ROMAGEM AO PASSADO (XXXII)
Segunda-feira, Setembro 5, 2005

Ora então, retomemos a viagem à volta do lugar das Pontes, interrompida pela crónica da vida militar, em 26 de Março de 2000, há mais de cinco anos e que se estendeu, sem esgotar o assunto, por alongados episódios que resolvi arquivar em volume – “Do Assentar Praça à Peluda” – para os meus filhos, netos e amigos do peito, verem como a coisa foi.
Tinha ficado – lembram-se? – na zona conhecida por bouça da Carreira, na bifurcação do caminho que vai da Caxadinha aos Lameiros e que nos conduz ao lugar da Pedreira.
Logo à esquina, está a casa onde o Berto Rita morou e passou os seus últimos dias, depois de longa vida de trabalho e despreocupadas sessões de copofonia! Apesar de tudo, um homem que gerava amizades pela sua maneira brincalhona de encarar a vida e de cumprir com lisura os seus compromissos.
Ao lado vive um dos seus filhos, o Quim, cuja vida acompanhei desde criança, quando emigrou para a casa dos seus avós maternos e onde, bem cedo, “comeu o pão que o diabo amassou”. Com ele tive ocasião de conviver nas minhas andanças por diversas regiões de França que atravessei em todas as direcções em jornadas memoráveis de negócios e passeio e que levas de portugueses ajudaram a recuperar das ruínas de uma hecatombe a que a orientação gauchiste du Front Populaire, condenou essa grande nação. Enquanto o psicopata do Hitler promovia o enriquecimento demográfico com políticas de apoio à família e, através da “Alegria no Trabalho”, o aumento da produção – infelizmente orientada, de forma avassaladora para a indústria de guerra – a França cultivava o absentismo da classe trabalhadora e o plaisir de vivre, sem limites nem regras. Assim fazia o jogo do monstro das estepes, o Zé dos Bigodes, fomentando a vida fácil, com o casa e descasa e o morticínio dos inocentes, através do aborto. Uma moda que levou tempo a cá chegar mas que aí está, importada nas auras de Abril, apoiada por políticos – sobretudo certos jotinhas e deputados ou deputadas sem vergonha – difundindo o descalabro e desintegração das famílias e a que uma comunicação social enfeudada a certas forças misteriosas dá apoio entusiástico.
Como os dois trogloditas, o ariano e o eslavo, fizeram um pacto de não – agressão, uns dias antes da II Grande Guerra rebentar, o partido comunista francês, ao serviço do patrão da soviécia, convenceu grande parte dos soldados a baixarem os braços frente a um disciplinado exército, a temível Wehrmacht, daí resultando a debandada trágica de multidões em circunstâncias dantescas, escrevendo uma das páginas mais negras de toda a História Militar da França e de que resultaram terríveis amarguras e horrendas situações para um povo inteiro.
Mas, como ia dizendo, nos meus raids automobilísticos por essa Europa fora – bons tempos! -, tive oportunidade de conhecer, em pormenor, a vida de emigrante do Quim Rita. Quase analfabeto, mas era vê-lo interpretar plantas da construção civil como qualquer técnico especializado, bem como conduzir, quer nas ruas de Paris, quer em plena route, desenrascando-se nos sinais de orientação rodoviária como qualquer profissional.
Na sua casa, cumpria-se a máxima, “deitar cedo e cedo erguer”. De madrugada, toda a gente se levantava para poder estar a tempo e horas no arrancar do trabalho. Essa casa, na zona de Vitry – Sur – Seine, ao sul de Paris, era uma festa! Família numerosa, mesa farta, à grande e à francesa, era um banquete permanente onde não faltavam o bacalhau e o verdasco, idos da terra, que armazenava em quantidades substanciais, rematado pela imensa variedade de queijos e frutas em que a França é rica e tudo “condimentado” por aquelas gargalhadas sonoras, proverbiais na família dos Ritas.
Que pena tenho que a mulher, a Rosa, não tivesse ocasião de gozar melhor a vida, como merecia, depois de uma canseirosa labuta diária de tantos anos, a cosinhar no restaurante “Maison Blanche”, à margem da Avenida de Italie… Um aceno de simpatia para a sua prole que por lá anda e da qual faz parte a Isabel cujo casamento, há tantos anos, lá apadrinhei! Felicidades para todos que bem as merecem!
Logo a seguir uns metros, se deitarmos uma mirada ao lado, a pouca distância, encontramos um pequeno solar rural onde viveram gerações da família Bourbon Lindoso e que, nesse tempo, estava representada pelo médico Gonçalo que vivia em Briteiros e que era um exemplo de homem bem formado e respeitado. O irmão sacerdote, de quem já aqui falei, era o impagável padre João das Petas; o Manel, que tinha o culto dos cavalos, foi serralheiro na arrancada, em 1933, da Fábrica de Sande e o Fernando que aqui vivia, era uma figura imponente no aspecto físico e de cujo casamento com uma sobrinha, nasceu uma filha com um desequilíbrio psico-fisiológico impressionante e que marcou profundamente a minha sensibilidade de criança. Problemas dramáticos da muito aproximada consanguinidade genética…
Essa propriedade é conhecida por Quinta das Reguengas, nome que indica ter feito parte , em tempos recuados, do património da Casa Real.
Aqui ao lado, no meio da subida para a Pedreira, vivia a Conceição da Coteluda. O parentesco que a ligava a minha Mãe – prima em 1º grau pois era filha da tia do Monte – permitia que nas frequentes visitas que ela fazia à casa dos meus avós maternos, nas Pontes, nos encontrássemos a cada passo.
Alguma coisa terei a rememorar sobre a Conceição do Monte, como também era conhecida, mas as duas páginas A 4, compactas que tenho na minha frente, “dizem-me” que chega por hoje.