Romagem ao passado (XXIII)
Terça-feira, Outubro 2, 2001

Não era que eu fosse epistológrafo excepcional, mas devia funcionar aquela máxima popular de que “em terra de cegos, quem tiver um só olho, é rei ”… O que é certo é que, ou para casados a jeremiar às mulheres, inventando apertos que exigiam dinheiro – às vezes para aplicar em fins inconfessáveis de que elas seriam desconhecedoras vítimas – ou para namorados a jurarem às suas princesas que, longe delas, a vida não tinha sentido (!), não esquecendo, uns e outros, de bater na tecla de que o pré era escasso e que uma notita ou vale do correio, viriam mesmo a calhar, eu quase que assentei banca como plumitivo encartado. Passaram-me pelas mãos, nessa função, coisas engraçadíssimas. Como a daquele cuja primeira preocupação ao receber carta da mulher, era ver se continha qualquer valor. No caso de ter, fartava-se de beijar a carta e a própria nota sendo a mulher promovida à categoria de anjo; na hipótese da carta vir singela e seca, voltava a fechar o envelope e, por castigo, só a lia no dia seguinte fartando-se de proclamar que a mulher era um coirão!
Passei a ser uma espécie de secretário das coisas do coração dessa gente. Como lamento não ter guardado as cópias das muitas centenas de missivas que redigi! Quanto esforço tive de dispensar para não me repetir pois que, além de as escrever, regra geral, tinha também de as redigir a não ser aquelas quadras populares que alguns faziam questão de ditar, tais como: “Bai carta feliz boando, nas asas do aurbião, se bires o meu amor, dá-le um xi-coração”, ilustradas por uns corações atravessados pela seta do Cupido…
Fui, sem querer, confidente de segredos íntimos de namorados e casais, alguns de forte melindre, mas cuja confidencialidade sempre respeitei como se fosse segredo de confissão…
Salta-me à lembrança o saudoso João Bernardino, irmão do Manel da Shell que também a mim recorria, não para escrever à família ou namorada, mas sim para uma senhora que bem cedo se despediu da vida, a D. Sara, mãe do Quim Vilas em cuja casa era jornaleiro, antes da vida mi-litar. A propósito do Quim, que é feito das pirometrias em que era expert ? Já são horas de retomar o serviço… Mas, voltando ao Bernardino: de tempos a tempos – para não abusar – lá me vinha abordar para mais uma cartinha a matar saudades e saber se tudo ia bem lá em casa, que eu ao fazer desta estou bem graças a Deus… Lá tinha eu de espremer as meninges para que o disco não fosse sempre o mesmo. Como ele sabia escrever, limitava-se a copiar, assinar, selar o sobrescrito e pôr no correio. No final de contas a treta lá ia dando os seus resultados e a bondosa D. Sara – tinha de ser, com tão lindo nome! – lá ia caindo com uma preciosa nota de vinte que dava para muita festa. Para termo de comparação, basta lembrar que, nesse tempo, nos restaurantes do Bairro Alto, comia-se um prato de favas com lascas de presunto, uma económica (tigela de sopa) e um copo de três e gastavam-se vinte e oito tostões! Hoje, só pelo prato, anda à volta de vinte e oito centos de escudos…uma questão de zeros!
A rememoração do Bernardino, traz-me à memória uma aventura que ficou assinalada na minha vida militar e na do Duque:
Tínhamos, o trio do costume, estado a tainar, de um sábado para o domingo, até altas horas da madrugada. Eu e o Duque fomos à missa do meio-dia e como estavamos empanturrados, dispensamos o almoço e fomos passar a tarde para as praias do Dafundo e Algés. O 326 não nos acompanhou pois o domingo era o dia reservado para uma sopeira lá dos seus lados beirões a quem entretinha com uma espécie de jogo a que dava o nome de bijardazinha…
Estava um dia de sol radioso e, já à tardinha, fui mostrar ao Duque o magnífico conjunto dos Jerónimos e da Torre de Belém.
