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Romagem ao Passado (XXXVI)
Segunda-feira, Abril 3, 2006

Continuemos na “Casa das Pontes”.

Quando, em momentos de solidão a que de quando em vez me recolho, rebusco nos escaninhos de uma memória fiel os acontecimentos que me foi dado testemunhar na infância e adolescência distantes, é a esta casa que a minha imaginação volta e é, então, que a figura impar do meu mestre-escola se agiganta e volvo a Deus o meu pensamento a agradecer o grande, o impagavel privilégio de me ter tocado tão qualificado professor.

João Rodrigues Marques era oriundo da Veiga de Penso, em Braga, de uma familia tradicional – a “Casa de Cidelos” – ligada à lavoura, que criou um conjunto numeroso de filhos que, pelo trabalho e posição social, se evidenciaram acima do comum .

Esteve, no princípio da sua carreira, destacado em Bragança, como Inspector Escolar e, mais tarde, quando em Sande casou, foi transferido como professor para S. Clemente onde, na Escola de Vieite, um daqueles pardieiros mais indicados para guardar animais do que para albergar crianças e onde teve como aluno, entre outros, o ilustre e afamado orador sagrado dr. José de Jesus Ribeiro. Acumulando com o trabalho lectivo, ocupou o lugar de Delegado Escolar do concelho de Guimarães até à sua aposentação.

Pouco tardou – um ou dois anos – a transferir-se para a escola de Sande, a minha inesquecivel e saudosa escola das Gaias. Esta escola, um belo e amplo edifício construido especificamente para esse fim, tinha sido doada à freguesia, através do governo da Nação, por uma benemérita da “Casa dos Ferreiros”, D. Maria Alexandrina Vieira Marques em 1877. Pelo seu gesto magnânimo, mereceu ser incluida na lista dos primeiros sócios honorários da insigne Sociedade Martins Sarmento cuja primacial finalidade era promover a instrução e cultura popular dos menos favorecidos do nosso concelho. Foi, a nossa escola, a primeira oficial desta zona do Vale do Ave. A falta de motivação, o não te rales de quem tinha obrigação de a defender e manter ao serviço da terra, permitiu que fosse transformada em montão de ruinas que mete dó.

Antes, quer na Monarquia, quer na 1ª República, os políticos apregoavam o direito à instrução mas não passava de blá-blá pois o condicionalismo em que se vivia – revolução e golpadas militares permanentes – não permitia sair do marasmo e da estagnação.

As raras escolas que de longe em longe existiam, ou se deviam à Igreja ou a mecenas como o caso de Sande. Só na vigência do chamado Estado – Novo se criaram condições para, com o Plano dos Centenários, se construirem belos edifícios por todas as aldeias do país. Hoje são encerradas às centenas. Assim se começa a sentir o efeito da política malvada de assassinar as crianças no ventre da mãe ou da moda dos “casamentos” entre sexos iguais, dos antigamente conhecidos “bichas” ou “paneleiros”, no masculino, ou das “fufas” ou “bate-pratos”, no feminino. Esta desgraça, sob o rótulo de gays está a exigir direitos de cidadania a que a comunicação social enfeudada a forças misteriosas e certos deputados /as dão cobertura.Nesses tempos, um certo recato e restos de vergonha, obrigavam a esconder estas mazelas sociais. Hoje, a degradação dos costumes, conduziu-nos ao naufrágio que os nossos descendentes vão herdar. Assim se dá cabo de uma civilização que herdamos dos “nossos egrégios avós”…

Voltando à “Casa das Pontes”: Os imponderaveis e volte-faces da vida, deram lugar a que na casa da avó e dos tios se juntassen três irmãos. Dois rapazes e uma rapariga. Seus nomes: Napoleão, Maria de Lourdes e Alberto. Este trio está de tal forma entrosado nos meus primeiros anos de vida que fazem parte integrante do mundo de encanto da minha primeira infância. Andei ao colo dos dois mais velhos e o mais novo, com mais cinco anos que eu, apesar da diferença de idade, foi, na altura dos meus doze a quinze anos, um companheiro de convivência muito chegada. Trabalhavamos lado a lado e conversavamos muito, a ponto de um dia – como eu o recordo! – me confessar que, não obstante os anos que nos separavam – naquela idade, muito significativos – apreciava debater comigo, os problemas da vida. “Tu entendes-me”, foi o termo que um dia utilizou e que não mais se me apagou da memória.

Talvez a tal precocidade no interesse de tudo o que me rodeava, a “sofreguidão” em fazer perguntas que, bem cedo, me acompanhou.

Voltaremos ao assunto.