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Palavras podem ser muros ou janelas…
Sábado, Novembro 7, 2009

Tanto se disse e diz sobre as palavras e tão pouca importância se lhes atribui! Porque somos inconscientes… imprudentes… incoerentes como os seres pensantes que devíamos ser, pior ainda, julgamos ser. Realmente, as palavras são tudo e são nada. Depende de quem as pronuncia, da intenção com que se usam… O mundo constrói-se com palavras e da mesma forma, frágil castelo de cartas, se destrói pela sua utilização. Promulgam-se os despachos e as leis que se podem ou não cumprir. Mas, mais importantes do que as que aí estão exaradas, são as palavras que proferimos no dia a dia que podem fazer tanto mal… ou tanto bem…

Saber lidar com os outros passa pela avaliação que deles faço e pela minha auto-avaliação, embora indirectamente. Se sou incapaz de cumprir regras, não posso esperar que os outros as cumpram, pois através das minhas atitudes e comportamentos, eles vão inferir da minha incapacidade. Se sou agressivo, vou gerar agressividade. Se sou impaciente, não posso esperar uma resposta capaz e racional em tempo útil.

Li algures, não sei precisar onde… talvez nas «Citações» por onde gosto de deambular, que as palavras podem ser MUROS ou JANELAS. Metáforas fantásticas! As palavras a isolarem uma pessoa do mundo, incapacitando-a de comunicar ou, por outro lado, facilitando-lhe a sua ligação com a realidade exterior.

Há quem use as palavras como se fossem meros tijolos na construção de um muro intransponível ou até como arma de arremesso. Esses não querem conhecer os outros nem se dão a conhecer. Isolam-se e impedem a comunicação. São geradores de conflitos, de dores, de incompreensões, de angústias, de infortúnios… São irritantes!

Há aqueles para quem as palavras voam livremente, saem pelas janelas escancaradas da alma e se entrecruzam, ganham vida, “descomplicam” o mundo, trazem boa disposição e alegria, paz e compreensão entre os homens. São apaziguadoras!

Algumas palavras são veneno e outras perfume. Nós é que podemos optar e escolher as que preferimos e, quantas vezes, escolhemos o caminho errado, porque mais fácil.

Antes de procurar entender os outros, tenho de me compreender a mim própria. Dessa forma, poderei resolver os conflitos, pois aprendo a colocar-me na posição do outro, desenvolvo a empatia, aprendo a usar uma linguagem compreensiva e afável, aprendo a utilizar o eu e o nós mais vezes do que o tu acusador.

Não sou rancorosa, mas tenho memória de elefante, o meu animal favorito, o que pode ser considerado um cão bicudo, pois não esqueço o que me fazem/ dizem de bem ou de mal. Menos comum o primeiro caso, já que a tendência natural é esquecermos as coisas boas e vermos tudo por um prisma negativo, ou não fôssemos portugueses. O que nos fazem/ dizem de mal perdura, havendo uma maior ou menor dificuldade em perdoar, em esquecer, dependendo do feitio da pessoa e do grau da ofensa. Dirão vocês que «palavras loucas orelhas moucas» (como se dizia no Porto), o que é verdade, mas foi quando vim viver para esta terra que aprendi o ditado «quem não se sente não é filho de boa gente». Ora, nesta como noutras coisas… «à terra onde fores ter faz como vires fazer». Para mim, reconhecer um erro é meio caminho andado para se ser homem/ mulher. As crianças é que inventam desculpas, utilizam palavras sem jeito e sem pensar, mentindo descaradamente sobre as asneiras que cometem. O receio do castigo, da reacção do aulto para a qual não está preparada, o medo de desiludir quem nela confia, a não-distinção entre o bem e o mal ao viver num mundo fantástico… onde todas as misturas são permitidas e onde incarna personagens boas e más… Um adulto que não reconhece as suas falhas revela falta de maturidade e, quantas vezes, má formação. Acho ridículo e tenho pena de pessoas que não conseguem enfrentar actos tão comezinhos como o terem partido um copo. Coitadas!

Custa-me muito lidar com pessoas que não sabem utilizar as palavras muito, muito importantes e que quase não dizemos no dia a dia: «perdão», «desculpa» ou «amo-te», «se faz favor»,… as tais que nos podiam facilitar a vida e transformar a Terra num paraíso. Serão estas palavras assim tão difíceis de pronunciar? São as palavras mágicas, como disse um dia uma criança, que nos abrem as portas, as janelas para a compreensão, a tolerância, a solidariedade, a fraternidade, o amor, a amizade,… os afectos e os valores. Palavras riquíssimas que quase caíram em desuso, tornadas vãs pela sociedade mas que temos imperiosamente de voltar a utilizar. Quanta incompreensão, quantos mal-entendidos, quantas guerras (atrevo-me a dizer!) se poderiam evitar se as pessoas admitissem os seus erros, as suas falhas e utilizassem as tais palavras cheias de magia, de paz!

E podia continuar a falar de palavras no reino das metáforas, mas deixo-vos com o magnífico poema de Eugénio de Andrade: «São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio. Outras, orvalho apenas. / Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam: barcos ou beijos, as águas estremecem. / Desamparadas, inocentes, leves. Tecidas são de luz e são a noite. E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda. / Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?»

As palavras também são literatura, poesia…
Outubro 2009

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