Os “nãos” da Igreja são um “sim” aos valores
Terça-feira, Setembro 20, 2005

A razão pela qual a Igreja diz alguns “nãos” é para poder dizer “sim” aos valores. E os aspectos sexuais da vida: serão totalmente privados ou devem interferir com a fé?

1. Porque é que a Igreja diz sempre “não”: não às relações pré-matrimoniais, não ao divórcio, não à contracepção, não ao aborto… ?
A cultura do “não” não pertence à Igreja: é uma fama que lhe foi dada pelos meios de comunicação social.

– Vejamos, antes de mais, a que é que diz “sim” e a que é que diz “não” a cultura actual, laicista e materialista.
– A cultura actual diz: sim ao dinheiro; sim ao prazer, mesmo quando destrói a pessoa humana; sim à liberdade-capricho, mesmo quando vai contra os direitos dos outros; sim à aparência, mesmo quando por detrás das aparências não há nada; sim ao poder, mesmo que os pobres sofram as suas consequências; sim ao divórcio, isto é, à desagregação dos casais e das famílias; sim ao aborto, isto é, ao assassínio de seres humanos, inocentes e indefesos.
– A cultura actual diz: não à vida; não ao sentido da vida; não à justiça social; não ao sacrifício em favor dos outros; não à fé; não à esperança…

– Vejamos, agora, a que é que diz “sim” e a que é que diz “não a Igreja.
– A Igreja diz sim aos valores: a Deus, que é o sentido final da existência; ao homem, que tem o direito de crescer a todos os níveis; à vida, que tem o direito de desenvolver-se no seio materno; ao casal, cujos partners devem estar unidos no amor e na alegria; à família, que é o principal núcleo da sociedade; à igualdade social, entre países ricos e países pobres; à solidariedade; à fé, à esperança, ao amor. A Igreja aprendeu a dizer sim aos valores com o próprio Deus, que disse sim à humanidade, dando-lhe até o seu Filho.
– Naturalmente, dizer “sim” aos valores significa dizer “não” a tudo aquilo que destrói os valores. É função da Igreja desmascarar as contradições que se escondem por detrás de modelos de falsas felicidades, por detrás de aparentes liberdades, por detrás de falsas verdades. Um rio cheio não pode prosseguir sem diques ou açudes. Um comboio em andamento não pode viajar sem carris. Um viajante criterioso não pode tomar, em cada cruzamento, uma estrada qualquer…

Eis a razão pela qual a Igreja diz alguns “nãos”: para poder dizer “sim” aos valores. A Igreja diz não às relações pré-matrimoniais porque ainda não podem exprimir a totalidade da união conjugal, destinada (através do sacramento do matrimónio) a exprimir a união entre Cristo e a Igreja. Dizendo não às relações pré-matrimoniais, diz sim a um amor verdadeiro, sério e duradouro. A Igreja diz não ao divórcio para que os cônjuges digam sim à fidelidade, prometida no dia do casamento: fidelidade que é sinal do amor e da fidelidade de Deus à humanidade. A Igreja diz não à contracepção para que os cônjuges digam sim a um amor mais intenso, mais gratuito, mais unitivo e não separado da finalidade procriadora (fecundadora) da sexualidade. A Igreja diz não ao aborto para que os cônjuges digam sim à vida e à pessoa do filho, já vivo no seio materno.
Se formos ao fundo da questão, sem preconceitos ideológicos, concluímos que os “nãos” da Igreja correspondem a um “sim” aos valores.

2. Muitas pessoas pensam que os aspectos sexuais da vida sejam totalmente privados e que não devam interferir absolutamente nada com a fé.
Esta ideia exprime uma tendência actual, que procura dividir a pessoa humana. A fé na mensagem de Cristo é, ao contrário, uma dimensão que procura unificar a pessoa humana, envolvendo todos os aspectos da sua vida: os seus pensamentos, as suas opções, as suas acções, a vida social, familiar, conjugal.
A fé é adesão ao projecto de Deus: consequentemente, deve-se aderir a este projecto de libertação em cada aspecto da vida. A fé, como resposta ao projecto de Deus, tem sempre como objectivo o verdadeiro bem da pessoa e a promoção da sociedade: portanto, a fé é um facto totalizador, ao qual não pode escapar nenhum sector da existência. Se assim não fosse, a pessoa deveria viver numa condição de desarmonia interior, destrutiva da sua personalidade.