Romagem ao Passado – XXII
Quinta-feira, Agosto 9, 2001

Esse pessoal era transferido temporariamente para treino e aperfeiçoamento da especialidade de condutor – auto pois que o B.M.1 era um batalhão – escola motorizado servido por um corpo de oficiais de elite.
Ali afluiam das mais díspares procedências, com suas indiossincrasias e formações culturais próprias, gentes oriundas de zonas diversas da província. Como tive oportunidade de lidar mais de perto com todos, deles fiquei com as melhores recordações, nomeadamente dos alentejanos e algarvios. Estou a lembrar-me de um, o Paulo Lagartinho, dos lados de S. Tiago de Cacém, no Alentejo, rapaz maravilhoso, com um rosto risonho a espalhar simpatia e que, todas as segundas-feiras de manhã, me aparecia com um recipiente de alumínio contendo um coelho assado ainda quentinho, retribuição da licença fim de semana que eu lhe conseguia… Muito me chocou a notícia veiculada por um seu vizinho de que já tinha partido…
Da heterogeneidade daquela mistura de gente resultava que, como era óbvio e costumava dizer-se, naquele conjunto havia “filho de muita mãe”…
Um dia desapareceu uma quantia relativamente avultada a um adido, por sinal o motorista do Director Geral da Arma de Infantaria. Imediatamente recaíu a suspeição geral no “espanhol” que era um alistado refractário oriundo cá dos nossos lados e que tinha um cadastro na vida civil nada abonatório. Ginasta excepcional, sendo classificado em 1º. lugar a nível nacional militar, no “triplo salto mortal”, era, ao mesmo tempo, aquilo que se costumava chamar, em gíria da caserna, um “corrécio”. Por fim, teve o destino que lhe estava indicado: foi parar ao Depósito Disciplinar de Penamacor. Além doutras “habilidades”, era especialista no desvio de canetas de tinta permanente e esferográficas de qualidade. Quem quisesse uma Pelikan ou uma Mont Blanc a trôco de poucos escudos, era com ele. O campo de acção que mais usava, era o Parque de Palhavã onde se encontra hoje o complexo da Fundação Gulbenkian e que, na altura, era ocupado pela Feira Popular do “Século” e onde mais tarde uns anos, em 1957, tiveram início as primeiras emissões da R.T.P. Como tinha estabelecido comigo o compromisso de não trabalhar dentro do quartel, sempre o tratei com normalidade, concedendo-lhe as licenças de saída sempre que estava livre de serviço. Apesar do borborinho que se levantou a propósito do desaparecimento do dinheiro e do ligamento do seu nome ao caso, nem pela cabeça me passou tomar providências no sentido de o reter no quartel.
Não foi da mesma opinião o Comandante da Unidade, Tenente – Coronel Raúl Ferreira Braga, um dos alferes do 28 de Maio, que me chamou imediatamente a capítulo:
“Nem parece seu, 210. Então, sabendo você que houve um assalto na sua Companhia, vai passar licença de saída a um homem altamente suspeito?”
Enquanto, sem pestanejar, ouvia a objurgatória do chefe máximo do Batalhão, o meu subconsciente estava a trabalhar a melhor resposta para lhe dar. E então saíu isto: “Eu pensei nisso, meu Comandante mas, por outro lado, cogitei também que o espanhol roubou ou não roubou… A forma pausada como ia falando para que o raciocínio aparecesse mais lógico e plausível, deu aso a que fosse interrompido: “Essa é de Mr. de La Palisse” atalhou o meu Comandante. Não me deixei atrapalhar e continuei: “Mas se não roubou, não faz sentido tomar essas providências, pois pode prejudicar a descoberta do verdadeiro culpado; se roubou, não é aqui dentro do quartel que o “espanhol” vai gastar o dinheiro. Por isso passei-lhe a licença, de propósito e incumbi um elemento de confiança para o vigiar lá fora, a ver se ele fazia gastos fora do vulgar que o denunciassem”.
O bom do Ferreira Braga, levou o indicador direito ao queixo e concluiu: “Bem lembrado, essa não me tinha ocorrido, bem lembrado! Esteja atento e acompanhe o caso”…
E assim me livrei de apuros, inventando um recurso que nunca me tinha passado pela cabeça. Quando relatei, ipsis verbis, o combate ao Primeiro Osório, este não se conteve: “Ah! Pôrra! Você, não só aprendeu comigo como já sabe mais que o que eu lhe ensinei”…
E já que Raúl Ferreira Braga veio à baila:
Tinha morrido, já velhinho, o Presidente da República, Carmona, que foi general de carreira e não de aviário como agora certos lateiros graduados.
