Romagem ao passado XXIV
Quarta-feira, Janeiro 2, 2002

Idealizado pelo insigne defensor da classe trabalhadora, Dr. Abel Varzim, realizou-se nos fins de 1950 o Congresso Nacional dos Homens Católicos. Aproveito a oportunidade para esclarecer a gente mais nova e todos os que, não sendo novos, sofrem de amnésia, que o Dr. Varzim fundador da L.O.C. em Portugal, através da qual lutou para que fosse aplicada a favor do mundo do trabalho, a Doutrina Social da Igreja que, sobretudo a partir de Leão XIII, foi preocupação permanente dos Romanos Pontífices, não era nada daquilo que se anda p’raí a espalhar. Forças maquiavélicas que não olham a meios para atingir os fins, aproveitaram-se do seu nome prestigioso para, após a sua morte, o apresentarem como bandeira dos seus malévolos ideais.

Acontece que faz parte da bibliografia numerosa que tenho sobre o assunto, a colecção do jornal “O Trabalhador” em que tanto colaborou e outras publicações, bem como um volume precioso de sua autoria com o título “Comunismo” e portanto estou à vontade para dizer que é calúnia e vilania , afirmar-se que era prosélito de tais doutrinas, esse valoroso membro do clero bracarense.
Prestado este esclarecimento vamos então ao cerne da questão que tem a ver com a temática de que, há arrastado tempo, as minhas crónicas se vêm ocupando.
O referido Congresso efectuou-se no Pavilhão dos Desportos, ao cimo do Parque Eduardo VII, a dois passos do Quartel de Metralhadoras 1. Mobilizou-se o escol masculino da sociedade portuguesa sob o alto patrocínio do Colégio Episcopal que ali compareceu na sua totalidade. E que grandes, sábios e fervorosos bispos Portugal possuía…
Chegou ao conhecimento da malta que o Santos da Cunha, de Braga, também estava presente e tanto bastou para que um grupo numeroso de rapaziada vimaranense, quisesse aproveitar-se e tivesse a iniciativa de o ir cumprimentar.
Assim foi e, por delegação da embaixada, coube-me a mim o papel de o abordar para lançar a rede quando ele, à saída, assomou ao portão: “Sr. Presidente, somos de Guimarães, estamos aqui ao lado a cumprir o serviço militar no Batalhão de Metralhadoras 1 e lembramo-nos de o vir saudar atendendo que somos vizinhos”…
“Ó rapaziada, que grata surpresa, que enorme alegria me dais! Eu tinha um programa para o jantar mas sendo assim, outro valor mais alto se alevanta pelo que fica sem efeito e vamos aí juntos, fazer uma comidinha… Mas antes vamos todos aqui fazer uma manifestação ao Sr. Arcebispo – o saudoso D. António Bento Martins Junior – que vem já ali…
“Viva o Sr. Arcebispo Primaz” , disparou, com os braços no ar o popular político, com aquele vozeirão tão nosso conhecido, com que a natureza o dotou. Foi um bombardeamento de vivas e palmas que emocionaram o bondoso Prelado que, depois de agradável cavaqueira e com uma palavra particular para cada um de nós, relacionada com as nossas paróquias de origem, que Ele tão bem conhecia, se despediu reconhecido.
A seguir poisamos num conhecido “comes e bebes”, o célebre Martins, ali perto, do lado oposto do parque e foi uma razia! Parecia uma praga de gafanhotos, desde os caracóis aos passarinhos, iscas e carapaus de escabeche, pataniscas e toda a variada petisqueira ali existente, foi tudo rapado sem deixar nada.
O pior foi quando nos apercebemos que o tempo voou e passava da 1 hora da madrugada e, portanto, a última abertura da Porta de Armas, para entrar, já ia longe.
