Romagem ao passado (XXI)
Sábado, Março 31, 2001

Pois foi verdade, o tenente Manuel João não me largou e foi ter comigo à minha secretária, exigindo que lhe apresentasse o livro da escala onde, com facilidade, poderia descobrir a marosca do tal sistema que me permitia fazer piquetes faz de conta. Disse-lhe, com a serenidade que me foi possível, que estava na mão do Primeiro Osório, o que não era verdade pois era eu que o tinha.
À cautela – a tropa obriga-nos a ter olho vivo e pé ligeiro – dirigi-me à Travessa dos Quartéis, lá para os lados do Campo de Ourique, a casa do Primeiro, para lhe transmitir o ponto da situação. Recordo-me que ao chegar à sua porta, um rés-do-chão, o fui encontrar em animada sessão beijoqueira com a sua insinuante namorada e de que um grande espelho colocado à entrada, me obrigou a ser testemunha indiscreta. Esperei, a deixar passar a fase mais aguda daquilo a que hoje chamam marmelada… Nesses tempos essas coisas aconteciam – quando aconteciam – debaixo de telhas, com certo recato; agora é à frente das multidões e até parece que adormecem, tempo infinito, com as bocas coladas, alheados do mundo que os cerca.
Quando se apercebeu da minha presença, sorriu-se complacentemente e indagou sobre o motivo que me levou a procurá-lo. Inteirado do assunto, gabou a minha iniciativa, mandou-me de volta e que deixasse o caso com ele.
Claro que, no dia seguinte, quando chegou ao quartel, já o “nosso amigo” o esperava e foi ter com ele à Secretaria da Companhia. Quem viveu em Metralhadoras 1, sabe que os pavilhões estavam assentes em colunas, deixando por baixo um espaço aberto onde se andava perfeitamente de pé. Como o piso era de madeira de pinho, acontecia que, aqui e ali, apareciam uns galhos que facilmente se removiam, permitindo-nos ver e ouvir o que se passava em cima. A Formação do Comando não fugia à regra e para lá me dirigi para acompanhar o desenvolvimento da minha telenovela que, confesso, alguma preocupação me estava a causar.
“Eu quero o livro do registo da escala de serviço”, intimou o tenente. “O livro só o faculto ao Comandante da Companhia” ripostou o Primeiro. Palavras puxam palavras, cada vez mais inflamadas e agressivas, quando o tenente atira com o argumento decisivo da “hierarquia”: “O Osório não se esqueça da distância que vai do seu posto ao meu”… Primeiro Osório, levanta-se como que impelido por uma mola, dá um sonoro murro em cima da secretária e replica fulminante: “Não esqueço, não senhor, meu tenente, mas também o senhor não vai esquecer que, quando veio para a vida militar, eu já tinha calos no cú como os macacos”! Eu não tremia mas quase… Nesta altura oiço o bater cadenciado de umas botas que me era familiar. Era o Capitão Xavier a entrar e fez-se um silêncio sepulcral. Reparei no seu semblante risonho ao intervir: “Apercebi-me que discutiam acaloradamente e, de súbito, calam-se”? – “Eu estava a pedir o livro da escala porque estou informado que há gente na Companhia que não faz qualquer serviço”… – “Ó Manuel João, cá dentro da Unidade há patentes superiores à minha. Vá-se queixar”!
Grande Capitão Xavier! Nessa hora conquistou, para toda a vida, o meu indelével reconhecimento. Quando nos encontramos todos os anos – ele agora com a patente de Coronel – na reunião de confraternização dos antigos de Metralhadoras 1, sou o seu oficial às ordens, missão que me honra e dignifica.
Escusado será dizer que Manuel João convenceu-se que, com povo deste, nada havia a fazer e lá se foi com o rabo entre as pernas, deixando-me definitivamente, sem jamais, até à “peluda”, me chatear.
Quero garantir a toda a gente que este episódio como, aliás, qualquer outro que venha à baila, conforme a sua oportunidade, é rigorosamente verídico e a descrição nos seus pormenores, a pecar, só o será por defeito que não por excesso. Para o corroborar não faltam aí testemunhas presenciais. Querem ver? Aí vai mais um em que participou in partibus o nosso impagável herói, o mesmo Manuel João Fajardo.

Lembras-te Duque?
Estavas a meio do calvário da recruta iniciada há pouco mais de dois meses. Recruta que te suavizei o melhor que pude e creio que foi bastante. Recordas aquela enorme cesta diária com uma travessa de bacalhau desfiado com cebola crua, a nadar em azeite e alho, no intervalo da instrução da manhã? Que belos tempos!
Um dia apareces-me com a imagem da impotência estampada no rosto, descorçoado e abatido. A cabeça rapada como um melão e a roupa a saltar no corpo, fazias-me lembrar a figura que exibiam, há muitos anos, os órfãos de S. Caetano. Ao ver-te assim, apareci-te, qual deus-ex-machina a quem se recorre nas grandes atrapalhações. Quando te interpelei, respondeste-me como os condenados sem esperança: “Estava escalado para descascar batatas mas como havia revista de limpeza de armas, eu optei por esta e faltei àquelas. O Manuel João chamou-me e não quis saber das minhas explicações: “Já te não safas, Zé”!
E o que te valeu era seres recruta e, portanto inimputável, se não, a talhada era bem mais pesada. Mesmo assim lá apanhaste umas semanas de castigo sem licença para sair e umas sessões intensivas de descasque das tais batatas, mais umas faxinazitas a varrer o chão o que, naquelas circunstâncias, te parecia uma espécie de pena maior…
Analisei o “processo” in mente e, numa daquelas inspirações momentâneas de que só um tropa-pronto é capaz, peguei na minha carteira onde estava “agasalhada” uma preciosa nota de 50 escudos, disse-te para lhe juntares outra igual para reforçar o peso – que naqueles tempos era uma pequena fortuna – e vais entrega-la ao Manuel João dizendo que a encontraste no chão da parada. Ainda olhaste para mim, desconfiado, mas empurrei-te com a intimação: “Vai e deixa lá mijar a anha”…
À distância pus-me a desfrutar a “cena”: “Dá licença, meu tenente”? e lá fizeste uma continência um tanto trapalhona ao mesmo tempo que batias o tacão de uma bota na outra. Manuel João esticou o pescoço como era seu tique e indagou: “O que se passa agora, Zé”? – “Ia a passar, meu tenente, vi isto no chão. Não sei o que tem dentro porque foi agora mesmo e nem abri”… Parecias um choupo em dia de vento, a tremelicar por todos os lados. Aberta a carteira com as massas dentro, viu-se que tinha dono determinado porque tinha documento de identificação.
À noite, formatura geral de recolher. Manuel João, senhor do seu papel, tendo descoberto, através de um pobre recruta, uma carteira com valor significativo para a época, levanta a voz: “210, perdeste alguma coisa”? – “Não me diga que apareceu a minha carteira”, respondi com uma cara misto de sofrimento e de feliz expectação… “Apareceu e, por sinal, foi um recruta que a encontrou. Foi o 249/51 que prova manter as qualidades de honestidade que cultivou na família. Ponham os olhos num simples recruta e procurem imitá-lo”!
Moral da história: O castigo do Duque, não só foi ao ar como se transformou, como por encanto, em louvor público que o encheu de peneiras!
Ainda dizem que a tropa não é uma grande escola!

Longos, 13 de Abril de 2001