Por um regime (novo) de inaugurações
Terça-feira, Setembro 8, 2015

Num tempo em que se festeja tudo: desde a saída da escola primária – finalistas!, saída do secundário e depois, com mais tradição, a conclusão da universidade, não há quase nada que não seja motivo para que se faça festa. E se isso acontece com as pessoas, com as entidades públicas propagandeou-se o esquema de inaugurar tudo e nada – desde uma calçada, a uma rua, a um edifício. Gerou-se a ideia de que inaugurar é preciso e até já acontecem reinaugurações.

Não gosto de inaugurações. Passam a ideia de que a obra foi bem feita; que vai ser um sucesso; que o futuro vai ser melhor. E não gosto pelo aproveitamento pessoal, político/partidário que costumam delas fazer.

E não gosto pelas placas que lá ficam, as mais das vezes se transformam em lixo, com o nome do político circunstante/ inaugurante como se de alguma coisa importante se tratasse, e como se fossem eles os doadores de tal dádiva e não os dinheiros públicos.

E não gosto ainda pela personalização, pela fulanização sem sentido que lhe atribuem, característica do decesso e enterrado “Estado Novo”.

As inaugurações actuais, refiro-me às inaugurações locais, são uma manifestação propagandística, própria de regimes totalitários em que, na coisa pública, se inscreve o nome de alguém que exerceu o cargo, sempre para o servir e não para ser servido.

E não gosto porque incluem uma componente partidária que o cidadão exigente deve rejeitar.

As inaugurações supõem o início de uma actividade, de um serviço, de uma função. Só com o decorrer do tempo é que a utilidade, a necessidade, a oportunidade, a racionalidade da obra, do serviço, da função poderá se aferida.

Por isso, as inaugurações fazem-me lembrar os festejos antecipados de quem ainda não sabe se vai ganhar: é deitar foguetes antes da festa. É festa pela festa. Pensem em obras realizadas na Madeira e que nunca tiveram qualquer utilidade – e foram “inauguradas”.

E neste sentido, as inaugurações públicas são um exemplo de irracionalidade económica, com gastos para o erário público, que se vêm revelando não ter qualquer utilidade.

Gosto mais do balanço, da consagração, da constatação de obras que se impuseram e que se revelaram, dentro do desejável, corresponder às necessidades públicas e que nessa medida não necessitarão de ser reformuladas, requalificadas em curto espaço de tempo.

Gosto de obras pensadas, ponderadas, de construção lenta e bem estruturadas; gosto de obras em que não haja a urgência de aproveitar os fundos da União Europeia. Gosto de obras que nos enriqueçam e que não sejam factor e causa de empobrecimento.

Advogado,
escreve crónica de opinião política no jornal Reflexo