Posto o caso ao nosso homem, não se atrapalhou e deitou a mão ao telefone a ligar ao oficial – dia que lamentava muito mas não podia resolver o problema que o transcendia e o Comandante estava ausente, fora de Lisboa. O influente político não está com meias medidas e liga para a casa do Governador Militar de Lisboa que era então o general D. Miguel Pereira Coutinho e acorda-o àquela hora nada convencional.
“Ó Senhor Governador Militar, é o Santos da Cunha que o cumprimenta e pede lhe releve o incómodo de o acordar a esta hora da noite. Mas acontece que sou o autor moral do atentado à disciplina de um grupo de subordinados seus, Vimaranenses que prestam serviço militar no B.M.1. Estive aqui a confraternizar com eles e a última abertura da Porta de Armas passou-nos desapercebida. Peço-lhe encarecidamente que lhes faça abrir o portão e que não sejam molestados porque a culpa foi toda minha; sabe como estas coisas são…”
O ilustre General condescendeu e iria imediatamente dar ordens para o quartel para que os portões se abrissem. E assim aconteceu!
Não há dúvida que aquela montanha de roscas de pão-de-ló que enchia o átrio da estação dos Caminhos de Ferro de Braga, por alturas da Páscoa, com destino a Lisboa, era o abre-te sézamo que permitia resolver estas coisas ao popular bracarense. Bons tempos que uma doce rosca chegava como lobi. Hoje as coisas resolvem-se mas o doce é diferente…
Naqueles tempos, por dificuldades de transporte e outras razões, era raro vermos em Lisboa gente conhecida cá da terra e sempre que aparecia alguém, não se perdia a oportunidade de matar saudades.
E porque assim era…
Nos fins dos anos 40, organizou-se um “Grupo Turístico das Taipas” vocacionado para excursionar em autocarro. O primeiro passeio foi ao Alto – Minho, em 1948 e o segundo à zona da Galiza na Espanha, em 1950. O terceiro, já com o nome de “Grupo Excursionista os 30 Sobrinhos do Velho Tio das Taipas”, foi em 1951, à Capital.
Quando soubemos da coisa, lá nos preparamos para os receber e acompanhar. Foi com alegria e entusiasmo que nos encontramos à chegada do autocarro, em frente ao quartel, no espaço situado na retaguarda do Marquez. Cantou-se a plenos pulmões o Hino do Grupo, da autoria, se a memória me não falha, da mulher do Delfim Lopes:
“Cá vão os 30 sobrinhos
do velho tio das Taipas
no seu passeio anual
com os seus tambores e gaitas
entre risos e canções
não temos outro rival
e vamos d’ano p’ra ano
conhecendo Portugal!”
Depois foi a visita ao quartel onde alguns excursionistas estavam em casa pois em anos anteriores lá tinham prestado o seu serviço militar e onde encontraram ainda, alguns superiores como, entre outros, o saudoso capitão Baltazar.
À tarde e à noite lá fomos em romaria visitar os tascos que enxameavam a Lisboa de meados do século e a que davam o nome de “Val-do-Rio”. Aí se petiscava e bebia cerveja, nesses tempos ainda não muito enraizada nos hábitos, os pirolitos e laranjadas e, em estabelecimentos próprios, a cantada ginginha, com ou sem elas. O vinho era consumido, não em garrafas como agora com seus preços proibitivos, mas sim ao retalho nos populares copos de dois ou de três, a troco de míseros tostões.
Em cada ano era eleito o Tio para justificar o nome do grupo. Em 1951 calhou essa função ao pai do Duque.
Estou a ver o S’ Leobiano quando, para descermos do Largo do Carmo para o Rossio, tomamos o elevador de Santa Justa. A deslocação da cabine, ao partir, dava a sensação de faltar o terreno. Atrapalhado, enquanto procurava segurar-se, fazendo gestos aflitos com as mãos para se agarrar a qualquer coisa que lhe valesse, ia desabafando o seu estribilho do costume: “Faca Tónia, faca Tónia”!
Que de saudades!

Longos, 5 de Agosto de 2001
Por José Ribeiro