Qual a missão da televisãoQue alternativas para as telenovelas?
Segunda-feira, Abril 12, 2004

Era uma manhã de Março, solarenga por sinal (bom pres-ságio de mudança que acabaria por não ser, já que o disco voltou ao mesmo !), vinha para a Escola, em horário de Verão, (o «rebentinho» entra às 8 h na EB1) embrulhada nos meus pensamentos que divagavam não sei por onde, quando, não sei porquê, talvez porque o sol brilhasse no céu, me recordei de uma frase dita pelo Januário, personagem da telenovela «O Cravo e a Rosa», que, a propósito das suas múlti-plas desilusões e do seu sofrimento por amor por Lindinha, moça intriguista e má, se lamentava dizendo a seu pai: «As desilusões não matam o amor, só o escondem com uma nuvem cinzenta».
Tais pensamentos poder-nos-iam levar longe em considerações mais ou menos filosóficas sobre o amor, o que a ele conduz ou o que o «esconde», mas tal não é o meu propósito. Prefiro deixar que cada um, no recôndito do seu «eu», teça as considerações que considere necessárias concordando ou não com a frase proferida. Apenas a citei, porque me fez reflectir na missão multifacetada da televisão, enquanto canal de comunicação de informação de cariz tão diferenciado: «Informar, formar e divertir/ distrair» e me questionei sobre se estes objectivos estavam na mira dos nossos canais televisivos.
Informam? Quantos me lêem, ouvem telejornais que noticiam acidentes, desastres, inunda-ções, tremores de terra, mortes, violações, pedofilia, xenofobia, racismo, crimes, buracos no ozono, fome, guerra, doenças,… Será que não se passa nada de bom neste mundo? Não há «boas» notícias para emitir ou caminhamos realmente para o princípio do fim do mundo, dando razão aos que tão fatidicamente profetizavam «A 1000 chegarás, de 2000 não passarás»?
Formam? A questão que se põe já é diferente. Que programas passam actualmente nos nossos canais que possam contribuir para a «formação» dos jovens e dos adultos que a eles assistem? Nem de propósito o que me veio à ideia foi a fala dessa personagem (a telenovela é a adaptação de uma das peças de William Shakespeare -The Taming of the Shrew) e, ao contrário de muitos «intelectuais» que não vêem telenovelas, mas agora devoram o Big Brother e os Acorrentados!, eu vejo-as, sempre as vi e sempre as utilizei para discutir, debater com os meus alunos.
Hoje, a telenovela tem funções diversas:
-uma função social- veja-se o caso da leucemia de Camila, em Laços de Família, que alertou para o dever cívico de se ser dador de sangue e de se poder salvar um outro ser humano com tão pouco esforço da nossa parte. Pelos vistos, o número de dadores aumentou sensivelmente no Brasil!
-uma função educativa- veja-se o retrato social de épocas tão diversas e de forma tão exaustiva: O Cravo e a Rosa- a sociedade do princípio do século, a caricatura das primeiras feministas, o vestuário, os costumes, o lugar de destaque dado aos livros através do professor Edmundo; Terra Santa- a emigração para o Brasil, então a terra das oportunidades, que mais tarde pas-saria para os Estados Unidos, a queda do café e ruína da economia brasileira e consequentes problemas económico-sociais,… Aquarela do Brasil- a xenofobia, a fuga dos judeus, o nazismo, as primeiras emissões de rádio…; New Wave- problemas dos jo-vens de um colégio onde os alunos concluem o 3º grau que leva ao vestibular , equivalente ao nosso ensino secundário que conduz aos exames nacionais e entrada na universidade, tantas questões que foram e são aí focadas- problemas ambientais, o início da vida sexual activa, a anorexia, a sida,… para além de tantos outros que nós enfrentamos enquanto pais e educadores- os ciúmes, a desobediência, as birras, as crises da adolescência,…
-uma função catárctica- a vida no nosso dia a dia já nos coloca «down», no fundo do poço. Então para quê amargurá-la ainda mais com a visão da dor, do macabro? Enquanto sofremos, rimos, cho-ramos com as personagens, esquecemos os nossos problemas e passamos para um outro patamar- o do «sonhar acordado». É tão bom!! Mas desde que não fechemos os olhos e finjamos não ver, pois isso já nos levaria para o campo da insensibilidade e da desumanidade. Ou então, vejamos filmes, em qualquer dos canais, cujos temas versam invariavelmente- a violência e mais violência ou sexo e mais sexo.
