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Os atentados na Europa
Quinta-feira, Julho 28, 2016

Antes de entrarmos em férias e aí buscarmos o merecido repouso, é para mim impossível não deter os meus pensamentos com aqueles que estavam em Nice, na Alemanha e em todos os locais onde tem havido ataques terroristas. Porque não foi com nenhum de nós. Mas isso não nos deve fazer pensar que não é nada connosco.

A sociedade europeia tem sido objeto de uma série de ataques que, mais do que nos dever preocupar a sua origem terrorista, nos deve preocupar – e fazer parar para pensar – a circunstância de serem causados por nossos, por cidadãos que apesar de terem origem noutros países, noutras culturas, noutras civilizações, são nossos concidadãos. São alemães, são franceses, são espanhóis, são portugueses, são pessoas com origens noutras nacionalidades mas que são, como nós, cidadãos de pleno direito de cada uma das nações europeias.

Faz falta uma longa reflexão sobre aquilo que deve ser feito pela Europa no que respeita à integração.

Não pode ser posto em causa o humanismo que nos guia, como democratas intransigentes e cidadãos defensores de uma sociedade livre. Mas a verdade é que tudo isto faz crescer nas populações um injusto, mas justificável, receio. E se o faz, nós temos o dever de pensar em formas de afastar esse medo. De não permitir que ele alastre e conduza a generalizações injustas. Mas simultaneamente de o respeitar.

Em que ponto fica o respeito pelas diferenças culturais e religiosas que são a marca da nossa Europa de tolerância e paz?

Não podemos, em momento nenhum, ceder no respeito pleno pela liberdade de culto, pela liberdade cultural, no dever de adaptação das nossas sociedades a diferentes culturas e tradições. Não podemos.

Mas a verdade é que, sem ceder nestes princípios basilares, todos estes acontecimentos nos devem fazer refletir sobre os modelos de integração nas nossas sociedades. Não para os fechar nem para os limitar mas, antes pelo contrário, para criar as condições para a plena integração que é algo que, manifestamente, não está a suceder.

Criar as condições para que os cidadãos de outras nações, de outras culturas, de outras religiões que integrem as nossas sociedades não se sintam cidadãos estrangeiros numa pátria que lhes é estranha mas, pelo contrário, se sintam cidadãos de pleno direito do país que os recebeu.

Esta é a etapa que temos que ultrapassar e talvez as respostas estejam na forma de integração.

Mais do que lamentar os ataques terroristas do Estado Islâmico e os receios sucessivos que crescem na nossa população, mais do que incrementar a militarização ou policiamento das nossas ruas e praças, temos que estar atentos às formas de integração que proporcionamos.

Porque às tantas, apenas damos guarida a quem “não é de cᔠquando devíamos estar numa fase muito mais evoluída de integração. Damos casa e trabalho, mas não damos mais. O que proporciona uma guetização de quem continua a não se sentir do país que o recebeu, apesar de lá viver há décadas.

Talvez não o façamos por querer manter o respeito pelos hábitos e culturas de quem recebemos, mas, talvez devêssemos fazê-lo mesmo, talvez devêssemos pensar em formas mais avançadas de plena integração social. Com respeito pelas suas origens e tradições, mas permitindo uma mais harmoniosa integração social.

Socorro-me do último texto do Samuel Silva, para usar uma frase com que concordo totalmente e que encaixa na ideia que aqui pretendo transmitir: “As cidades são locais de diversidade. Foram sempre. E foi do confronto entre pessoas vindas de diferentes proveniências (geográficas, étnicas, sociais) que se foram gerando as condições para as disrupções que causaram as mudanças – muitas das quais damos hoje como adquiridas ou “normais””.

Temos que refletir de forma serena, de forma equilibrada, mas temos verdadeiramente que refletir, porque não nos podemos conformar com o crescimento do medo nas nossas sociedades, na medida em isso mina a fraternidade entre os povos e é muito perigoso para o funcionamento são do sistema democrático.

Desejo umas boas férias a todos, mas tendo sempre presente que enquanto repousamos com a tranquilidade que a vida nos permite ter, há muito irmãos nossos, gente como nós, que não gozam de idêntica fortuna e dos quais não nos devemos esquecer, particularmente nos nossos melhores momentos.

Vereador do PSD na Câmara Municipal de Guimarães