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Portugueses sós e orgulhosos
Terça-feira, Junho 5, 2007

O último debate Prós e Contras, transmitido pela RTP, embora centrado na situação actual da autarquia lisboeta, permitiu que se discutissem aspectos importantes da sociedade portuguesa.

A ideia com que se partiu foi de que não só o país está mergulhado numa crise económica e social, como o próprio regime apresenta sintomas de falência. Portugal encontra-se enfraquecido na sua essência, ou seja, nos portugueses, na sua capacidade de exercer a cidadania e na sua capacidade de se afirmar como povo.

Lisboa não é exemplo para o resto de Portugal, muito menos Portugal poderá ser exemplo para a Europa. Lisboa, apesar da sua importância e estatuto caiu, como está a cair o resto do país, por problemas muito idênticos. De resto, como dizia o jurista Carlos Abreu Amorim, Lisboa é o reflexo do seu país e Lisboa tem sido uma má capital de Portugal.

A cidadania é uma faculdade da liberdade e se nunca, em mais trinta anos, aprendemos a usar a liberdade, muito menos teremos aprendido a exercer cidadania. O Estado Novo afundou Portugal durante 40 anos, diz a História. Passaram-se mais 30 desde a revolução e continuamos sem saber que rumo querem os portugueses para Portugal. Este regime não pode ser melhor só porque somos livres – tem de haver mais que isso.

Com acutilância o historiador Paulo Varela Gomes pôs o dedo na ferida: “o actual regime está em crise, como esteve o anterior”. Problemas de corrupção na gestão do território e o urbanismo são os mais comuns que atravessam os vários níveis de governação. Recorde-se que foi o caso da BragaParques e as permutas de terrenos do Parque Mayer que ajudaram a despoletar toda esta crise na capital. Teve a repercussão que teve por ser na capital, embora casos destes abundem em todo o país.

Portugal auto consome-se. Mais de metade daquilo que produz serve para sustentar o funcionamento da máquina do Estado. Projecta-se, estuda-se, anunciam-se planos inócuos do ponto de vista estratégico e quase todos os dias são apresentados estudos disto e daquilo. Vamos assistindo impávidos, com placidez e sem qualquer sentido crítico, controlados pelo individualismo em prejuízo do colectivo – razão de ser primordial das cidades.

Mais uma vez, Lisboa é o reflexo do país – “a cidade está a auto destruir-se. Lisboa é uma cidade gorda feita de betão” – dizia o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, que insiste e bem em explicar que a cidade deve funcionar como um organismo vivo de cuja sanidade depende de equilíbrios. Continua o arquitecto dizendo que “não há noção dos limites da cidade”. Embora falando de Lisboa, sabemos que esta prática se distribui um pouco por todo o país. Basta, por exemplo, ir das Taipas até Guimarães sem que se perceba claramente quando entramos e saímos das localidades. Ou subir ao Bom Jesus e olhar para a cidade de Braga.

Como nos mostrou de forma brilhante António Barreto na série documental Portugal – Um Retrato Social, somos hoje um país muito diferente do que éramos há 60 anos. Vivemos mais tempo, temos melhor qualidade de vida, temos mais saúde e melhor acesso à educação. Somos inclusive os melhores do mundo em muitos aspectos. Continua contudo a faltar algo de muito importante: ainda não aprendemos a gostar de Portugal, continuamos a gostar demasiado e em primeiro lugar de nós próprios como indivíduos. Não encontramos ainda outros motivos de orgulho para além do futebol, capazes de encher janelas com a bandeira nacional. Não aproveitamos o melhor que nos ficou do antigo regime (um Portugal por desenvolver, cheio de potencialidades) e das vitórias do 25 de Abril de 1974. Passados mais de trinta anos, falta aprender a tirar pleno uso da liberdade que conquistamos. Portugal passou de um país orgulhosamente só, para um país de sós orgulhosos.

paulodumas@reflexodigital.com

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