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O retábulo da Capela de Santo António das Taipas (1710-1711)
Quinta-feira, Janeiro 7, 2016

A desaparecida Capela de Santo António localizada no lugar da Taipa, na freguesia de São Tomé de Caldelas, sofreu entre 1710 e 1711, uma intervenção por parte do mestre entalhador bracarense Luís Vieira da Cruz.

Luís Vieira da Cruz é um mestre com atividade conhecida nas Caldas das Taipas, Guimarães, Póvoa de Lanhoso, Porto, Braga e em Arouca, durante os finais do século XVII e o primeiro quartel do século XVIII. A sua obra não tem passado despercebida aos historiadores de arte, pelo que podemos esboçar o seu percurso artístico.

Num contrato de obra existente no fundo notarial do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta (Guimarães), publicado na íntegra por António José de Oliveira e Lígia Márcia Sousa, em 1998, na revista bracarense “Mínia”, temos conhecimento de que a 7 de agosto de 1710, na casa da residência da igreja de São Cláudio do Barco era assinado o contrato para a execução da obra do retábulo da capela de Santo António, sita no lugar da Taipa, freguesia de São Tomé de Caldelas. Foram partes intervenientes, como arrematante o mestre escultor Luís Vieira da Cruz, morador no Campo de Nossa Senhora a Branca (Braga) e como clientes, o juiz e os oficiais da Irmandade dos Sacerdotes de Santo António com sede na referida capela.

O mestre bracarense comprometia-se a fazer a obra até ao mês de maio de 1711, sob pena de perder 20$000 réis, “salvo se constar claramente de doença grave que tenha ou outro coalquer lezo frutuito que o desculpe não podendo acodir a dita obrigação”. Podemos verificar que a Irmandade dos Sacerdotes de Santo António, contrariamente ao que sucedia com a maioria dos clientes, era flexível quanto a impedimentos físicos que pudessem obstar o mestre de ter a obra concluída no prazo pré-estabelecido. Foram testemunhas presentes desta nota notarial, a saber: o Reverendo Padre António de Barros Carvalho, vigário em Santa Cristina de Longos; o Reverendo Padre Daniel Dias de Azevedo, abade de Salvador de Briteiros; e Jerónimo Francisco morador no lugar de Barqueiro, de São Cláudio do Barco.

Os trabalhos só seriam dados por finalizados, após serem vistoriados e avaliados por dois mestres peritos na arte. No caso de serem detetadas quaisquer deficiências, o mestre ver-se-ia obrigado a refazê-la à sua custa. Em relação às madeiras a utilizar pela oficina do mestre, é especificado que fossem “bem sequas e sans sem que tenhão moculos alguns”. Por toda a empreitada receberia 60$000 réis, que o encomendador daria em dois pagamentos: 20$000 réis no momento da assinatura desta escritura; e os restantes 40$000 réis, quando o retábulo estivesse assentado na capela.

O artista comprometia-se a executar o retábulo com as suas peanhas e “mais couzas”, de acordo com a planta mandada fazer para o efeito pelo cliente. Embora os apontamentos sejam imprecisos, o documento revela-nos que a Irmandade ficava obrigada a mandar buscar o retábulo à oficina do mestre entalhador Luís Vieira da Cruz e a sustentá-lo e aos seus oficiais “no tempo que se ocuparem na dita capella asentar o dito retabollo”. Em contrapartida, o mestre era obrigado a montar toda a estrutura retabilística na capela, sendo também à sua custa todos os pregos e escápulas necessárias.

No contrato o encomendador exigia que o artista hipotecasse “todos os seus bens moveis e de rais avidos e por aver e tersos de sua alma”, que responderiam pelo cumprimento da obra. No entanto, não foi exigida a apresentação de fiador. Por sua vez, a Irmandade, como garantia do pagamento ao artista dos 40$000 réis, obrigava todos os seus bens e rendas.

Nos finais de 1917, esta capela foi totalmente demolida, devido a critérios de ordenamento urbanístico, que na época se realizaram nesta freguesia. A própria inauguração em 1915 da nova igreja matriz, igualmente terá anunciado a destruição da Capela de Santo António, que já não satisfazia as necessidades de culto da povoação. Todo o espólio interior deste templo foi vendido aquando da sua demolição, incluindo o retábulo-mor executado por Luís Vieira da Cruz e os seus dois altares laterais, perdendo-se assim o seu rasto. Deste templo dedicado a Santo António, resta uma pequena edícula que esteve colocada durante vários anos no muro de suporte do jardim da Ara de Trajano. Esta edícula que continha uma pequena caixa de esmolas, com as inscrições -“1859” e “Meza” -, e o seu nicho dedicado a Santo António, ainda hoje se encontram junto da atual Igreja Matriz.

Da Capela de Santo António das Taipas, cuja origem remonta aos meados do século XVI, sendo posteriormente reconstruída entre 1692 e 1695, subsistem ainda relatos escritos, desenhos, fotografias, clichés em vidro e bilhetes-postais. Na toponímia desta vila, existe atualmente uma rua denominada de Santo António, que atravessa o local onde se localizava esta capela.

Historiador, docente na Escola EB 2, 3 de Briteiros