Romagem ao passado (XXV)
Terça-feira, Abril 2, 2002

Era, em todo o seu esplendor e tipicidade, a urbe da Canção de Lisboa, Pátio das Cantigas, Costa do Castelo, Leão da Estrela, O Pai Tirano e tantos outros filmes, nos quais o cinema nos deixou o retrato daqueles anos de ouro em que dava gosto subir e descer, a pé, as suas sete colinas e não era necessário, como hoje, manter permanente atenção a surpresas da malandragem, democraticamente à solta.
Usufrui de “todo o tempo do mundo” para calcorrear e conhecer, até ao pormenor, essa Lisboa feiticeira que “acordava a sorrir”, respirando limpeza, frescura e alegria. Qualquer dos bairros, do Castelo e da Graça à Mouraria e Alfama, do Bairro Alto à Madragoa, de Alcântara e Campo de Ourique a Campolide e Benfica e, à ilharga destes, as chamadas Avenidas Novas, faziam de Lisboa um quadro vivo de beleza, bom gosto e tradição.
Ao meio da Avenida, entre a Rua do Salitre e a Praça da Alegria, era o mundo do espectáculo, o célebre Parque Mayer, então considerado a Broa-dway à escala portuguesa. Onde hoje o desmazelo abrilino permitiu o estado lastimoso a que chegou onde reina a imundície e a decadência, com barracões fétidos em ruínas e ratazanas a desfilar pachorrenta e impavidamente, mesmo em pleno dia, ante nossos olhos era, nesses saudosos tempos, um arraial festivo, quer de noite, quer de dia. Esse espaço agora assombrado, era, na Lisboa de 1950, uma festa permanente com seus restaurantes e casas típicas à cunha, os numerosos teatros de revista quase sempre esgotados nas suas duas e, às vezes, três representações diárias, por multidões que lá apareciam para compensarem as horas menos boas da vida, com cascalhadas de riso que se faziam ouvir cá fora, resultantes da graça espontânea de grandes artistas que não deixaram sucessores. Tantas vezes vi, ao vivo, passar a meu lado as figuras inconfundíveis do Vasco Santana, António Silva, Ribeirinho, Luiza Satanella, Mirita Casimiro, Eugénio Salvador, Hermínia Silva, Laura Alves e a impagável Beatriz Costa. Para esta última, regressada pouco antes do Brasil, foi preparada uma revista que se exibia, quando eu cheguei a Lisboa, no Teatro Avenida, a que foi posto o sugestivo título “Ela aí está!” e onde Júlia Barroso criou a canção Adeus que conquistou gerações de melómanos.
Havia a piada política que, bem condimentada por uma dose equilibrada de brejeirice, fazia delirar, em nivelamento democrático, plateias, frisas e camarotes… As próprias canções – as tais melodias de sempre – , acabadas de ouvir, durante a sessão, por vozes maravilhosas como a citada Júlia Barroso, Maria Clara, Milú – “Cantiga da rua, das outras diferente”… -, a feia tão bonita, Maria de Lurdes Resende, as desses extraordinários Manuel Monteiro – não confundir com certo político que anda p’raí a parturejar concelhos… – Alberto Ribeiro, Luiz Piçarra, Francisco José e tantos outros, acabadas de ouvir, dizia, ficavam no ouvido de toda a gente, eram trauteadas logo à saída do teatro e, em seguida, espalhavam-se pelos mais recônditos cantos da província.
Perto do Parque, atravessado o Jardim do Príncipe Real, começava o Bairro Alto que, apesar de ter a fama – e o proveito… – de ser frequentado pelo submundo dos rufias e mulheres da vida – as criaturas de que falava o Botija – , com suas escadinhas, vielas e congostas, era a zona onde, em tempos idos, a fidalguia tinha os seus solares.
