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Os 45 anos da homenagem a Ferreira de Castro nas Taipas
Quinta-feira, Março 3, 2016

Há mortos que continuam a viver. É o caso de Ferreira de Castro (1898-1974), um dos vultos da literatura portuguesa, que constitui uma das singulares presenças na história e na memória coletiva das Caldas das Taipas. Este gigante das Letras Portuguesas, tornou-se conhecido fora das fronteiras do idioma em que escreveu, devido ao sentido de humanidade e ao carácter universal dos temas tratados nas suas obras. Com efeito, transformou-se em poucos anos no mais traduzido escritor português no mundo.

Três anos antes da ocorrência da sua morte, nas Caldas das Taipas foi-lhe prestada uma significativa e merecida homenagem. Desde a década de 50, Ferreira de Castro passava as suas férias no seio desta povoação, hospedando-se no Hotel das Termas, num quarto das traseiras (o único com casa de banho privativa), onde mantinha uma escrivaninha de trabalho. As malas de madeira eram despachadas dias antes da vinda, de Lisboa para o Minho, do escritor que continham os livros e papéis, necessários para trabalhar. Do quarto desta unidade hoteleira avistava o frondoso parque da Empresa Termal, que possivelmente lhe terá servido de inspiração para alguns dos seus romances. Não convém esquecer, que entre as sete localidades onde o autor redigiu o “Instinto Supremo” (1965-1967) figuram as Caldas das Taipas. Durante anos a fio, este romancista – exemplo de simplicidade e humildade- convivia com os Taipenses, estabelecendo profundos laços de amizade, embora muitos desconhecessem o seu nome, como afirma textualmente o próprio escritor:

“ (…) Tenho residido em vários povoados do Minho, sobretudo nas Caldas das Taipas, onde o Ave, de dia, e a Lua, de noite falam muito comigo; e tenho convivido, Verão após Verão, com numerosos camponeses. Ao começo das nossas relações quase todos estes homens e estas mulheres, cuja vida quotidiana representa um dos diversos heroísmos que a História não celebra, ignoram até o meu nome. Para eles eu sou apenas aquele senhor que vem todos os anos, passar alguns meses nas termas e costuma sentar-se numa pedra, à beira dos campos, a ler ou a olhar para as árvores (…) ” (Homenagem a Ferreira de Castro. Guimarães: Círculo de Arte e Recreio, 1971, p. 5).

Todos o respeitavam nas Taipas, tal era a sua simpatia e solicitude pela população local, ao longo dos seus habituais passeios “pelas avenidas e jardins da vila e mesmo na fugidia visita aos cafés da terra, para descanso ou para assistir às edições da televisão” (OLIVEIRA, José de – Caldas das Taipas: a homenagem a Ferreira de Castro, in Notícias de Guimarães. Guimarães, 10 Abr. 1971, p.4). Em suma, no coração dos habitantes das Taipas, Ferreira de Castro era considerado como um Taipense honorário.

Enquanto passava parte das suas férias nesta vila, muitos eram os seus amigos e admiradores que o visitavam e de cuja povoação, Ferreira de Castro enviou e recebeu cartas e postais de muitos outros.

No ano de 1963, o autor de “A Selva” após ter permanecido dois meses nesta estância termal, no momento da sua retirada para Lisboa entregou a José de Oliveira (1909-1986), seu amigo das Taipas “algumas palavras” para serem publicadas no semanário “Notícias de Guimarães” prometidas no Verão anterior.Tratava-se de um texto inédito da sua autoria intitulado “A Terra onde a Lua fala” em referência às Caldas das Taipas, que seria editado na primeira página do “Notícias de Guimarães” do dia 29 de setembro de 1963. Nessa mesma edição, o Sr. José de Oliveira, correspondente das Taipas, no referido periódico, referia-se nesses termos a esse texto de Ferreira de Castro:

“A terra onde a lua fala constitui um poema que muito honra e enaltece as Caldas das Taipas e o seu Autor, seu grande Amigo.

Ferreira de Castro, abrindo uma excepção – visto que não costuma colaborar em jornais – brindou-nos com um escrito que ficará para a história das Taipas e a juntar a muitos outros de outros escritores portugueses e de que tanto se orgulham os taipenses”.

