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O futuro do sector depende daquilo que os empresários forem capazes de fazer
Sexta-feira, Outubro 21, 2005

A China foi um tema incontornável do 7º Fórum da Indústria Têxtil, onde ficou claro que, mais do que lamentarem-se sobre a realidade, os empresários devem reagir e tentar ultrapassar o mau momento que a indústria atravessa.

Com o tema “A Liberalização do Comércio Têxtil e Vestuário”, o Fórum, promovido pela ATP e que decorreu no dia 19 de Outubro, em Famalicão, contou com a presença do Ministro da Economia e juntou diversas personalidades, mais ou menos ligadas à indústria têxtil, entre empresários, jornalistas, políticos e académicos, num debate moderado pela jornalista Fátima Campos Ferreira.

O Diagnóstico

A nível internacional, a China é já responsável por 16% das exportações mundiais de têxteis e 23% das exportações mundiais de vestuário. Nos primeiros quatro meses de 2005, as importações da UE com origem na China aumentaram 83%.

Para António Borges, vice-presidente da Goldman Sachs, um dos problemas para Portugal – e para a indústria têxtil, em particular – é a coincidência entre este período de mudança profunda e rápida a nível mundial com um período difícil da nossa economia.

Como consequência desta nova conjuntura, o emprego na indústria do têxtil e vestuário em Portugal, em 2005, diminuiu 6,8%, a produção foi reduzida em 8,2% e as exportações baixaram 10%.

No actual estado de coisas, a falta de flexibilidade laboral foi outro dos temas em debate. Para António Amorim, presidente do Citeve e do Cenestap, a legislação laboral é um entrave e deveria ser flexibilizada, para permitir uma reacção mais rápida às alterações do mercado (em Itália, lembrou, os trabalhadores podem ir temporariamente para casa, em períodos de menor procura, com um terço do salário pago pelas empresas e dois terços pelo Estado). Esta flexibilidade, disse Francisco Van Zeller, presidente da CIP, tem sido percebida pelos trabalhadores, mas difícil de negociar com os sindicatos, que não mostram abertura para o diálogo.

Para Silva Peneda, deputado europeu, este é um “jogo” onde há vencedores e perdedores, sendo que os vencedores serão as regiões europeias mais tecnológicas e os perdedores as regiões onde a produção é mais tradicional. Isto significa que os desequilíbrios regionais irão aumentar, sendo o Norte do País uma das mais afectadas com estes movimentos. “Mas é aqui que está a tradição e a capacidade de iniciativa”, acrescentou.

Empreendedorismo como uma das soluções

A propósito desta capacidade de iniciativa, Jorge Fiel disse que acredita que a Região Norte e, sobretudo do Vale do Ave, têm a iniciativa e o empreendedorismo necessários para ultrapassar a crise. O jornalista do Expresso deu como exemplo uma grande diferença entre as pessoas do Vale do Ave e as da Península de Setúbal: como em Setúbal estão habituados a trabalharem para outros, normalmente grandes empresas, saem com as bandeiras negras para as ruas, quando o desemprego aumenta e a solução é pôr lá mais uma grande empresa, como a Auto-Europa, por exemplo. No Vale do Ave, por outro lado, há a vontade e a capacidade para criar empresas, para criar o próprio emprego e para tentar ultrapassar a crise com os seus próprios meios, não sendo precisas as bandeira.

No mesmo sentido apontou Paulo Nunes de Almeida, presidente da ATP, que disse que o futuro do sector também depende daquilo que os empresários forem capazes de fazer. E falou em casos positivos: em 2004 houve, pela primeira vez, uma diferença favorável a Portugal nas relações bilaterais com Espanha (com as exportações portuguesas sustentadas, também, por cerca de 100 lojas de marcas próprias já implantadas no país vizinho). Isto mostra que é possível vencer neste sector.

Sobre os lamentos de alguns empresários em relação à forma como o Estado não ajuda – e ainda coloca uns “sapatos de chumbo” aos empresários, que ficam agarrados a uma carga burocrática excessiva e à falta de dinamismo da administraçãio pública – Daniel Bessa, presidente da EGP e ex-ministro da Economia, comentou que só há duas soluções: pressionar o Estado e as instituições europeias a darem respostas ou deixar estes problemas de contexto para serem resolvidos pelas instituições e serem os próprios empresários a avançarem com a procura das suas próprias respostas… “e eu inclino-me mais para esta última”, disse.

O futuro

“Há vinte anos, um empresário que se queria instalar no sector têxtil e do vestuário, começava por construir uma fábrica e contratar trabalhadores. Hoje é diferente. A parte produtiva é secundária”, disse António Borges. O futuro será para quem conhece os mercados, tem sabedoria e competências para desenvolver marcas, comercializar os produtos, promovê-los e que os irá comprar onde eles são mais baratos, encontrando formas inteligentes e eficazes de subcontratação. “É preciso, por um lado, utilizar a capacidade produtiva que existe em países como a China e o Paquistão a nosso favor e, por outro, utilizar todos os instrumentos possíveis para ajudar ao perído de transição (e os EUA fazem isso melhor do que nós)”, acrescentou.

Mas… “não há receitas”, disse Daniel Bessa.

No encerramento dos trabalhos, o ministro da Economia, Manuel Pinho, anunciou um conjunto de medidas que deverão apoiar o sector, no desenvolvimento de uma envolvente empresarial favorável, na formação e na implementação de projectos condizentes com a estratégia definida no projecto “Dínamo” para posicionar as empresas nos mercados internacionais.

PV

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