Era neste bairro que, talvez mais que em nenhum outro, libertados pelas portas e persianas das casas típicas, andavam no ar os sons e cantilenas da Lisboa fadista. Poucos anos antes, no Café Luso, à Travessa da Queimada, uma voz inconfundível começou o seu reinado e que, mais tarde, havia de levar o nome de Portugal às mais remotas paragens. Era a voz e o encanto, a simpatia e o sorriso da grande, da inimitável Amália que a canalhada do PREC rotulou de “faxista” e “bufa” e que, à revelia do povo a que pertencia, os políticos arrumaram no Panteão…
Quão longe estávamos da demagogia baladeira gauchiste de certos guedelhudos que o Maio de 68 pariu, ensebadamente vestidos e porcamente sujos ou dos conjuntos de música (?) selvagem que põem aos pulos e gritos histéricos, certa mocidade acéfala ou desmiolada…
Mas não era só a vertente lúdica que me tomava o tempo todo de que dispunha. Para além das visitas que efectuei a museus e monumentos e dos raids à Feira da Ladra e alfarrabistas, à cata de livros, descobri recantos típicos, de encantar quem tenha preocupações de ordem cultural e estética. Embora vivesse a fase despreocupada dos vinte anos, eu tive a sorte de, precocemente, pensar no futuro com postura séria de vida e, nessa linha, eu aproveitei a oportunidade que se me ofereceu para percorrer a cidade, fazendo a prospecção do mercado dos talheres que, desde tempos ancestrais, eram tradição na família e que era meu sonho continuar, não já como operário que era, mas dar o salto para o sector empresarial. Assim, conheci casas e pessoas, cimentei amizades que me foram úteis quando, regressado à vida civil, passado apenas um ano, me estabeleci como industrial.
E VIVA A “PELUDA”!
Mas são horas de pôr termo a esta série de crónicas da minha vida militar que já se arrastam há mais de um ano e que eu tinha previsto para duas ou três. Já lá vão doze e seriam necessárias outras tantas para esgotar o filão que, em cerca de ano e meio de tropa, fui acumulando na minha memória. Nada mais indicado para isso que o dia de hoje, 24 de Agosto, em que se completam os 50 anos da peluda que a fotografia publicada em número atrasado de “O Reflexo” registou e onde eu e o 326 nos encontramos à civil no meio de um grupo de que fazem parte, entre outros, o Bernardino, o Manel do Amadeu – que será feito dele? – o Botija e o Duque.
Como o tempo voou, meu Deus! Tenho bem presente o complexo de emoções que vivi nesse longínquo dia: por um lado a alegria de, finalmente, estar livre para encarar a realização dos sonhos que alentei desde criança, através de trabalhos e lutas titânicas procurar ser alguém; por outro, as saudades que comecei a sentir naquele próprio dia, dos tempos maravilhosos em que, integrado num conjunto de oficiais, sargentos e praças, passei as horas mais despreocupadas e folgazãs da vida. Sobretudo, tendo em conta que era uma época em que o Exército Português era composto por homens de grande envergadura moral, fieis ao seu juramento de defensores do Portugal pluricontinental. Só muito mais tarde a traição conseguiu infiltrar-se através de crápulas e salafrários, para quem os valores da dignidade, pundonor e verticalidade, não entravam no seu vocabulário. Perjuros desprezíveis ao seu Código de Honra Militar que as gerações próximas saberão classificar e condenar às galés da história.
Honra aos que não traíram!
Aos que, por vaidade balofa ansiavam pelo penacho ou, por genética inclinação para a traição, transformaram uma grande Pátria neste insignificante portugalóriozito que, rebaixado à condição de parasita, anda a comer à custa dos outros, que a terra seja leve para os que morreram e desprezo infinito para os que p’raí vegetam na brigada do reumático ou se pavoneiam em eldoráticas sinecuras.
Apesar de tudo, como eu te amo meu querido Portugal, mesmo na pequenez a que a banditagem, militar ou civil, te reduziu…
Como Camões – “faxista” ava-nt la lettre! – tenho o maior orgulho em afirmar: Esta é a ditosa Pátria minha amada…

Longos,
24 de Agosto de 2001
Por José Ribeiro