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O tão desejado Teatro Jordão
Quinta-feira, Junho 9, 2016

No passado mês de maio, ao abrigo do Plano Estratégico para o Desenvolvimento Urbano, o Município de Guimarães conseguiu o financiamento de uma verba de 18,5 milhões de euros, parte da qual, conforme foi veiculado pela imprensa local, será adstrita à reabilitação do Teatro Jordão. Será que é desta que o Teatro Jordão vai voltar às luzes da ribalta?! Será?

Perdoem-me o ceticismo, mas o malogro das experiências passadas em torno da restauração deste espaço cultural faz-me pensar que a tão esperada reabilitação desta sala de espetáculos não está para tão breve quanto o desejado. Espero, sinceramente, estar errada, pois, o Teatro Jordão possui um enorme valor afetivo para muitas pessoas que aí, tal como eu, assistiram, pela primeira vez, a uma peça de teatro, a um bailado, a um filme, a um concerto e a muitas outras atividades artísticas e culturais. Mas não só, o mesmo edifício também acolheu movimentos cívicos e eventos políticos, tome-se como exemplo, o comício do PPD, realizado em 27 de janeiro de 1975, que teve como principal orador Francisco Sá Carneiro.

Esta magnífica sala de espetáculos, outrora um ex-libris da cidade, abriu as suas portas ao público em 21 de novembro de 1938 e durante quase 60 anos foi palco das mais variadas formas de arte. Mandada edificar, em 1937, pelo empresário e mecenas vimaranense Bernardino Jordão, a sua construção demorou mais de um ano para ser concluída. O projeto e a direção da obra ficaram a cargo do arquiteto e engenheiro Júlio José de Brito, que desenhou um dos mais belos e emblemáticos teatros inserido no estilo Art Déco.

Um edifício imponente, com uma sala de espetáculos capaz de acomodar mil e duzentos espectadores, possuidora do maior palco do norte do país, além de excelentes qualidades acústicas, é, em minha opinião, a mais nobre e a mais simbólica casa cultural de Guimarães, um espaço mágico, que me faz vir à memória momentos divertidíssimos da minha infância. Todavia, há mais de vinte anos que este teatro vê as suas portas encerradas ao público, enfrentando dias muito difíceis, de visível degradação e abandono.

Em outubro de 2010, na tentativa de reverter esta situação, a Assembleia Municipal de Guimarães deliberou a aquisição do prédio, tendo sido publicado, em 2011, o anúncio de concurso público para a elaboração do projeto de reabilitação e reconversão funcional do mesmo. No ano seguinte, em janeiro de 2012, a obra foi adjudicada. No entanto, dois anos depois, o contrato celebrado para a elaboração da obra foi revogado, tendo sido somente realizadas obras na cave do edifício, as quais possibilitaram a instalação de oito salas preparadas para a criação, composição e produção musical.

Assim, depois de tantas hesitações, expectativas goradas, construção e renovação de outras casas de espetáculos, depois do investimento em infraestruturas que se fez no âmbito da “Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultural”, quaisquer obras de reconstrução ou beneficiação do Teatro Jordão chegam um pouco tarde. Com efeito, a meu ver, este espaço deveria ter sido recuperado há já muitos anos, pelo menos impunha-se que o mesmo assumisse um papel preponderante na atividade artística e cultural da cidade no ano em que esta foi capital europeia da cultura. Mas, já lá diz o ditado: “mais vale tarde do que nunca”.

Advogada