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Primeiros passos de 2005-2006
Segunda-feira, Outubro 31, 2005

Não foi a colocação dos professores que a originou, apesar desta também ter acontecido tarde e serem questionáveis algumas das premissas que o programa adopta, mas quase se pode dizer que “está na moda” desestabilizar a classe docente, desrespeitá-la de alguma forma para que se implementem outras medidas que não dêem nas vistas, já que os professores funcionam como elemento distractor. O que levantou forte polémica desta vez foram as novas mudanças impostas aos professores, com legislação de Julho e Agosto (como já vem sendo hábito!). A “ocupação plena dos alunos” que não podem ter “furos” durante as suas actividades lectivas no Ensino Básico foi assim como que uma bomba de efeito retardado que apanhou os mais incautos de surpresa e daí a celeuma que suscitou. Depois foi o atirar a “batata quente” para cima dos Conselhos Executivos “vocês é que sabem, quantas horas da componente não lectiva têm de marcar no horário dos vossos professores, vocês têm autonomia, mas se não as souberem, marcar, digam, que nós não temos problema nenhum em resolver o problema às escolas!”, uma estratégia amplamente utilizada pelo ME há anos, que não foi novidade. E os professores, graças a Deus, continuam a fornecer o “pano para as mangas” com o diz-que diz-que que levam de um lado para o outro, o que vem aumentar o desconforto nas escolas, os desaguisados sem razão.
E assim, de surpresa em surpresa, de perda de regalias em perda de regalias (como alguns reclamam!), o ano foi dando os primeiros passos num mês de Setembro que resolveu contradizer o calendário e se vestiu teimosamente com roupagens e temperaturas de Verão.
“Anda tudo virado do avesso, menina!” dizia a Aninhas, uma simpática velhota da aldeia onde eu costumava passar as férias de Verão, o mês de Setembro mais precisamente, porque nesses tempos as aulas começavam a 7 de Outubro. É que, nessa altura, havia muitos mais dias de férias (embora já só os avós se lembrem disso, talvez!) e, perdoem-me o registo, mas os alunos sabiam tanto! Quem aprendeu a fazer as contas de dividir, num tempo que já lá vai há mais de quarenta anos, nunca mais as esqueceu. E agora esquecem uns meses depois! Bem, mas estes desabafos levar-me-iam a caminhos que não quero pisar e afastar-me-iam do lodaçal por onde agora procuro encontrar caminho seguro.
A Aninhas tinha razão. Anda mesmo tudo “virado do avesso” neste nosso mundo começando pelo tempo atmosférico e fenómenos naturais a ele ligados. Depois dos furacões que assolaram a costa dos EUA, os constantes tremores de terra nos Açores, o terramoto no Paquistão e na Índia, agora vem o Vince assolar as costas portuguesas, depois de ter mudado de curso no Atlântico e rumar a Europa em vez da Costa Americana.
Mas já mudei o rumo à conversa. Dizia eu que coube aos CE’s descascar a batata quente e, de preferência, servi-la com alguma iguaria que não fosse ainda mais indigesta para os estômagos já tão debilitados da classe docente, obrigada a tragar tanta comida mal temperada e mal cozinhada, com óleos retrasados e feita com ingredientes de má qualidade. Contudo, apesar da boa-vontade dos CE’s que cumpriram a sua tarefa e arrancaram com o novo ano lectivo impreterivelmente no dia 12 de Setembro e com o sistema de substituições implementado, as más digestões continuaram e nem o Kompensan ou o Cholagut as puderam resolver. E a regra não foi geral, porque ainda há escolas que estão à espera que os professores, voluntariamente, vão marcar as suas “horas de escola”. Foi este o nome que lhes demos, mas sei que as siglas variam de escola para escola e que até há escolas que marcaram duas horas no horário de cada professor para a preparação das aulas de substituição. Deixo aqui uma grande interrogação, mas esta coisa da autonomia (??) tem realmente alguns aspectos caricatos, como por exemplo, as escolas que foram mais papistas que o papa e marcaram as 35 horas no horário, até as horas de trabalho individual! Há que pôr limites a estes exageros e ser racional.
