O (falso) problema dos “doutores” desempregados
Segunda-feira, Maio 31, 2004

Um estudo recente, publicado na edição de Março do Boletim Económico do Banco de Portugal – Mitos e factos sobre o mercado de trabalho português: A trágica fortuna dos licenciados – desmonta inequivocamente aquela asneira. No meio das “importantes” notícias sobre futebóis e processos judiciais mediáticos, este trabalho quase não teve eco na comunicação social. Não mereceu, sequer, o espaço noticioso que periodicamente é dedicado ao chamado “problema dos licenciados desempregados”.

Esse artigo deveria constituir leitura obrigatória para todos os professores e demais profissionais ligados à orientação educativa dos jovens, bem como para todos os encarregados de educação que efectivamente o queiram ser. As suas conclusões principais deveriam ser amplamente divulgadas e repetidas às famílias que, todos os anos, têm que decidir se vale a pena pôr um jovem português no Ensino Superior ou, até, prosseguir estudos secundários.

Naquele estudo, o autor, Pedro Portugal, demonstra que entre nós, durante a sua vida activa (entre os 20 e os 60 anos), os licenciados ganham, em média, mais 80% do que os trabalhadores com um curso secundário. Conclui ainda que as famílias, com um investimento médio de 25.000 € (somado o custo directo do curso superior e o que deixa de ganhar por não começar a trabalhar logo no fim do secundário), obtêm um retorno médio de cerca de 200.000 €. Por outras palavras, isto significa que uma “licenciatura garante, em média, uma taxa de rentabilidade real de 15% – uma rentabilidade definitivamente excepcional”, o que não tem equivalente em nenhuma aplicação financeira em que as famílias possam aplicar as suas poupanças. Em suma, hoje dia, o melhor dote a oferecer a um filho ou filha é um curso superior.

Em Portugal, por cada desempregado licenciado que conhecemos, há quase dois com o ensino secundário, três com o 9º ano e outros tantos com o 1º ciclo. Os licenciados não só beneficiam de maior estabilidade no emprego, como têm um risco quase quatro vezes menor de ficar em inactividade e três vezes mais possibilidades de beneficiar de rendimentos de uma segunda actividade. Por outro lado, trabalham, em média, quase menos duas horas por semana do que os trabalhadores com o ensino secundário, têm regimes laborais mais flexíveis e melhores condições físicas de trabalho.

É claro que há coisas que mudaram. Os recém-licenciados de certos cursos levam mais tempo a obter um emprego compatível com as suas qualificações do que há alguns anos atrás. Mas, também há casos, como nas licenciaturas das áreas das ciências aplicadas e tecnologias, em são fortemente assediados com ofertas de emprego mesmo antes de terminar o curso. De toda a maneira, nada impede um licenciado de aceitar, ainda que temporariamente, ofertas de emprego de nível inferior. A médio prazo, um licenciado acabará por encontrar um posto de trabalho de nível superior. Os restantes trabalhadores estarão sempre limitados pela insuficiência de qualificações para aceder aos melhores empregos.

Apesar de tudo, talvez a mudança mais profunda resida do facto de, nos últimos anos, aceder ao Ensino Superior um número muito maior de filhos das famílias mais humildes. Ou seja, os jovens provenientes das classes alta e média-alta, filhos de pais com maior poder económico e/ou mais qualificações escolares, têm de competir com um número muito maior de colegas com igual habilitação académica. Por outro lado, são evidentes movimentações corporativas em certas profissões, tentando controlar a concorrência de novos licenciados, com receio de perder regalias e mercado de trabalho. Nestes duas questões estarão ancoradas as motivações profundas de certos discursos demagógicos. A democratização do acesso ao ensino aumenta a pressão da concorrência às elites sócio-profissionais instaladas e promove a ascensão social e económica das classes populares. A resposta mais clássica e primária é a da propagação do discurso de desvalorização das (novas) qualificações escolares.

Portugal tem, de longe, as piores taxas de escolarização da UE. Em todos os níveis de escolaridade, todos os 25 países têm taxas de qualificação escolar da população muito superiores às nossas. Este é o motor decisivo para desenvolvimento económico e social pois, citando o autor referido, “uma economia dotada de uma força de trabalho mais educada é também mais produtiva” e, acrescentaria eu, mais democrática e livre.