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O papel estratégico dos transportes públicos
Quinta-feira, Julho 9, 2015

A dispersão urbana é a consequência e imagem de marca das políticas de desenvolvimento urbanístico promovidas por quem nos últimos anos teve a responsabilidade de traçar os destinos do concelho de Guimarães.

Esta prática urbanística, associada a alguma permissividade, desenhou uma realidade territorial mais consonante com interesses individuais privados, do que com o interesse colectivo e público e funcionou como resposta imediata e simplista a clientelismos de momento, sem qualquer tipo de organização e preocupação em projectar, hoje, o concelho que pretendemos para o futuro.

Num cenário destes, aparentemente desregulado e não planeado, onde o campo se confunde com a cidade ou vice versa, agravam-se as dificuldades de circulação e mobilidade, numa rede viária cujo traçado se baseou e assentou em pré-existências com outras necessidades, muitas delas envolvidas por edificios dos dois lados da via, sem dimensão que permita a circulação nos dois sentidos e com a agravante de muitos destes caminhos não permitirem, pela exiguidade do perfil, a existência de passeios para circulação de peões em segurança.

A dispersão tem custos acrescidos no abastecimento de água, saneamento e respectivo tratamento das águas residuais, na eficácia da recolha de residuos sólidos domésticos, nas infraestruras eléctricas, telecomunicações e gás e, tão ou mais grave, nas vias de circulação.

Acresce ainda, a tudo o que foi dito, que a manutenção e arranjo de toda esta capilaridade circulatória tem custos enormes e significativos para o orçamento municipal, obrigando à selecção das intervenções dos casos considerados mais urgentes, com as consequentes e naturais reclamações daqueles que vêm as suas pretenções adiadas.

Esta realidade provoca dificuldades de planeamento, tendo em conta a quase impossibilidade espacial de definir um traçado rodoviário, sem causar a demolição de edificado que, como sabemos, aumenta significativamente os custos de qualquer intervenção. A recente discussão pública sobre a necessidade de acesso melhorado ao Avepark demonstra bem essa dificuldade.

Com a entrada em vigor do novo PDM, a aposta de desenvolvimento centra-se, contrariando a filosofia anterior, numa maior concentração e reforço dos vários pólos urbanos existentes, ou seja, maior concentração urbana para as actuais vilas do concelho.

Guimarães precisa de uma política que privilegie as vias de comunicação entre as várias vilas do concelho e o centro da cidade, reforçando a coesão territorial e estabelecendo laços afectivos e identitários de toda a comunidade vimaranense.

Nesta última reunião de câmara foi aprovado pela maioria, com os votos contra de toda a oposição, a prorrogação por cinco anos do contrato de concessão de exploração do serviço público de transportes colectivos urbanos de Guimarães, que vigorará até 2021. Com a vontade expressa do Municipio em concorrer ao titulo de Capital Verde Europeia, num concelho como Guimarães, com as características atrás referidas, os transportes públicos urbanos assumem um papel demasiado importante e como tal merecedor de uma maior atenção.

Depois dos elevados investimentos públicos na construção de infraestruturas culturais, como o Centro Cultural Vila Flor, o Multiusos, a Cidade Desportiva, a Plataforma das Artes e Criatividade, a Casa da Memória e em breve o Teatro Jordão e Garagem Avenida, é urgente redefinir o papel estratégico e fundamental dos transportes públicos urbanos que actualmente são geridos numa lógica de gestão que pouco ou nada tem a ver com o objectivo prioritário de prestação de serviço público, estimulando e facilitando a acesso das populações aos bens pagos pelos seus impostos, construídos em seu nome e pretendendo melhorar a sua qualidade de vida.

Adiar ou desviar para canto a urgente necessidade de uma outra forma de agir nesta área tão importante para o nosso futuro, que passa inevitávelmente pelo reforço de financiamento público municipal, é comprometer todo o trabalho de investimento realizado até aqui, e penso que, nós vimaranenses, não merecemos nem queremos que isso aconteça.