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O recomeço das aulase noites em branco…
Terça-feira, Dezembro 2, 2008

Tenho de fazer um texto, uma daquelas minhas prosas bárbaras que não querem dizer nada em especial, mas, ao mesmo tempo, estão eivadas de vivências passadas, de um tempo feliz.

Não é bem a saudade da minha cidade tripeira, cinzenta e granítica que me envolve, nem daqueles que já partiram; é antes um sentimento melancólico, terno, muito agradável e calorento, que tomou posse de mim e me levou a fazer o que adoro – devanear, partir para parte incerta, o mesmo é dizer, escrever sem saber muito bem sobre o quê, contradizendo-me já, pois que o há.

Este recomeço das aulas, este novo ciclo que se inicia aqui e agora faz ecoar lá longe no tempo, num passado simultaneamente tão longínquo e tão actual, recomeços, pois que constantemente revividos. Ao nó de angústia face ao desconhecido, ao novo, que se instalava no meu estômago nos dias anteriores ao começo das aulas acrescia-se uma noite de insónia. Que me lembre, comecei sempre o novo ano com uma noite em branco a contar o passar indeterminável dos minutos e das horas que, nessa ocasião, nunca mais passam.

Ainda hoje padeço do mesmo mal. Sempre pensei que, uma vez professora, a maleita passasse. Infelizmente, tal não aconteceu. Os nervos continuam a incomodar-me (?) e dou comigo, de madrugada, a embrulhar-me e a desembrulhar-me nos lençóis.

No dia quinze de Setembro, aconteceu o arranque de mais um ano lectivo e, para variar, voltei a fazer a revisão da matéria dada e tantas vezes revista e revisitada. Já não estranho. O tal reflexo condicionado de Pavlov a funcionar? Quem sabe? Acho que eu própria já condiciono mentalmente essas minhas noites, depois de tanto as viver.

E eis que aterro em plena psicologia, psicanálise e tudo o mais que se lhes relacione. Estranhos os meandros da mente… Não, prefiro manter-me na onda melancólica desse reviver continuado em que há situações que se mantiveram ao longo dos anos: as expectativas de que a educação seja cada vez melhor e as oportunidades surjam ao virar de cada esquina. Isso aconteceu. Hoje, a escola é obrigatória para todos (salvo para uns quantos que ainda a conseguem fintar, vá-se lá saber porquê!), e, à partida, as oportunidades deveriam ser iguais. Pura ilusão! Apesar de todos os apoios (incipientes, incompletos e enganatórios), continuam a ser os alunos das faixas com baixo poder económico a abandonar o sistema educativo mais cedo. E compreende-se… Os papás não lhes podem suportar economicamente as desilusões, as angústias, as indefinições… O dinheiro é necessário e, quando o aluno não dá ou não quer, o mercado do trabalho está aí para o receber de braços abertos no emprego não qualificado, com a escolaridade mínima (o 9º ano), e com ordenados mínimos. A luta desses jovens pode depois seguir dois caminhos: ou se conformam com o que têm e é pouco e vão mais tarde engrossar o grupo dos pais que dizem que a escola não serve para nada, ou partem para a luta e acabam por tirar um curso profissional ou mesmo superior (dependendo do grau em que ficaram) agarrando as Novas Oportunidades ou dando-se uma nova oportunidade enquanto trabalhadores – estudantes. Os casos mais preocupantes acabam por ser os outros, os que provêm de famílias com algum poder económico e que andam a assombrar as universidades, quais fantasmas impedidos de alcançarem a tranquilidade da luz. Esses, ou não fazem nada e coleccionam chumbos ou, permanentemente insatisfeitos e descontentes, coleccionam cursos e pós-graduações sem se definirem e sem coragem para tomarem as rédeas do seu destino, da sua vida. Tanto uns como outros recusam-se a crescer, a sair das penas protectoras do ninho onde nasceram. A tal adultês de que se começa a falar, uma nova fase entre a adolescência e a idade adulta. Eles, habituaram-se a andar de rabinho tremido, a terem tudo quanto querem, inclusive os chiliques, porque os papás e as mamãs estão aí para lhes aparar o jogo e passar a mão pela cabeça.

Não consigo entender esta crise existencial, porque a vida, embora não se apresentasse tão difícil como para a juventude actual, não foi fácil. E eu comecei a trabalhar antes de acabar o curso. Fui trabalhadora – estudante e andei numa correria e «em camionetas», para a frente e para trás… Sinceramente, não compreendo esta situação, mas eu sou d’«autre époque», como já me disse um miúdo. Sou duma época em que queríamos a nossa independência, em que queríamos desbravar à nossa custa, em que a chuva e as intempéries climáticas não nos assustavam, em que a distância se vencia de todas as maneiras menos conduzindo automóvel próprio, em que os professores andavam de boleia uns com os outros, em que os horários eram aceites com alegria e não se ia discutir com o Conselho Executivo a sua qualidade e muito menos a distribuição das aulas, em que se faziam actividades extra sem se exigirem horas extraordinárias, em que se ia para a profissão por vocação, em que se olhava de lado para os professores que faziam greve… Estava-se em 1978/79. Uma vida! Mas uma coisa é certa. Nunca gostei de ser coitadinha! Sempre fui adepta de que penas têm as galinhas. Neste momento, porém, não me ocorre dizer mais nada: «Coitados dos nossos pequeninos!»

E eu faço mea culpa!!

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