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Premiar a incompetência
Quarta-feira, Setembro 11, 2002

Era uma fábrica enorme, com pavilhões alinhados junto às margens do Rio Ave que das janelas do comboio se avistavam em toda a sua dimensão.

Era o orgulho da terra, uma indústria onde centenas e centenas de trabalhadores tinham o ganha pão e que com o seu salário acima da têxtil, dominante na região, animavam o comércio local.

Um dia, vieram os senhores de uma multinacional e tomaram conta dela, retirando-a do estado comatoso em que caíra. Voltou o sorriso e a esperança a todos quantos directa e indirectamente dependiam daquela manufactura da borracha.

Quando se puseram a comparar os indicadores de gestão da sua unidade com os de outras unidades do mesmo grupo espalhadas pela Europa, os homens que devolveram a alegria àquela comunidade chegaram à conclusão que não podia continuar assim, não a fábrica de Lousado não era rentável e teria de encerrar as portas.

Praticantes de teorias sociais-democratas, acederam a dialogar com os representantes dos trabalhadores e, mais do que isso, aceitaram o desafio por eles apresentado: modernizar a fábrica, investir em novas tecnologias, implantar novos modelos de gestão. Ou seja, implantar em Portugal os métodos, os equipamentos e os procedimentos próprios da empresa-mãe instalada na Alemanha. Porque, como todos sabemos bem, só se devem comparar coisas comparáveis.

Foi o bastante para tudo mudar. A produtividade da empresa cresceu, o valor acrescentado por cada trabalhador disparou e a fábrica que esteva para ser desmantelada ganhou, por mérito da administração e dos trabalhadores, os primeiros lugares no ranking das empresas do grupo.

Moral da história: apontar o dedo acusador aos trabalhadores pela baixa produtividade nacional e nem uma palavra dizer sobre os empresários, que são os maiores responsáveis, é uma opção de classe que antes do mais premeia a incompetência e a incapacidade daqueles que não sabem ou não querem evoluir, investindo em tecnologia e condições de trabalho.

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