Pessoas boas e pessoas más!
Segunda-feira, Janeiro 31, 2005

A propósito do último livro de Daniel Sampaio, um autor ( psiquiatra conhecido da nossa praça) de que li praticamente toda a obra , já que compro ou oferecem-me todos os livros que vai editando, e que, de algum modo, reflectem os problemas que vou enfrentado como educadora, na dupla faceta de professora e de mãe, lembrei-me de uns escritos rascunhados, há algum tempo, e que permaneciam guardados na gaveta, entre muitos outros papéis e blocos de notas com ideias alinhavadas para histórias, apontamentos para reflexões, citações, ditos, desabafos esporádicos do dia a dia, acontecimentos cómicos, tristes ou surrealistas,… Reli-os e alinhei algumas ideias que, apesar de recessas, continuam tão actuais!
Não são só as crianças traquinas, irresponsáveis, indisciplinadas, desordeiras, inconsequentes que nos ocupam os pensamentos em noites de insónia, quando lutamos com o travesseiro em busca de uma solução mais ou menos pacífica, mais ou menos capaz e exequível.
Os adultos, com quem convivemos no nosso quotidiano, também nos povoam os pesadelos, quando são, eles próprios, autênticas personagens saídas de um filme de Frankenstein.
Não é fácil nem é linear dividir as pessoas em boas e más. Todos somos feitos do «barro humano» que nos leva a cair em tentação e a fazer coisas menos certas ou até muito erradas, em certas alturas da vida. «Quem nunca errou que atire a primeira pedra.» Eu não atiro, disso tenho a certeza. Contudo, o normal é que haja atenuantes para os actos «maus» praticados, ou, pelo menos, que venha o arrependimento e o remorso que levam a maioria das pessoas, que se regem por valores morais, a um pedido de desculpas ou ao pagamento do erro perante a sociedade com a prisão, com uma coima,…( quando são apanhados, claro!).
A verdade é que, sou obrigada a aceitar, há tantas verdades quantas as pessoas, porque a visão que eu tenho do mundo é pessoal e ninguém se consegue desligar do seu «eu», das suas emoções, da sua subjectividade a não ser que se transforme numa máquina insensível, perfeita, programada, porém, se as máquinas falham, porque quem as comanda é o homem e «humanum errare est», também deveria ser humano «aprender com os erros», não teimar no erro. Nem sempre assim acontece e não são só os jovens que têm tais procedimentos incorrectos, infantis, imaturos,… Só que os adultos têm a obrigação de ver que a partir de determinada altura, a visão do mundo passa a ser «colectiva» atendendo aos outros «eus» que fazem parte da sociedade.
Felizmente, o mundo é constituído, maioritariamente, por gente equilibrada, que se rege por valores reco-nhecidos como universais- justiça, igualdade, fraternidade, solidariedade,… (para só citar alguns)… Que aconteceria se, de repente, predominasse a gente desequilibrada, má, camuflada, que faz a verdade à sua medida? Que aconteceria se o mundo fosse exclusivamente habitado por essas víboras traiçoeiras que criam a própria verdade à sua imagem e se «estão nas tintas» para os outros, que têm de se adaptar, se quiserem?
Infelizmente, estas personagens dignas da ficção e do terror existem no nosso dia a dia, para nos transformarem a vida num inferno. Essas pessoas ínfimas, sem um pingo de vergonha e com enormes telhados de vidro, são as primeiras a apontar o dedo aos outros, precisamente para procurarem mascarar a sua incompetência, a sua pouca importância, a sua nulidade. Como se isso fosse possível! O que lhes falta em competência têm em auto-estima, o que lhes falta em humildade sobra-lhes em arrogância. Estes pobres seres mesquinhos habitam nas altas esferas (julgam eles!), enquanto os restantes são meros seres rastejantes que apenas existem para eles poderem pisotear. Estes seres tão elevados, aparentemente super-simpáticos, conseguem ser sempre as «vítimas», adoram vitimizar-se. Estes seres «amáveis», «serviçais» mordem pela calada e desgraçado daquele que lhes descubra as jogadas.
Estes e outros comentários faziam parte dos meus escritos, mas resolvi cortar-lhes a palavra para a dar a Daniel Sampaio e à sua crónica «Eu estou bem, os outros é que não».
«Todos conhecemos pessoas assim. Não têm nenhuma consciência dos seus problemas e são incapazes de se pôr em causa. Defendem que não vale a pena comportarem-se de forma diferente do habitual, porque os outros é que têm de se mudar. Muitas vezes pensam mesmo que tudo se organiza para as prejudicar e que estranhos acordos se fazem para as denegrir. (…) Podem ter fantasias grandiosas e a necessidade permanente de serem admirados, não sendo raro que exibam comportamentos arrogantes, sobretudo para com os mais fracos. Não sentem empatia pelos outros e usam-nos para atingir os seus próprios fins. (…) A grandeza que sempre querem mostrar esconde em certas ocasiões um sentimento de inadequação face ao mundo que os rodeia. Quando não conseguem disfarçar essa fraqueza, respondem com raiva intensa e ficam muito fragilizados, sentindo-se profundamente feridos e injustiçados. (…) Existem variantes interessantes dentro do mesmo tipo, por exemplo podem ser pessoas muito manipuladoras na sua forma de tentarem obter a atenção dos outros, mudando rápido os seus comportamentos para conse-guirem o seu interesse. Ou podem ter um marcado desrespeito pelas normas sociais e pelos direitos dos indivíduos, incorrendo em comportamentos que levam a justiça a intervir. Nesse caso podem mentir sem escrúpulo ou repetir os actos ilegais sem qualquer remorso, continuando sem consciência das implicações que o seu comportamento está a ter nos outros. (…) Ao contrário de outras pessoas que sofrem de sintomas psiquiátricos e que estão preocupadas com os seus sintomas, sentidos como estranhos e perturbadores, os indivíduos que descrevemos acham que nada está mal nas suas vidas. (…) Falamos afinal de perturbações da personalidade, uma característica diagnóstica das classificações psiquiátricas que tem vindo a aumentar e que tem mau prognóstico, pois como já vimos essas pessoas não se põem em causa e nem sempre sentem sofrimento. (…) Ora convinha que os jornais, as rádios e a televisão percebessem que estas pessoas, pela sua frieza, capacidade de manipulação e falta de escrúpulos são capazes de levar atrás de si muita gente, porque prometem, não se importam de não cumprir e além do mais se fazem de vítimas, não estando nada interessadas, no fundo, no bem-estar dos outros, já que só vivem para si próprias. Não se trata de um problema apenas da psiquiatria, é uma questão de sobrevivência das comunidades a que precisamos dar importância.»
Em jeito de remate, parafraseando o início da obra de Sophia de Mello Breyner Andresen «A Fada Oriana»: «Há duas espécies de fadas (leia-se pessoas): as fadas boas e as fadas más. As fadas boas fazem coisas boas e as fadas más fazem coisas más». E, se, alguma vez, cheguei a pensar que toda a gente que perdesse as suas «asas», como a Oriana, as podia recuperar praticando o bem ou de alguma forma vivendo para os outros, hoje, obrigada a «cair na realidade» pela vida e pela opinião especializada de quem sabe mais do que eu, acredito que há alguns que nunca recuperarão as suas «asas», porque não querem, porque são os tais que vivem para si próprios e só vêem o seu «eu».
E, infelizmente, diz Daniel Sampaio, o número vai aumentar e todos nós conhecemos alguns exemplos.
Leiam a obra «Árvore sem Voz». Vale a pena!