O congelamento da carreira docente foi uma medida impopular e, realmente, muito injusta para os colegas que foram apanhados no limite dos escalões. Há colegas que vão perder “muito dinheiro” com esta medida. Sim, porque os problemas da educação passam quase todos pelo aspecto financeiro. Será que os tostões que vão tirar à classe docente vão tapar o buraco do orçamento e ajudar a superar a crise que o país atravessa?
Porém, se estou em desacordo com o congelamento dos ordenados e da progressão das carreiras na função pública, o mesmo já não digo acerca da implementação das horas de substituição e das horas de escola. Concordo com esta medida, até porque durante toda a minha vida dei muito mais de 35 horas de serviço à escola. Ser professor, para mim, nunca foi “vender as minhas aulinhas” e regressar a casa, pelo que agora não sou afectada. Podem cair-me em cima com raios e coriscos à vontade. Já estou habituada. Cada qual é livre de dar e de ter a sua opinião. Esta é a minha e sei que não estou sozinha neste barco. E ainda vou mais longe… é que sou delegada sindical.
Ihh! Até aqui estou a ouvir as assobiadelas e os insultos! Calma! Ora reflictam lá! Quem ler atentamente o ECD, sabe que já aí se prevê a implementação da componente não lectiva no horário dos professores, só que nunca tinha havido vontade política dos governos pós 25 de Abril para o fazer. Este governo lembrou-se agora de activar essa medida, que até nem é nova, porque eu andei num Liceu feminino onde funcionavam aulas de substituição. Poucas vezes tive feriado e houve “aulas de substituição” que nunca mais esqueci, principalmente as que foram leccionadas pela vice-reitora ou pela directora de ciclo. E essas aulas não eram de “ocupação plena dos alunos”, eram aulas de matéria, mais precisamente da matéria que os professores substitutos leccionassem, e que podiam igualmente fazer as famigeradas “chamadas orais” com entrega das respectivas notas à professora titular da disciplina.
Mas não são somente as horas de substituição que merecem a minha aprovação. As “horas de escola” podem promover, finalmente, o trabalho de cooperação dos professores, tão necessário para que o sucesso escolar possa ser uma realidade. E outra medida óptima é a dos apoios educativos. Este ano, todos os alunos do 5º ao 9º ano de escolaridade podem ter apoio educativo às disciplinas de Português e de Matemática, graças à medida adoptada.
E podia continuar com mais razões que a “razão teima em desconhecer”, mas não me cabe a mim apoiar uma administração que procura e sempre procurou sacudir a água do capote e atirar com a culpa da crise para cima de uma classe que não se pode defender, os professores, como se estes é que tivessem a culpa do país atravessar a crise em que está. Ao fim e ao cabo, não somos nós, funcionários públicos, dos únicos que não podemos fugir ao fisco? Quem me dera ter uma empresa e dar como vencimento o ordenado do porteiro! Quem me dera ter uma empresa e ter um Ferrari à porta no nome dela! Acho que os professores têm toda a razão em estar feridos e desconfiados, porque, perante a sociedade, a classe docente está de rastos e há uma notória falta de respeito por quem tem a seu cargo a educação da sociedade do futuro e faz e dá o seu melhor.
É uma realidade que ser professor, nos dias que correm, não é exercer uma profissão digna, respeitável. E aqui lembro a anedota por demais conhecida: “Sr. Professor, este meu filho não tem jeito para coisa nenhuma; se ao menos ele fosse para professor…” Sabemos que esta crise não é só nossa, ela estende-se por todo o mundo. Não é por acaso que os professores nos EUA desistem da carreira docente nos primeiros dez anos de exercício de funções. Não tarda muito que, cá como lá, como em muitos países da Europa ditos mais avançados do que nós, se procurem os professores entre os reformados, porque ninguém vai querer seguir a carreira docente. Não quero ser pessimista, mas ou isto tudo dá uma grande cambalhota ou o panorama não será muito diferente do que se vaticina.
A máquina veio para ajudar o homem, mas desde que as tecnologias passaram a fazer parte do dia a dia do homem a sua vida complicou-se substancialmente já que ele se defronta permanentemente com o problema – como fazer com que a tecnologia faça parte da vida sem a dominar por completo? Quem conseguir encontrar a resposta talvez venha a merecer um Nobel, porque parece estar longe de ser encontrada.

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