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Que chova!
Segunda-feira, Março 21, 2005

No dia em começou a chover, imediatamente me ocorreu à cabeça a canção da estrela da mala de cartão, Linda de Suza, a cantar à chuva que viesse cair no seu país, “para fazer o povo feliz”. O contexto com que esta canção me surgiu, é seguramente diferente daquele em que a ouvia, deve ir para vinte anos. Há razões para celebrar, mas sempre com a reserva de não ser desta que a chuva perderá a timidez.

Há realmente motivos de sobra para celebrar o regresso da chuva e reflectir um pouco sobre o que, de forma cada vez mais visível, está a acontecer no nosso país, em termos de alterações climáticas.

De entre as diversas teorias que são discutidas na comunidade científica para explicar a alteração dos padrões climáticos e o aquecimento do planeta, está a crescente emissão de gases provocadores do efeito de estufa (provocados pela queima de combustíveis fósseis), principalmente pelos países mais desenvolvidos. Os ciclos naturais deixaram de ter capacidade de absorver a quantidade de poluentes cujas taxas crescem de ano para ano, desde a revolução industrial.

O protocolo de Quioto, foi um passo importante para colocar definitivamente as questões ambientais nas agendas políticas e um dos seus aspectos visíveis foi a entrada em funcionamento do mercado de emissões de dióxido de carbono. Portugal tem um peso muito pequeno na globalidade das emissões de CO2 (cerca de 0,5% do total mundial, enquanto que os EUA, que não assinaram o protocolo, têm um contributo de 36,1% de emissões). Há um indicador importante, sintomático da ineficiência da nossa política ambiental e da irresponsabilidade ambiental dos portugueses: se em 1997 Portugal tinha uma margem de manobra que lhe permitia vender emissões de CO2 a outros países que poluíam mais do que deviam, passados oito anos, o nosso país esgotou aquela margem de manobra, estando agora também poluir mais do que deve, correndo o risco de pagar caro a compra da licença para poluir.

As alterações climáticas são visíveis, não só na subida das temperaturas médias (até ao final deste século estima-se que as temperaturas médias serão 5ºC mais elevadas), a nossa costa sofre perigosas alterações todos os anos, sendo factor agravante o desordenamento do território da orla costeira. Fenómenos climáticos extremos ocorrerão cada vez com mais frequência e neste grupo podemos incluir o exemplo deste ano, em que a seca atingiu níveis assustadores, com efeitos nefastos para a agricultura, para a floresta e sobretudo, para a garantia de abastecimento de água às populações. As bacias hidrográficas estão todas abaixo dos seus níveis normais para esta época do ano. Alguns municípios começam a desesperar e preparam planos de emergência e programas de racionalização de água. O Instituto de Metereologia diz que 60% do território nacional está em situação de seca extrema.

A nossa passividade tipicamente portuguesa, faz-nos esperar sempre por males piores, como se tudo isto não fosse preocupante qb. Assim sendo, enquanto que males piores não nos aparecem, podemos ir cantarolando aquilo que nos faz apaziguar o espírito. Não sei onde andará a Linda de Suza por esta altura, mas realmente a chuva que finalmente caiu na minha terra fez-me sentir feliz. Ela tinha toda a razão.

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