Romagem ao passado (XXXIII)
Quinta-feira, Outubro 6, 2005

Muito eu apreciava aquelas ricas peras! Os odores que exalavam, fazem parte da colecção que conservo na memória, sobre as frutas daqueles saudosos tempos. Não estavam ainda generalizados os tratamentos fitosanitários e as transformações genéticas que, se por um lado, combatem os inimigos das plantas e aumentam a sua produção, por outro, fizeram desaparecer aqueles magníficos cheiros e sabores. Malefícios do progresso… e descaracterização a condizer com estes nossos tempos tão sensaborões.
Como disse, a mãe da Conceição era a tia do Monte – minha tia-avó, avó do Piteco e bisavó do Carlos dos Seguros – que era a dona da casa e do campo onde hoje se encontra o belo parque da Casa dos Ferreiros e a cuja plantação assisti, há cerca de 70 anos. Também lhe pertenciam os terrenos onde, em parte relevante, está implantada a Cutipol os quais eram conhecidos por Bouça do Monte de Sande. Á atenção de quem os quer surripiar para integrar nos domínios de Caldelas. “A cada qual o que é seu”, é sentença desde velhos tempos.
Uns pecadilhos da mocidade permitiram que a Conceição fosse mãe de dois filhos do Dr. Garcia, coronel-médico que fez parte do exército português, que defendeu o Ultramar em fins do Sec. XIX, em jornadas que a História regista. Um dos filhos, o António, possuía uma preparação autodidacta que lhe permitia colaborar no célebre Almanaque Bertrand, na secção de “enigmas e charadas”. Com uma habilidade inata para o desenho, foi-lhe atribuída a autoria de um, que hoje se apelidaria de grafiti, em que a Direcção do Sindicato Nacional dos Garfeiros que tinha a sua sede junto à igreja de Sande, era caricaturada a caminho do cemitério. Tenho na retina o Machadinha, o Fernando Barreto e o Ser`António Quintas-pai , a marcharem para o “enterro” do citado Sindicato. Porém, creio que não foi possível, por falta de testemunhas, provar a sua cumplicidade no caso. Outra das suas “prendas” era a bricolage que aplicou na reparação do relógio da torre sineira da freguesia que esteve, por dilatados anos, paralisado. A promover as suas habilidades, produziu e espalhou um folheto a informar que concertava, entre outras coisas, aparelhos de rádio e gramofonolas. Deu-se o caso de este último termo ser interrompido ao meio, em fim de linha, aparecendo na seguinte a parte “fonolas”. Logo passou a ser conhecido, na gíria local, por “fanolas”. Tenho bem presente na memória dos meus 4 a 5 anos a sua militância, bem jovem ainda, no Nacional-Sindicalismo do Rolão Preto, o das “camisas azuis” que, esse sim, tinha fortes afinidades com o Fascismo de Mussolini. À tardinha, lá aparecia ele com um significativo grupo destes lugares entre Pontes e Gaias a fazer, sob seu “comando”, exercícios de marchas na estrada de terra batida, mesmo em frente do meu “posto de observação” das escadas do Salgado. Mais tarde como aconteceu com o chefe desse movimento, entretanto posto fora da lei por Salazar, a sua trajectória virou à gauche …
Mais um pouco e estamos no cimo da elevação da Pedreira e Taburno. E aí nasceram e viveram dois companheiros na escola e “camaradas” na vida militar: Raúl Sardinha que já cá não está e o “ Botija” que com um certo custo, vai teimando em viver. Dali era oriundo também um dos vários padres que Sande tem dado á Igreja, o padre Zé de Sousa Marques que paroquiou exem-plarmente a freguesia de Celeirós , onde deixou um rasto de virtude e simpatia e que tão cedo se despediu da vida. Um irmão mais novo, o Zé Maria, acompanhou-o, lá casou e lá vive. Também ele apesar de mais velho uns anos, está ligado as minhas vivências da infância.
Era aqui neste lugar que se encontrava a “clínica dentária” daqueles difíceis tempos. Quando as dores de dentes apertavam – e eu fui um mártir nessas coisas – lá nos mandavam ao Ser`Arnaldo da Pedreira para, utilizando um estilete de latão com uma porção de algodão em rama embebida em água–forte, nos entupir as cavernas dos nossos ricos queixais que, assim, paulatinamente se foram escaqueirando! Arriam porram catanorium cuncué , como diz o latim macarrónico de um amigo meu!
O Ser‘Arnaldo, cuja profissão principal era a de “cortador” de garfos, trabalhou, como eu, na Fabrica de Sande e disso falarei quando me ocupar desse aspecto da minha vida, se Deus me der tempo e pachorra. Nas horas vagas, um lote de cortes de fazenda, oriunda da Covilhã, às costas, lá andava de porta em porta à procura de quem lhos comprasse. Era ele que se encarregava de, ao anoitecer, fazer o toque das Almas, no sino maior da torre de Sande, em badaladas compassadas e sentidas que ecoavam plangentemente no nosso coração a fazer-nos elevar o pensamento a Deus e para nos lembrarmos de “quem lá estᔠ….
Longos, 05 de Setembro de 2005