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Os tempos que se aproximam
Quarta-feira, Janeiro 5, 2011

O ano de 2010 ficou marcado por um conjunto de folhetins que foram adormecendo o País perante uma situação de crise económica que se vinha instalando. O caso TVI, as escutas, comissões parlamentares, Manuel Godinho e as suas sucatas, legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, as grandes obras do novo aeroporto de Lisboa e TGV, a visita do Papa a Portugal e o mundial de futebol, marcaram o ritmo da discussão em Portugal.

A eleição de Passos Coelho como líder do PSD e, em seguida, a tendência de subida nas sondagens deste partido, fez pairar a ameaça de eleições antecipadas, travadas, apenas, pela proximidade das Eleições Presidenciais e pela necessidade de Cavaco Silva gerir a sua própria candidatura.

Entretanto, os dados económicos passam a não deixar ninguém indiferente: a taxa de juros da dívida soberana atinge os 7,2%, fruto da pressão dos mercados; o desemprego atinge meio milhão de pessoas; aumenta o crédito mal parado das famílias, por incapacidade para honrar os compromissos.
Agora, a palavra “crise” persegue-nos diariamente.

Tenha ela origem mais remota ou mais próxima, o certo é que fará sentir os seus efeitos no bolso, no corpo e no espírito de cada um dos portugueses. No bolso, sentirão aqueles que, a partir de Janeiro, verão emagrecer a sua folha de vencimento e, de uma forma muito grave e preocupante, os que vão dilatando os números conhecidos do desemprego.

Contrastando com esta grave situação, assistimos, impotentes, ao desfilar de gritantes assimetrias sociais e económicas de que são indicadores evidentes as múltiplas, gordas e intocáveis reformas de muita gente; as imorais distribuições de dividendos antecipadas, em algumas empresas de referência, e o recorde de vendas de automóveis topo de gama.

Perante este cenário, não há corpo ou espírito que resistam à prostração e ao desânimo.

Entre as Eleições Legislativas, que retiraram claramente a maioria absoluta ao Partido Socialista, e as Eleições Presidenciais que se avizinham, vamos observando esforços, de um e de outro lado, para gerir as diferentes candidaturas, usando e abusando da pobreza como arma de arremesso, empurrando para mais tarde o confronto com a dura realidade que não se conformará com “paninhos quentes”.

Se os diferentes actores políticos nos vão desiludindo, por acção ou por omissão, resta-nos a esperança de que o Povo Português, do alto da sua sabedoria, consiga encontrar a força mobilizadora necessária para, nas pequenas comunidades locais, nas escolas, nas empresas e nas famílias, ignorando a “partidarite” que, por vezes, nos apoquenta, conseguirmos ultrapassar as dificuldades e construir um futuro que só pode ser melhor.