No corrente ano comemoram-se os 100 Anos da Vida Literária de Ferreira de Castro, bem como os 45 anos da memorável homenagem prestada ao autor nas Taipas, concretizada no dia 17 de abril de 1971, pelo Círculo de Arte e Recreio de Guimarães. Homenagem materializada numa praça/jardim desta vila, através de um busto em bronze do homenageado da autoria do conceituado escultor António Duarte. Para a concretização desta iniciativa foi lançada uma subscrição pública que obteve um generoso acolhimento por parte da população. Ferreira de Castro e a sua esposa D. Elena Muriel vieram propositadamente fora da época balnear para descerrar comovidamente o bronze. Esta importante efeméride do C.A.R. desde o primeiro momento provocou imensas adesões por parte dos admiradores deste vulto da nossa cultura, bem como, por parte dos taipenses.

O programa desta homenagem era assim constituído:
Às 18.00 horas: inauguração do busto de Ferreira de Castro, sendo oradores: Joaquim Santos Simões, pelo C.A.R. lendo, também, uma saudação do escritor Jorge Amado; José de Oliveira, pelos admiradores de Ferreira de Castro das Caldas das Taipas e como Presidente da Junta de Freguesia de Caldelas; Arsénio Mota, escritor e crítico literário, que falou sobre Ferreira de Castro, escritor e cidadão.

Às 20.00 horas: jantar de homenagem no Restaurante Jordão, em Guimarães.

Esta manifestação de apreço e gratidão de um dos recantos do concelho de Guimarães ao autor de “Os Emigrantes”, atraiu uma verdadeira multidão de leitores e admiradores do romancista, bem como um elevado número de personalidades da cultura local e nacional. A população das Taipas acolheu o escritor e a sua esposa em festa: foguetes, flores, banda de música a tocar junto do pedestal onde prestou homenagem uma deputação dos Bombeiros Voluntários das Taipas. Vários foram os orgãos da imprensa regional e nacional e a rádio (Emissora Nacional) que estiveram presentes neste acto, que ainda hoje perdura na memória colectiva dos taipenses. Na própria imprensa do Ultramar esta cerimónia foi largamente difundida como podemos constatar numa notícia da autoria de Diamantino Maria publicado no jornal “A Província de Angola” datada de 4 de maio de 1971. Para esta homenagem foi publicado pelo C.A.R. um livro contendo o programa das comemorações, uma fotografia do busto do homenageado, bem como a republicação do texto “A Terra onde a Lua Fala” e um escrito do mesmo romancista intitulado “O Minho” com referências às Taipas.

O próprio escritor brasileiro Jorge Amado enviou uma saudação do Rio de Janeiro especialmente para esta homenagem, que foi lida pelo Dr. Santos Simões, demonstrando o seu desejo de também estar aí presente. Esta mensagem de Jorge Amado foi publicada na íntegra em vários jornais. Mais tarde, Jorge Amado na companhia de Ferreira de Castro, teve oportunidade de se deslocar pessoalmente às Taipas para admirar o busto e visitar esta povoação.

Doze anos depois, a 26 de novembro de 1983, Ferreira de Castro foi novamente recordado durante o XII Encontro de Imprensa Regional do Norte, promovido pelo Gabinete de Imprensa de Guimarães. Na presença de diversas individualidades ligadas à comunicação social, encontrava-se José de Oliveira, um dos amigos das Taipas do homenageado. Nesse dia foi colocada uma placa alusiva, no pedestal do busto do escritor que também foi jornalista. Na ocasião, Luís Caldas, presidente da Direcção do Gabinete de Imprensa, leu um discurso de homenagem a Ferreira de Castro. Por fim, no dia 6 de fevereiro de 1999, o Centro de Actividades Recreativas Taipense juntamente com o Grupo Cultural e Recreativo de Ossela, terra natal do escritor, assinalaram a passagem do 1º centenário do seu nascimento (24 de maio de 1898), através do descerramento de uma placa comemorativa no pedestal do busto do escritor, pelo Dr. Santos Simões, um dos impulsionadores da primeira homenagem efectuada em 1971.

Esta homenagem realizada há 45 anos, constitui ainda hoje, um dos marcos mais significativos da história cultural desta vila termal. O próprio busto do homenageado da autoria de António Duarte (1912-1998) assume-se como um importante exemplar artístico da estatuária portuguesa, deste premiado artista, que se afirmou como um dos escultores de maior relevo da sua geração.

Artigo baseado no seguinte texto: OLIVEIRA, António José de – “Dois escritores portugueses nas Taipas: Camilo e Ferreira de Castro”, in Elo – Boletim de informação e divulgação do Centro de Formação de Francisco de Holanda, nº8, Guimarães, Centro de Formação de Francisco de Holanda, 2000, pp. 88-93.