Os ciclos de vida
Quinta-feira, Agosto 4, 2016

Quando era criança, vivendo nas Taipas, o ano desenrolava-se de festa católica em festa católica, com a intromissão das festas de São Pedro. Era o meu ciclo de vida, o modo como eu media a passagem dos dias e das semanas, começando na Páscoa, depois ficava à espera do São pedro e tudo para mim acabava no Natal, ano após ano.

Depois fui para Guimarães, para a cidade grande, com muita gente, muitos carros, ruas e ruas de casas.

Aí o ciclo mudou alguma coisa, pouca na aparência, mudança quase traumática para mim.

Continuava a haver a Páscoa e o Natal, mas deixou de haver o São Pedro, que foi ficando perdido nas brumas da memória e eu não queria perder.

Em seu lugar surgiram as Gualterianas e aos poucos o ciclo retomou a normalidade.

Todos os anos em Agosto, nos primeiros dias de Agosto as ruas mudavam de cor e de forma, as noites na minha rua eram mais alegres, mais humanas, mais quentes.

Havia as iluminações do Barreira, muitas lâmpadas de muitas cores.

As pessoas pareciam-me mais descontraídas e mais permissivas e tolerantes com as crianças como eu era. Vinham de fora família e amigos dos pais que todos os anos pelas Festas vinham à terra matar saudades.

Era o tempo de mãe Rosa ir comigo e com o meu irmão ao Campo da Feira, onde estava a maior parte dos abarracamentos de brinquedos, ver o que havia e comprar a prenda, a prenda que com regularidade chegava sempre nas Gualterianas e no Natal.

A mãe Rosa era a mãe da minha Madrasta, uma senhora excepcional que nos protegia e desculpava e ainda por cima nos oferecia brinquedos. Por isso ela era a Mãe Rosa.

Lembrá-la na véspera das Gualterianas é falar do meu ciclo de vida, das marcas que sobressaiam do quotidiano e render homenagem a alguém que soube minorar a falta da mãe verdadeira e fazer da minha vida uma vida quase igual à dos outros meninos da minha rua e das ruas vizinhas com quem eu convivia.

Representante eleito pela CDU na Assembleia de Freguesia de Caldelas