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Os divorciados recasados e a igreja
Segunda-feira, Dezembro 13, 2004

Antes de mais, é preciso que se reconheça e se reafirme que a sua condição de recasados está em contraste com o Evangelho, que proclama e exige o matrimónio uno e indissolúvel: a sua nova “união” não pode romper o vínculo conjugal anterior, e põe-se em clara contradição com o mandamento de Cristo.
Isto não exclui, todavia, o dever de um ponderado discernimento na avaliação das diversas situações e, sobretudo, de cada uma das pessoas.
– A Igreja pede principalmente aos párocos ou pastores que, por amor da verdade, se sintam obrigados a fazer este discernimento, conscientes de que na base das várias situações podem existir motivos muito diversos entre si: há quem tenha passado para uma nova união depois de se ter esforçado para salvar o primeiro matrimónio, ou depois de ter sido injustamente abandonado pelo cônjuge, ou depois de ter destruído com grave culpa pessoal o próprio matrimónio; há quem tenha contraído uma nova união em vista da educação dos filhos ou por estar subjectivamente convencido que o matrimónio anterior nunca tivesse sido válido; como há quem, em tais situações, se tenha deixado interrogar acerca da sua vida de fé.
– A cada comunidade cristã a Igreja pede para evitar qualquer forma de desinteresse ou de abandono e para que não reduza a sua acção pastoral com os divorciados recasados somente à questão da sua admissão ou não aos sacramentos: exige-o, entre outras razões, o facto que a comunidade cristã continua a ter ocasiões de encontro com estas pessoas, cujos filhos vivem a experiência da escola, da catequese, dos centros paroquiais e sociais, de diversos ambientes educativos ligados à Igreja. Na certeza de que os divorciados recasados são e continuam a ser cristãos e membros do povo de Deus e como tais não são absolutamente excluídos da comunhão com a Igreja, embora não estejam na “plenitude” da mesma comunhão eclesial, a Igreja pede para que se ponham em prática formas de atenção e de proximidade pastoral.
Consequentemente, cada comunidade cristã deve continuar a considerá-los como seus filhos e tratá-los com amor de mãe; reze por eles, encoraje-os e fortaleça-os na fé e na esperança; não se canse de iluminá-los com a Palavra de Cristo, de estimulá-los para uma vida moral inspirada na grande lei da caridade, de convidá-los à conversão.
Por parte da comunidade cristã e de todos os seus fiéis, ainda que qualificando como desordenada a situação dos divorciados recasados, evite-se o julgamento do íntimo das consciências, onde só Deus vê e julga.
Com grande delicadeza e aproveitando diversas ocasiões propícias (tais como o nascimento de um filho e o eventual pedido do Baptismo, um sofrimento ou um luto familiar, a visita às famílias…), os sacerdotes, os parentes, os vizinhos, outros casais particularmente sensíveis e preparados saibam aproximá-los e iniciar com eles “aquele diálogo” que possa iluminá-los sobre a posição da Igreja em relação a eles, sem enganá-los sobre a verdade da sua situação, mas, ao mesmo tempo, testemunhando uma sincera fraternidade.
A Igreja pede para que, com genuína solicitude pastoral, em diálogo amoroso, os sacerdotes e toda a comunidade cristã ajudem estes irmãos e estas irmãs a não se sentirem separados da Igreja, mais ainda: que os convidem e lhes peçam para participarem activamente na vida da comunidade cristã.
A Igreja pede que os exortem, de modo especial, a escutar a Palavra de Deus, para conservarem a fé recebida no Baptismo e seguirem a sua dinâmica de conversão: neste sentido, os divorciados recasados sejam convidados a participar nos encontros de catequese e nas celebrações penitenciais comunitárias não sacramentais.
A Igreja pede para que sejam ajudados a perseverar na oração, na certeza que possam encontrar nela as ajudas espirituais necessárias para a sua situação de vida; especialmente que lhes seja recordada a participação fiel na Missa, mesmo que não possam receber a comunhão eucarística. Sejam estimulados a uma vida moral inspirada na caridade, na qual haja espaço para a participação em obras materiais e espirituais de caridade e nas iniciativas em favor da justiça; uma ajuda particular seja-lhes oferecida para que possam viver plenamente a sua função educativa em relação aos filhos.
– Todavia, pelo menos em linha de princípio, os divorciados recasados não podem receber os sacramentos da Reconciliação (Confissão) e da comunhão eucarística. E o motivo é este: os sacramentos exprimem a plenitude da comunhão com Cristo, enquanto que esses vivem num estado de não-plena-comunhão com o Senhor, mas, neste aspecto, em contraste com o Evangelho.
– Alguns Bispos alemães pensam que um divorciado recasado pode receber os sacramentos quando está seriamente convencido que o seu matrimónio seja nulo, mas ele não pode demonstrá-lo juridicamente perante um tribunal eclesiástico. Neste caso ele, por meio de um diálogo sincero com um sacerdote competente, pode encontrar uma decisão de consciência que a Igreja deve respeitar. Sem o diálogo sincero com um sacerdote, que ajude também no arrependimento e na conversão, não pode haver participação na comunhão eucarística. No entanto, a comunhão deve ser feita num local onde não haja conhecidos para não gerar confusão ou escândalo na comunidade cristã: alguém poderia pensar, efectivamente, que a Igreja estava a faltar ao seu ensinamento sobre a indissolubilidade do matrimónio.