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Relações humanas, um bicho de sete cabeças!
Domingo, Agosto 3, 2008

O fosso entre gerações é uma realidade que se vem constatando ao longo dos séculos. Desde sempre que as relações entre uns e outros se vão estabelecendo com maior ou menor atrito e dificuldades.

Convenhamos que é muito difícil criar e cimentar relações humanas num tempo em que tudo dura apenas um momento, porque acontece ali, agora e não volta a repetir-se.

Os sentimentos, as emoções necessitam de tempo para se cimentarem e tempo é o que não existe nos tempos que correm. As novas gerações adoram a velocidade e a tecnologia que funciona ao simples toque de uma tecla ou de um botão. Vivem cercados de monitores a que, rapidamente, dão resposta sem qualquer atraso ou problema. Nem precisam de ler instruções! Parece que toda aquela informação «informática» (passo o pleonasmo!) já nasceu com eles. Possivelmente, até já vêm com um chip incorporado, algo que ultrapassa a compreensão daqueles que nasceram numa outra era, a de Gutenberg bastantes, a do Audiovisual a maioria. Apenas algumas décadas nos separam e somos tão diferentes… Para esta geração, é muito mais válida a frase «Uma imagem vale bem por mil palavras» do que para a minha. Eles pertencem, sem dúvida nenhuma, ao mundo da imagem que passa velozmente e que muda a cada instante. Por isso mesmo, são cada vez mais avessos à palavra. E não me refiro apenas à palavra escrita, da qual são inimigos mortais e figadais. Não lhes falem em livros porque é o mesmo que pedir uma congestão, muito compreensivelmente. Para esta camada humana jovem, o papel é algo que está a desaparecer e de que não sentem a falta, a não ser de alguns muito específicos: o papel higiénico (lá virá o tempo em que nem esse será necessário!), os guardanapos, os toalhetes de cozinha (onde limpam toda a série de porcarias!) e os lenços. Bem, e não quero entrar aqui na onda da roupa descartável que já é uma realidade a nível das cuecas e de mais algumas peças de vestuário. Lá virá o tempo em que o slogan será «use, areje/ esterilize (?) e reutilize». Pelo menos, poupa-se água e energia, já que não é preciso lavar e muito menos passar a roupa a ferro. São estas as variedades de papel que os jovens conhecem, porque as outras só as conhecem de forma muito rudimentar. Há alunos que conseguem andar o ano inteiro sem caderno diário! Culpa deles, culpa do sistema, já que os professores são obrigados a aceitar essa incongruência após uma luta estéril por uns tempos (culpa também deles, dos professores!) e culpa dos pais que, na maioria dos casos, se estão a baldar completamente para a escola. Mas, falava do papel, nomeadamente, o dos livros que por eles é considerado como um consumo exagerado das reservas naturais do planeta, as árvores. Para contraporem estes argumentos já lhes interessa adquirirem alguns conhecimentos básicos sobre ecologia e medidas de recuperação e prevenção da deterioração do Planeta Azul…

Mas dizia eu, no início desta crónica, que é difícil criar e cimentar relações nos dias de hoje, em que a velocidade só é igualada pela efemeridade dos momentos que passam e dos factos que acontecem. Tudo muda num breve piscar de olhos até mesmo a Tecnologia que os jovens endeusaram e endeusam quotidianamente. Sem ela, a vida seria desinteressante e monótona. Eles gostam de tudo quanto lhes tira o trabalho – é a fast food, que qualquer dia aparece sob a forma de pílula para engolir com todos os elementos essenciais para uma alimentação saudável, racional e equilibrada; o pronto a vestir, cujo futuro se adivinha sob a forma de descartável ou de auto-lavável, ultra confortável e super leve, uma segunda pele ao alcance da mão que fará desaparecer todas as imperfeições do corpo aos olhos dos outros; os jogos electrónicos interactivos, cuja ficção se confunde com a realidade, às vezes de uma forma um tanto ou quanto perigosa; os filmes que elogiam poderes sobre-humanos e incitam os jovens a serem super heróis num mundo em que a competição desenfreada é a lei.

Mas os jovens gostam dessa mudança frenética e adaptam-se com grande facilidade. Nós é que lhe somos avessos porque nos recusamos a ser comandados por máquinas e a manusear teclados. Nós gostamos de fazer, de mexer, de manusear. Eles gostam de ver, de assistir, de ficar plasmados e grudados a um monitor de uma qualquer máquina a divertir-se passivamente com um jogo que se desenrola à sua frente depois de lançados os dados. Somos realmente gerações muito diferentes. Esta é uma constatação feita ao longo dos séculos. O famoso fosso entre as gerações, a tal constante invariável ao longo da história! E, quando estes jovens amadurecerem, crescerem e se multiplicarem, seguindo a ordem natural e normal das coisas, também eles dirão a respeito dos seus descendentes que a geração nova é frenética, irrequieta, inconsciente, rebelde. Não é essa a diferença entre a juventude, a idade do desafio e da esperança no futuro, e a maturidade, a idade da realidade e da concretização?

Sem dúvida que é difícil criar e cimentar relações hoje como o foi ontem. Os tempos mudaram e a mudança frenética mexe com o próprio tempo. Cabe a cada um encontrar uns segundos, uns minutos por dia para concretizar esta ou aquela relação com os amigos, com a família, com os pais, com os filhos, com os companheiros de trabalho. Bastará um sorriso, um incentivo, uma carícia, um «estou aqui», um «amo-te», um «gosto de ti». Para quê complicar as coisas? Assim se estabelecerão os alicerces para uma sólida camaradagem, amizade ou amor. Os sentimentos mudam mas o caminho a percorrer é o mesmo – cultivar paciente e diariamente esse pequeno arbusto ou árvore para que possa vingar e crescer. E agora, a um pequeno passo das férias, todos nós podemos tirar um «tempito» para fazer o que já quase não temos tempo nem disposição – que tal ler um livro?

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