Por terras de Júlia Avita, filha de Nigro
Quinta-feira, Janeiro 21, 2016

Desde os empolgados relatos do Padre Torcato Peixoto de Azevedo sobre a mítica Araduca, no século XVII, ou quiçá antes disso, se especulou sobre a Guimarães anterior à fundação do célebre Mosteiro, que deu origem à vila medieval, no século X. Embora os vestígios de ocupação humana no território do Concelho remontem a milhares de anos atrás, ponteando aqui e ali, a origem da cidade-berço, como aglomerado urbano, parece de facto posicionar-se na plena Idade Média. No entanto, o território da atual cidade de Guimarães foi habitado, talvez de forma ininterrupta, desde períodos históricos muito recuados, tendo procurado Francisco Martins Sarmento as evidências materiais desses momentos “pré-Vimaranes”. E o que é certo, é que os encontrou, muito dispersos, muito fragmentados, alterados por sucessivas ocupações e reutilizações do espaço.

Entre essas evidências, chama-nos particularmente a atenção uma inscrição romana retirada, há décadas atrás, da parede da Igreja Paroquial de Creixomil, mas que já antes se encontrava visível na fachada lateral oeste da igreja. Parece tratar-se de uma inscrição funerária, onde se lê Ivliae Avitae Nigri Sempro(nivs) (leitura de Mário Cardozo, corroborada por Armando Redentor), o que se pode ler e desdobrar como “A Júlia Avita, filha de Nigro, consagrou Semprónio este monumento”. Socorrendo-nos uma vez mais do nosso colega Armando Redentor, a inscrição será datada dos finais do século I, ou inícios do século II, ou seja, da época romana Alto-imperial, há cerca de 1900 anos.

Martins Sarmento recolheu algumas informações sobre a zona envolvente à Igreja de Creixomil, anotando que, já nos seus dias, apareceram “capiteis de colunas” num campo próximo, as quais, porém, nunca terá observado. E eis que nos surge a fértil veiga de Creixomil com testemunhos de ocupação em época romana. Tal não é de admirar. Abstemo-nos, no entanto, e para já, de mais possíveis considerações sobre esta zona na Antiguidade.

O monumento funerário dedicado a Júlia Avita, por Semprónio, encontra-se exposto no Museu Arqueológico da Sociedade Martins Sarmento, ao qual foi oferecida pelo Padre Manuel de Freitas Leite, em 1947.

Arqueólogo da Sociedade Martins Sarmento