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Rio Ave: que futuro?
Quinta-feira, Maio 19, 2016

Nasci e fui criado a 500 metros da Praia Seca. Passei muitos verões com os pés dentro de água. Sou do tempo em que, ao fim de semana, centenas de pessoas faziam praia no Rio Ave, nas Caldas das Taipas, e foi com muita tristeza que fui assistindo à degradação das suas águas, às notícias que davam conta de descargas poluentes e até à interdição de banhos.

Felizmente, podemos constatar que o Rio Ave, que em tempos foi considerado um dos mais poluídos da Europa, está agora já numa trajetória de melhoria das suas águas superficiais. O Sistema Integrado de Despoluição do Vale do Ave (SIDVA), que com a sua rede de coletores encaminha para as Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) efluentes domésticos e industriais outrora despejados no rio, é certamente o grande responsável por esta inversão.

No entanto, a perceção da melhoria da qualidade da água não é consubstanciada por informação disponível sobre a sua monitorização. As pressões a que as massas de água estão sujeitas têm novos agentes, a agropecuária e a indústria usam químicos e geram bactérias nocivas aos ecossistemas e à saúde pública, pelo que importa garantir que esses efluentes são devidamente encaminhados e tratados. É necessário um sistema de monitorização à saída das ETAR’s, para verificar se os parâmetros de tratamento estão adequados aos poluentes emergentes ou se os estamos a lançar no rio através do SIDVA.

É bom não esquecer, que a água para consumo humano em Guimarães é captada na Estação de Tratamento de Águas (ETA) de Prazins, e que esta fica poucos quilómetros a jusante da ETAR de Santo Emilião.

A recente descoberta de 4 bactérias multirresistentes em Riba d’Ave vem evidenciar a necessidade de um sistema de monitorização. Não creio ser caso para alarme, mas não podemos negligenciar a sua gravidade, sendo urgente tentar descobrir a sua proveniência e os riscos de contágio para o homem – seja por contato direto, seja por invasão da sua cadeia alimentar, através da rega de culturas ou da alimentação animal.

O Rio Ave precisa de um sistema de monitorização eficaz e transparente, que recolha dados fundamentais à sua gestão, e que proporcione informação e tranquilidade aos cidadãos.

O rio é, reconhecidamente, um recurso natural de muito valor para os ecossistemas e para as atividades do homem, mas tem sido tratado como um esgoto, um recurso ao serviço do “progresso”. É certo que os rios têm uma grande capacidade de regeneração, mas esta só será possível se nós tivermos a capacidade coletiva de alterar comportamentos.

Não sei como será o futuro do Rio Ave, mas sei que uma boa parte depende de nós.

Director da AVE – Associação Portuguesa do Ambiente