiras do Brejo, fazer movimentar os dois moinhos dos meus avós e o “engenho” onde o meu trabalho infantil me preparou para a luta da vida. São visões bem definidas e conscientes de 1931 – tinha eu 2 anos! – data que estava registada nesses lavadouros, antes das transformações que sofreram ultimamente.
Nessa altura, Domingos de Freitas era apoiado pelo sobrinho, António – Toninho Armador, como era mais conhecido – que faleceu há tempos, em provecta idade.
Nos altifalantes do Passeio-Alegre da Póvoa de Varzim, na primeira vez que visitei esta praia no dealbar da década de 40 do século passado, ao mesmo tempo que o Catitinha, simpático macróbio com barbas bíblicas, arrastava multidões de crianças ao som de um estridente apito, ouvi, surpreso, a seguinte tirada publicitária: “Não morra! Mas se morrer, não o faça sem deixar confiados os seus serviços fúnebres à Funerária de António de Sousa Marques, em S. Martinho de Sande – Guimarães”!
Além dos serviços funerários, outra actividade fazia parte marcante do trabalho desta casa: a decoração das igrejas de toda esta zona e que hoje estão em completo desuso. Nas festas solenes que ciclicamente aconteciam na vida paroquial, os tecidos e acessórios ornamentais davam ao interior da igreja um aspecto espafalhatosamente solene e pesado que hoje não se conciliaria com o moderno estilo que cultiva a simplicidade e o bom gosto.
Nos tempos em que militei na J.O.C., o Toninho Armador foi um apoiante generoso das nossas actividades teatrais. Os cenários, as deslocações de quilómetros à volta, e sobretudo, um apoio moral e logístico, foi contributo mecenático valioso. Não posso deixar fugir esta oportunidade sem testemunhar à sua memória esta lembrança agradecida.
Com ele colaborou o Costa Marques a quem já me referi no princípio destas Romagens e que pela maneira de proceder na sua já longa vida, é pessoa respeitada e respeitavel. Hoje é um dos filhos que continua a tarefa que o pai exerceu durante muitos anos.
Na referida “Casa da Botica”, onde criou a sua numerosa familia e onde vive, existia nesses recuados tempos, um pequeno estabelecimento comercial de aldeia onde eu, criança imberbe, ia aos recados: “onças de tabaco francês e livros de mortalhas “Zig-Zag” que o meu professor transformava em cigarros, bem como as pequenas coisas que na casa dos meus familiares se gastavam como chá, café, fósforos e tantas miudezas mais. Recordo-me, ainda, que utilizava, além de outras moedas – algumas em prata! – , o humilde meio tostão…
Essa casa foi trespassada a um curioso casal de analfabetos profundos que não conhecia o valor de uma letra. Era coisa digna de ver-se o Ser’Alberto dos Assobios a fazer a “escrita” dos seus numerosos clientes, em tiras de papel de diversos tamanhos e cores para conseguir distingui-los a todos nessa emaranhada floresta da caloteiragem! Autênticos hieróglifos de desenhos geométricos: circunferências, triângulos, quadriláteros, linhas horizontais, verticais e oblíquas serviam para esta humilde gente defender-se desse fami-gerada praga, o “calote”, que era uma espécie de instituição que atravessava, desde tempos remotos, as várias gera-ções… Todo este arsenal de sinais cabalísticos não dispensavam uma prodigiosa memória para reter, ao simpático casal, os nomes, os géneros e respectivas quantias de tantos “profissionais” na arte de comprar sem pagar… Que de noites de insónia tudo isto lhe causaria!
Mais tarde trocou de estabelecimento, passando o negócio para o barraco onde, passados mais uns anos, eu principiei o meu fadário de fabricar e vender talheres.
E cá me encontro de novo, no centro de tantas emoções que me têm acompanhado ao longo da existência. Das três casas que serviram, aqui no coração deste meu lugar, de palco ao maravilhoso espectáculo da minha infância e mocidade, falta falar da última, a conhecida, por antonomásia, “Casa das Pontes”. É a única que, no aspecto arquitectónico, se encontra inalterada. A paterna, em que nasci e cresci, está em desagregação acelerada; a dos meus avós cujo estilo pedia esquadrias e portas em madeira, como sempre teve, afinfaram-lhe com uns alumínios que não lembram ao diabo. A das Pontes, exceptuando a vedação da frente, mantem-se tal qual a frequentei logo no começo dos anos trinta, amimado ao colo de toda a gente, pois ainda tentava os primeiros passos.
Se, no aspecto arquitectónico, é a mesma, no aspecto humano é apenas um mundo de fantasmas e saudosas recordações. O último elo que a ela me prendia, lá se foi com a morte da pessoa que registei na última crónica e que, como ninguém, podia testemunhar as várias lembranças que aqui tenho deixado ao logo de todas as “Romagens ao Passado”.
Vou tentar recorrer à minha capacidade memorialística para passar ao papel as reminiscências que povoam o meu espírito.
Será, portanto, a “Casa das Pontes”, o assunto da próxima crónica.

Longos, 01 de Novembro de 2005

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