Foi construída uma grande tribuna em frente aos Jerónimos para as entidades nacionais e estrangeiras assistirem à impressionante parada de homenagem ao ilustre morto e em que tomaram parte delegações de quase todos os quarteis do país, de todas as armas. Foi a maior concentração de tropas e desfile de material de guerra jamais, até então, verificada em Portugal. No fim tocou a Metralhadoras1 o fornecimento de camionetas de carga e condutores para transportar o material da tribuna que o pessoal de engenharia desmontou. Como tinha requerido as provas de exame final de condução para adquirir a almejada cartaverde que me proporcionaria sem qualquer despesa a carta civil, escalei-me a mim próprio para esse serviço pois seria um oportuno treino intensivo para conseguir o que queria.
Lá andei cerca de 8 dias que até ao fim me correram sem novidade. O imprevisto surgiu-me no final do último dia. Quando, regressado ao quartel, me preparava para entrar na Porta de Armas, depois de tomar todas as precauções para a manobra, inopinadamente, com a frente da camionete apontada ao centro, foge-me, sem causa aparente, a direcção das mãos, embatendo com o guarda-lamas esquerdo na coluna do portão. A amolgadela foi insignificante mas era o bastante para ir parar à “casa da rata”, prisão privativa do quartel pois, nesse tempo, uma das coisas mais rigorosas que existiam no exército, era tudo o que dizia respeito à integridade dos veículos. Naquela altura do campeonato era o que menos convinha, pois estava em jogo não só o exame requerido, como a limpeza da caderneta militar, a 4 ou 5 meses de passar à disponibilidade.
Preocupou-me imediatamente saber se o Comandante ainda estava pois só ele tinha poderes para evitar que eu passasse por essa odiada “casa da rata”. Confirmada a sua presença, fui ao seu gabinete onde o encontrei, já à civil, pronto para sair. Perguntou-me o que se passava e, armado um ar de convincente sinceridade lá saíu a música: “Meu comandante, andei como V. Exc. sabe, nos últimos 8 dias a ajudar a desmontagem da tribuna em Belém. Tudo me correu bem até ao fim, mas quando, há momentos, me preparava para entrar na Porta de Armas, uma força que não sei explicar, obrigou a direcção a flectir à esquerda e causou uma pequena amolgadela no guarda-lamas.
Teria o maior orgulho em apresentar a caderneta limpa ao meu pai, e acrescentei mais uma série de considerações que o levaram a responder: “Fez bem vir ter comigo, aprecio os seus sentimentos e vá dizer ao oficial – dia que eu tomei conhecimento e portanto que não tome qualquer atitude que eu amanhã verei isso com calma”.
No dia seguinte, o “Primeiro – mecânico” Simões, entregava logo pela manhã um relatório ao Comandante em que propunha que não se registasse oficialmente o caso, pois o rapaz, com 20 escudos para desgaste do martelo e da lima (!) e um pequeno toque na pintura, resolvia o caso e ainda sugeria que a conta fosse dividida em 4 prestações de 5 escudos, para não estragar o orçamento da vítima! O Comandante aquiesceu à sugestão e tudo acabava em bem. Mas o caso não ficou por aí porque não levou uma hora que o porreiraço do Primeiro Simões aparecesse de novo com uns segmentos de molas nas mãos e dirigindo-se ao Comandante disse: “Afinal, estamos a ser injustos pois o 210 não teve culpa nenhuma e o que lhe sucedeu, poderia ter acontecido a qualquer um. O feixe de molas estava há muito tempo partido como se pode aqui verificar e só agora se resolveu a desmanchar-se, obrigando a direcção a ceder. Proponho por isso que não sofra qualquer sanção, mesmo monetária.
Raúl Ferreira Braga esfregou as mãos como era seu hábito quando estava satisfeito e concordou.
Cá fora do gabinete manifestei a minha gratidão ao Sargento do fato-macaco e convidei-o a ir à cantina encostar a barriga ao balcão onde comemoramos com uma cerveja o acontecimento!

Longos, 20 de Abril de 2001