Nessa vasta zona restavam ainda peças significativas dos pavilhões da memorável Ex-posição do Mundo Português que, em 1940, assinalou um passado de que nos orgulhávamos e um presente que nos permitia enfrentar o futuro com confiança, enquanto no resto do mundo se viviam dias de angústia e desespero e a Europa, a ferro e fogo, mais parecia o inferno que Dante descreveu em páginas imortais.
Que os velhos – sem memória ou com má fé… – e a mocidade que teimam em enganar não tenham dúvidas destas certezas que tenho arquivadas na minha memória e nos meus livros.
Na minha frente, no recanto mais carregado de emoções da minha biblioteca, tenho a fotografia que no longínquo ano de 1936, com 7 anos, erguido pelos braços do meu professor tive o privilégio de descerrar e que conservo como relíquia preciosa. Aí se pode ler este naco de prosa, digna de antologia: “Demos à Nação optimismo, alegria, coragem, fé nos seus destinos. Retemperemos a sua alma forte ao calor dos seus grandes ideais e tomemos como nosso lema esta certeza inabalável: Portugal pode ser se nós quisermos, uma grande e próspera Nação” !
E foi, durante décadas que eu e os do meu tempo tivemos a ventura de viver, até àquela noite da desgraça em que agentes das alfurjas e da agiotagem internacional, fazendo uso de boçais traidores ao juramento solene de defender a Pátria, puseram em pantanas mais de oito séculos de História reduzindo-nos a esta coisa sem vergonha e sem brio que passa o tempo de mão estendida a esmifrar outros povos com quem está “envergonhadamente acompanhada”…
Mas deixemo-nos de coisas tristes, malcheirosas e voltemos àquele fim de dia de há cinquenta anos:
Entretanto o estômago começou a acusar as muitas horas de jejum. Lá nos dependuramos no carro eléctrico, um de cada lado, sistema que os guarda-freios toleravam à magalada. Chegados ao quartel com o sol – posto, verificamos que as nossas reservas estavam nas lonas pois da comezaina da noite anterior, só restavam umas cebolas e pouco mais. Procurei o 90 para o necessário remuniciamento mas também ele andava na gandaia. Posta à prova a imaginação para o desenrascanço, ocorreu-me ir visitar o Bernardino que era cozinheiro na Mess dos Oficiais.
Coloquei estrategicamente o nosso amigo Duque a diverti-lo com o paleio da treta, abeirei-me sub–repticiamente do fogão, abri a porta do forno e dei com um enorme e suculento bife com dois ovos a cavalo, devidamente ro-deados por umas apetitosas batatas fritas e uns pedaços de cogumelos misturados com picles para excitar o apetite… Vivi nesse momento, de forma experimental, a teoria dos reflexos condicionados do Pavlov, pois inundou-se-me a boca com água…
Um pouco atabalhoadamente, num abrir e fechar de olhos, caíu tudo dentro de um saco de cartolina com que me preveni e que, a pretexto de necessidade urgente de ir à casa de banho, fui esconder debaixo das escadas de acesso à cozinha.
Voltei imediatamente para disfarçar e não levantar desconfianças. Passados uns minutos, soa lá de dentro da sala dos Oficiais a voz do Aspirante Batalha: “Ó cozinheiro, quando é que o jantar é servido”? – “Já lá vai, meu Aspirante”, responde o Bernardino.
O que se passou a seguir não dá para contar. Só visto… Tenho na retina o rosto do pobre Bernardino, com aqueles expressivos olhos arregalados a olhar para o forno vazio: “Ah! Qu’é do bife que ainda há pouco fritei”?
Eu e o Duque com uma lata dos diabos:
“Mas como é possível”? “Isto até parece bruxedo”, atira o Duque… Bem, digo eu, haja sangue frio, não vale a pena perder tempo, põe-me já outro a fritar enquanto eu e o Duque descascamos as batatas…
Ó Bernardino amigo, se lá de onde estás te for possível rever o filme, tenho a certeza que, com o teu sorriso bonacheirão, estás a cocar – e a perdoar… – o mistério – crime do bife desaparecido e a dizer como o nosso Primeiro:
“É a vida”!!!

Longos, 30 de Julho de 200

Por José Ribeiro