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Por uma sociedade nova
Segunda-feira, Abril 9, 2012

Os jovens de hoje são consumistas. Facilmente se deixam escravizar pela publicidade, embora digam que querem ser livres. Se queremos optar pelo valor da austeridade, temos de ter uma permanente atitude crítica face ao sistema capitalista de consumo. Não podemos embarcar no consumismo exagerado a que nos convida a sociedade capitalista, pois queremos ser cidadãos que são felizes vivendo determinados valores que consideramos importantes para a nossa maturidade humana.

Existem dois grandes sistemas económicos, ambos relacionados com o assunto da pobreza e da riqueza. São o sistema colectivista e o sistema capitalista.

O sistema colectivista impôs-se sobretudo com o aparecimento do comunismo, que dominou durante quase todo o século XX na maior parte das nações do Leste europeu. Marx sonhou com uma sociedade em que não haveria classes. Seria preciso lutar por esta nova sociedade igualitária. Mas o comunismo revelou-se uma enorme fraude. Os seus doutrinadores, os partidos comunistas, não conseguiram senão tornar as pessoas mais infelizes, porque lhes davam o pão mas lhes tiravam a liberdade.

Um povo oprimido, mais tarde ou mais cedo consegue libertar-se da escravidão. E eis que foi derrubado o muro de Berlim. O colectivismo comunista ficou na história como uma grande ilusão, que deixou atrás de si milhares de vítimas humanas.

O sistema capitalista é o que se contrapõe a este sistema. Este deixa as pessoas entregues às leis do mercado. Há os produtores e os consumidores. Os produtores lançam livremente no mercado os seus produtos e tentam convencer os cidadãos a gastarem o seu capital ou dinheiro em comprá-los. Os produtores vão assim aumentando os seus lucros. Para que o sistema funcione, é necessário que as pessoas consumam cada vez mais. Não há aqui lugar para a austeridade. Quando se trata de um capitalismo humano, os empresários interessam-se pela justiça; mas, quando é selvagem, não importa a exploração das pessoas.

Vivendo nós numa sociedade capitalista, inseridos na Europa dos ricos, se queremos optar pelo valor da austeridade, temos de ter uma permanente atitude crítica face ao sistema capitalista. Não podemos embarcar nesse consumismo exagerado a que nos convida a sociedade capitalista, pois queremos ser cidadãos que são felizes vivendo determinados valores que consideramos importantes para a nossa maturidade humana.

Por conseguinte, o primeiro a fazer é sabermos descodificar a ardilosa publicidade, essa que nos obriga suavemente a consumir mais e mais, a gastar as nossas economias em produtos supérfluos, a buscar a felicidade no ter mais, sempre mais.

Os jovens de hoje são consumistas. Facilmente se deixam escravizar pela publicidade, embora digam que querem ser livres. Se querem ser verdadeiramente livres, têm de perceber que esta liberdade passa por um estilo de vida simples, liberta da escravidão das coisas publicitadas como sendo a resposta às nossas fomes e sedes mais profundas. O alimento e a água para essas fomes e sedes não moram nessas propostas sedutoras.

Para viver nesta sociedade consumista sem perdermos a alma ou o espírito, podemos inspirar-nos em pessoas que, no seu tempo, souberam optar pelo valor da austeridade.

Podemos recuar até à Idade Média, quando o jovem Francisco de Assis, contra a vontade do pai, rico comerciante, renunciou a todos os seus bens e optou livremente por viver na pobreza. E esta pobreza “franciscana” foi para ele uma fonte de alegria, pois até morreu a cantar.

Podemos avançar na história e encontrar um nosso concidadão, João de Brito, que renunciou à vida luxuosa da corte de Portugal, também contra a vontade da mãe, para ir para a Índia como um pobre missionário, para quem a única riqueza era Cristo, a quem quis anunciar.

Ainda não se apagou da memória colectiva da humanidade a figura de Teresa de Calcutá, uma religiosa que deixou um colégio para meninas ricas, a fim de ir viver uma vida de austeridade, servindo os pobres e desprezados da sociedade.

Estes e outros cristãos optaram pela chamada pobreza evangélica, para se sentirem mais livres para amar e servir. A pobreza sociológica é essa pobreza degradante, que impede as pessoas de terem os bens de que necessitam hoje para viverem com a dignidade de pessoas humanas. Esta pobreza é para combater, para eliminar. A pobreza dos santos é a pobreza que consiste na imitação de Cristo pobre, a dedicar a vida ao anúncio do Reino de Deus, que é reino de justiça, amor e paz.

Devido à actualidade e importância deste valor da austeridade, sobretudo neste tempo de crise generalizada, como conclusão dos três artigos que desenvolvemos sobre a austeridade, gostaria de deixar à vossa reflexão algumas questões:

1.Que diferenças fundamentais existem entre a austeridade de vida e a pobreza sócio-económica?

2.Achais que será possível resistirmos à pressão que exerce sobre nós a sociedade capitalista de consumo? Como?

3.Fazei uma lista das coisas que considerais supérfluas na vossa vida.

4.Depois de vermos como há coisas supérfluas, tirai conclusões em ordem a um estilo de vida mais simples.

Para concretizar ainda mais a vossa reflexão, deixo à vossa consideração uma parábola relacionada com os telemóveis.

Aconteceu naquele tempo em que os telemóveis começavam a estar de moda. Certo jovem também desejava um telemóvel. Seduzia-o a ideia de trazer nas mãos um aparelho com o qual podia comunicar com toda a gente. Pena era que não tinha dinheiro para o comprar.

Decidido a que os seus desejos se cumprissem, recolheu papel velho durante muitos meses. Depois empregou-se num café. Também ganhou algum dinheiro a distribuir a publicidade nas caixas de correio. Chegou a ser trolha durante algumas semanas. E tudo para conseguir arranjar o dinheiro necessário para o tão desejado telemóvel.

Quando conseguiu comprá-lo, sentiu-se o homem mais feliz do mundo. Ao chegar a casa, colocou-o sobre a mesa e ficou a aguardar as primeiras chamadas. Mas o telemóvel permanecia mudo.

Em breve se deu conta de que tinha telemóvel para comunicar, mas não tinha amigos. Ainda buscou o número de telefone de algum amigo, mas nada encontrou. É que, durante todo esse tempo em que só pensou em amealhar dinheiro para comprar o telemóvel, não gastou tempo a arranjar novas amizades.

Todo o seu esforço pareceu-lhe inútil. Foi então que decidiu comunicar mais com as pessoas, mas directamente, olhos nos olhos, e não apenas através de um aparelho.
– Que tem a ver esta parábola com o assunto da austeridade? Será preciso termos mais coisas, se queremos ser mais humanos e felizes?
– Qual seria o “identikit” ou perfil de um jovem da tua idade a viver nesta sociedade consumista?

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