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Querem um conselho? ACORDEM!
Domingo, Outubro 1, 2000

Teimo em encontrar um fundamento para tal “movimento” mas, apenas me surgem os desencantos que se têm abatido sobre as Taipas na última década e meia (período pelo qual consigo falar com alguma propriedade), e que continuam presentemente a transformar a vila em mais uma mini-metrópole satélite, atrofiada pelo seu desenvolvimento descontrolado, desintegrado e desenraizado. Pelos vistos há quem pense que do que resta das Taipas serve para ser concelho: temos área, muita gente e prédios muito altos – sinónimo para os mal-pensantes de desenvolvimento e progresso.
A verdade por vezes pode ser dolorosa mas estou convencido de que, a ninguém para além dos próprios taipenses, cabe a grande parte da responsabilidade por essa gradativa deterioração.
O que é certo, é que muita gente terá adormecido e continuam ainda dormentes quando, por um saudosismo bacoco, se referem às Taipas de ontem, salientando o facto de que “dantes é que era bom”. Pois terão sido estes bacocos entre outros, que nada fizeram para que o que era bom realmente se mantivesse. Mas nada se manteve e, admiravelmente, continuam a querer visitantes para as Taipas, sem quererem definitivamente acordar para perceberem que as Taipas hoje tem nada para oferecer a quem a visita. Ou teremos?

Vejamos. Todos os testemunhos que deveriam ser da memória colectiva dos taipenses, se não foram destruídos encontram-se ao “Deus dará”, esperando que alguém acorde. O património das Taipas desapareceu. E de que serve a História sem testemunhos? A rubrica que o fotógrafo Lima Pereira assina neste jornal é um exercício de memória muito pragmático dos testemunhos que deixamos desaparecer.
Temos ainda uma ponte Romana, rica, mas que não se vê à noite; O antigo edifício termal estará a aguardar mais uma investida da especulação imobiliária?; A praia fluvial já nem para molhar os pés serve; Tínhamos uma “Casa de Camilo”, que não soubemos prender ao chão. O que está agora em seu lugar, é um protótipo do mais refinado mau gosto reinante na arquitectura autodidacta para lhe servir de memória; Tínhamos edifícios que seriam lindíssimos se bem restaurados mas ninguém toma a iniciativa, optando sim pelas rentáveis novas construções em altura. As Taipas como ponto de atracção turística acabou. Acabou porque os taipenses não quiseram que assim se mantivesse, não lutaram pela sua condição, por vocações e potencialidades que existiam mas que não existem mais. Por isso é que os taipenses deveriam ter lutado, mas não lutaram. Mas querem agora lutar para ser concelho.

Era bom que pudéssemos ficar por aqui. No entanto, existe uma lista infindável de fracos que, infelizmente continuam a rezar a História das Taipas, nomeadamente a fraca qualidade urbana que progressivamente vai tomando conta da nossa terra.
É assustadora a concentração do solo edificado. As ruas são pseudo-avenidas ladeadas de edifícios de arquitectura feita em série, onde é cada vez menor o espaço para poder respirar, para poder fugir. O espaço público é perfeitamente ignorado em detrimento dos milhares que entram nos bolsos dos empreiteiros. Abrem-se vielas asfixiantes rapidamente tomadas pelos auto-móveis. Todo o dorso central da vila (Av. Da República) encontra-se irremediavelmente descaracterizado. Não existe mais lugar para as crianças brincarem quando chegam a casa ao fim do dia. E quem não sente a falta do riso de crianças quando desastradamente atropelamos o passeio da rua? Enfim: “são coisas que as pessoas grandes não conseguem entender”(*).

Mais uma vez, quem permitiu que assim fosse? Foram os taipenses. Houve um PDM em discussão mas que ninguém quis discutir ou sequer saber. A autarquia, perfeitamente institucionalizada, tem a palavra inércia bem marcada na testa, nada fez e nada faz. Não bastam as operações de cosmética a que submeteram os passeios, largos e praças porque a falta de qualidade de vida urbana continua a existir. Quem escolhe quem para comandar a autarquia? Os eleitores, neste caso, os taipenses. Não somos capazes de encontrar alguém para comandar uma freguesia, muito menos para comandar um concelho.
É doloroso assistir à (quase) nulidade cultural a que as Taipas está sujeita, com as várias colectividades praticamente moribundas. Colectividades levantadas a certa altura fruto da necessidade de mostrar o que tínhamos guardado durante anos. Mas tudo está quase morto agora. Já não existem taipenses capazes de encontrar em si ou promover aos outros, motivos de expressão intelectual para mostrar à terra, à região, ao mundo?
É para isto que querem ser concelho? Ora vamos sem tretas, porque temos motivos suficientemente válidos e fortes para lutarmos pela a nossa terra por si só, o resto virá por acréscimo. Nenhum dos fundamentos apresentados pelo M TAC têm uma ponta de validade. Obras comparticipadas? Se existissem projectos válidos e perfeitamente fundamentados talvez existissem apoios. Pelo menos a ver pelo que se tem feito até agora…; Nó da auto-estrada? Alguém já fez as contas de quanto custarão as portagens? Ou estão à espera que chegue a hora para depois andarem com mais manifestações para abolir as portagens?; O Dr. Magalhães? Pode ter todos os defeitos do mundo (concordo que tem bastantes) mas ele está onde está porque alguém o pôs lá; Posto de turismo, folhetos turísticos? As Taipas é hoje incapaz de oferecer um turismo com o mínimo de qualidade, só não sabe disso quem está cego.

Para quê encontrar agora caprichos para uma “birrinha” com o fundamento de que outros terão feito o mesmo anteriormente? Os maus exemplos nunca se seguem. Vizela é hoje concelho fruto dos truques de malabarismo político a que a democracia portuguesa foi sujeita, porque de outra forma tal não teria acontecido.
Este tipo de movimentos são reflexo de um povo que ainda não aprendeu a viver com liberdade. A liberdade é uma coisa fantástica (tenho consciência disso porque, embora não tenha vivido no período da repressão, me é possível ver o que é “não ser livre” pelo que se passa ainda hoje em muitos países do mundo). Essa liberdade é como uma arma, que é necessário aprender a usar muito bem para que nada terrível aconteça. Pois algo terrível tem acontecido nas Taipas nos últimos anos, sinónimo de que muita gente não sabe muito bem o que anda a fazer. Mas toda a gente tem culpa porque estes vivem à sombra dos que sabem alguma coisa mas que nada fazem para se rumar noutra direcção.
Pedir Concelho para as Taipas é como um príncipe muito, muito mal comportado pedir ao rei a chave do seu reino. É bem possível tenham existido muitos “príncipes” mal comportados nas Taipas a quem tenha sido entregue a chave deste “reino”.
Querem um conselho? ACORDEM!

(*) Frase retirada do livro de Antoine de Saint-Exupéry “O Principezinho”

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