Pelo que escrevi até parece que sou «fanática» das telenovelas! Não sou, mas, se assim não for, que há para ver? O Big Brother? Os Acorrentados? Que se pode extrair daí? E não esqueçamos o futebol, carradas dele em todos os canais e em mais de uma língua- o ópio do povo! Há que mantê-lo distraído! No entanto, o Campeonato do Mundo de Atletismo em pista coberta, realizado em Portugal e com os portugueses a baterem recordes e a ganharem «ouro», passou de raspão à maioria dos portu-gueses e atrever-me-ia a dizer que muitos nem souberam da sua realização.
Comentários para quê? Não vale a pena! Contudo, há que fazer uma excepção ao 2º canal, que tem programas de qualidade excepcional como o Acontece e o do professor José Hermano Saraiva (um historiador único na arte de contar histórias da História!) entre outros, mas que o grande público desconhece, porque demasiado «culturais». E, mais incrível ainda, é o facto de os poucos programas que vale a pena ver , mesmo nos «gran-des(??)» canais, passam fora de horas. Será que somos um povo que faz a vida ao contrário: dorme de dia para ver televisão à noite? Razão tinha um colega que outro dia dizia ter ouvido: «Os Portu-gueses são como os latinos – deitam-se tarde e como os nórdicos- levantam-se cedo». Às tantas é por isso que o trabalho não rende e há tantas faltas e tantas filas para as «baixas»! Precisamente porque as pes-soas se querem levantar tarde!
Distraem? Pelo que ficou dito se pode ver que a distracção neste momento passa por uma exploração «quase licenciada» do sexo, diria mesmo, da pornografia ao vivo e pela intrusão na vida privada das pessoas e explo-ração das emoções «baixas» em detrimento dos sentimentos verdadeiros- do amor, da solida-riedade, por exemplo. Todos sabemos que são muitos os que acorrem a ver o espectáculo da «morte» e a proclamar mundos e fundos. Veja-se o que aconteceu no acidente da queda da ponte em Castelo de Paiva desuma-namente explorado pelos canais televisivos. Liberdade de imprensa? A mim sempre me ensi-naram que a minha liberdade acaba onde começa a dos outros! Depois, quantos vão demonstrar verdadeira solidariedade pela desgraça alheia sem os sensacionalismos de os declararem publicamente e, de preferência, com a presença dos meios de comunicação, se possível?
Depois a escola não ensina valores e não prepara para a vida! Que valores? Estes que são tão amplamente difundidos? Dizia o professor doutor Alte da Veiga durante a sessão sobre «A Indisciplina na sala de aula», realizada na escola a 23 de Fevereiro, que os valores se vão descobrindo e adaptando e que o problema está em que nós teimamos em pegar neles como um bloco e em os arremessar- tipo tijolo- à cabeça de cada um. Temos de voltar ao que é básico, ao que é essencial. Precisamos de um manto novo- «Matar é mau». E dizia o professor : «Façamos os alunos vibrar com estes conceitos. Levem-nos a reflectir sobre os vários modos de matar- hoje há uma política de morte e não uma política de vida. Há que transmitir o «ódio à morte», pois o mau profissional, seja em que campo for, está a matar».
Reflectir sobre estas palavras levar-nos-ia muito longe até porque sabemos que a socie-dade de hoje se apoia em falsos valores, entre os quais ressaltam: o poder, o dinheiro, o egoismo, a falsidade, a mentira. Aliás, a mentira, embora tenha perna curta, está praticamente institucionalizada a todos os níveis. Temos é de nos acautelar para que ela não mate!
Há que colocar um ponto final em toda esta treta que já vai longa e que, espero, vos/ nos faça reflectir.
E, plagiando o Januário: As desilusões não nos matam, só nos cobrem com uma nuvem cinzenta, que, muitas vezes, é difícil de retirar.
Oxalá venha o bom tempo!

Maio 2001