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Périplo Inaugural
Quinta-feira, Julho 7, 2016

Guimarães assinalou, no passado dia 24 de junho, o octingentésimo octogésimo oitavo aniversário da Batalha de S. Mamede, dia Um de Portugal. Esta data foi celebrada com pompa e circunstância e uma pitada de panem et circenses. Como vem sendo habitual, as tão apreciadas e providenciais cerimónias de inauguração, estreias e aberturas ao público, que o início da portugalidade agora parece reclamar, não foram esquecidas e, este ano, ascenderam a um total de seis.

As comemorações anteciparam-se ao feriado municipal, com a abertura da sexta edição da Feira Afonsina, logo no final da tarde do dia 23 de junho. No dia 24 de junho, o périplo inaugural começou cedo. Às 9.30 horas, depois do tradicional hastear de bandeiras nos Paços do concelho, foi inaugurada a “Casa Primavera”, sita na freguesia de Urgezes. Às 10.30 horas, foi a vez do descerramento da placa de inauguração do Parque de Lazer de Ardão. Uma hora depois, seguiu-se a abertura da estrada que liga a rotunda de Mouril e a variante de Creixomil. Nesta altura, as cerimónias inaugurais aconteciam a um ritmo frenético, uma por hora. Uma logística impressionante que conseguiu conceber uma espécie de linha de produção em série de inaugurações.

Depois do almoço, retomou-se o “cortar das fitas” no Largo de Donães; só faltou dar um saltinho às novas instalações do Lar de Santo António. Em seguida, o cortejo rumou ao Castelo de Guimarães para a apresentação do Centro Interpretativo do Castelo e para a reabertura da sua Torre de Menagem. Finalmente, encerraram-se as celebrações, no Paço dos Duques de Bragança, com uma sessão solene, onde foi firmado um protocolo de geminação com o município francês de Montluçon e se homenagearam seis personalidades com a Medalha de Mérito Social da cidade. A meu ver, esta foi, na verdade, a única cerimónia realmente evocativa do 888.º aniversário da Batalha de S. Mamede.

Ora, o dia 24 de junho foi oficialmente considerado feriado municipal em Guimarães somente em 1974 e até ao ano de 1983 as solenidades do dia cingiam-se, quase exclusivamente, a uma cerimónia religiosa. É caso para dizer que se passou do “oito ao oitenta” em pouco mais de três décadas. Com o passar dos anos, os eventos foram-se multiplicando, muitos deles sem qualquer relação aparente com o Dia Um de Portugal. O aumento exponencial de atividades que se realizam nesta data transformou este dia numa espécie de maratona inaugural extenuante, em que se tem de “mostrar serviço”, acabando por se relegar para segundo plano o significado histórico do que é considerado o primeiro dia de Portugal.

Não ponho em causa a necessidade ou a qualidade das obras realizadas, muito menos o mérito das homenagens feitas (as quais até considero oportunas), o que reprovo veementemente é a prática, que se vem tornando habitual, de se transformar esta data histórica e com tanta importância para a nossa cidade numa espécie de “dia municipal das inaugurações”. Talvez para o próximo ano, o dia 24 de junho seja assinalado com cerimónia(s) magnificente(s), sim, ou seja, de índole mais consentânea com o significado do dia em questão, e com menos populismo.

Advogada